Um Santo fazia uma peregrinação pelo deserto. Caminhava para
meditar sobre as coisas da vida e os caminhos que tinha que percorrer. Neste
deserto, repleto de templos de areia, com altares de areia, e crentes de areia,
ele via como era volúvel a fé humana. Entendia como as coisas eram simples e
que bastavam alguns sopros para que as coisas mudassem e se tornassem outras.
Os fiéis de areia, migravam de templo em templo. Ao sabor do vento, e estes
templos também mudavam a medida que ventos mais fortes juntavam um templo de areia
noutro. Assim era o deserto. Repleto de coisas de areia.
O Santo peregrino caminhou e cruzou todo o deserto, até chegar
num de seus lugares preferidos. Um lugar que cheirava a álcool, cigarro,
perfume barato, suor e lascívia. Neste lugar as pessoas não eram de areia, mas
de carne, e tinham desejos de carne, e vontades de carne. Não migravam ao sabor
do vento, mas à vontade da carne. Tinham desejos e os desejos eram mais reais
que as coisas que habitam o deserto. Eram desejos sinceros. Parcamente
iluminados em sua maioria, mas sinceros. Singelos, mas honestos. Ali o Santo
sentia-se em casa. E foi quando, entre um gole e outro de vinho, que surgiu um
velho homem de aspecto funesto e macabro. Ao redor dele, moscas, e um zumbido
infernal. Ele sentou-se à mesa do Santo, sem ser convidado para tal, mas fazia
porque ali ele era um Senhor, não um Servo.
- Seu lugar não é aqui, Santo. – Disse o homem com olhar
severo.
- Meu lugar é onde eu puder estar, e ao lado de quem
precisar. – Respondeu o Santo de forma serena.
- Aqui é um lugar de devassidão, de pecado, de luxúria, aqui
as pessoas não procuram um caminho para alcançar graças, mas desgraças. Aqui é
um lugar que o desejo deu voz e vazão ao que há de pior no homem.
- Ai é que você se engana, meu caro Opositor. Este é um
lugar que as pessoas podem ser como elas são, elas são como podem e como devem,
aqui é um lugar que muitos véus caem.
- Tira-se uns, bota-se outros. Ao passo que alguns parcos
véus caem, outros são postos nos olhos já cegos dos que aqui vivem.
- E quem pode ver a Verdade com olhos nus?
O Opositor fez uma breve pausa. Era algo a se pensar, mas
mesmo assim, ali não era um lugar que Santos pudessem fazer algo. Ali era um
lugar que as pessoas iam para se entregar aos vícios, e apenas estar ali
macularia uma alma. Ali era o lugar do pecado, e o pecado é algo que consome,
pois seu nome é Culpa, a irmã mais nova da Consciência.
- Ainda assim, Santo. – Continuou o Opositor. – Você nada
tem a fazer aqui, apenas aqueles que querem ser salvos é que serão, e ninguém
aqui espera salvação.
- Ninguém está para ser salvo. – Disse o Santo de forma
rápida. – Tão pouco estou aqui para me prontificar para salvar alguém. Não
tenho o poder de salvar aquele que não está em perigo, temo, entretanto, por
aqueles que estão no deserto. Os fiéis de areia precisam de ajuda, mas o vento
é constante, e até mesmo minhas palavras fazem com que mudem de lugar para o
outro dentro do deserto.
- Como estes que estão aqui estão menos perdidos que os que
estão no deserto?
- Simples, estes sabem que existem caminhos a serem
seguidos. Os moradores do deserto, nem isso. Aqui as pessoas estão em terreno
sólido, e não importa para que lado andem, uma hora, acharão o caminho que lhes
cabe, os fieis de areia infelizmente estão em situação crítica.
- Então você acredita que os que hoje são meus eventualmente
encontrarão o caminho da Santidade?
- Eles já estão no caminho.
- Como assim?
O Santo parou por um tempo, respirou fundo, olhou ao redor,
tomou um gole de seu vinho e parou para pensar. Lembrou das coisas que fizeram
com que ele chegasse lá, as coisas que o guiaram, os caminhos percorridos, e
ele pensou na pergunta que se fez há muito: “Qual é o caminho da Santidade?”.
Ouviu tantas respostas quanto eram possíveis serem ouvidas, pensou também em
tantas outras respostas quanto poderia dar. Nenhuma delas era satisfatória.
Nenhuma delas era boa o bastante. Foi em meditação que ele pôde ter uma
revelação, um caminho a seguir. Essa revelação foi extremamente simples, como
todas as boas revelações devem ser. Ele entendeu que todos os caminhos levam à
Santidade, desde que não seja desviado.
O Caminho que o Santo escolhe para si, é seu caminho de
Santidade, e não deve ser desviado, não importa o que seja esse caminho,
desviar-se é perder-se, e ao se perder, a pessoa peca contra a única divindade
que realmente deveria importar, ela mesma. Ela peca contra si, e ao fazer tal
coisa, ao fazer aquilo que ela mesma toma como errada, ela se fecha, e mergulha
na culpa, e no remorso. Sim, era assim que os santos deveriam ser.
- As pessoas que aqui estão fazem o que fazem, porque fazem
o que são, elas estão livres de culpa, e tua moralidade não as afeta. – Disse o
Santo com um Riso no Rosto. – Quem faz o Pecado é o Pecador. Enquanto os que
estão aqui fizerem aquilo que eles acham certo, eles estarão no caminho Santo.
- Você chama de Santo os bêbados e as prostitutas, os
Sodomitas, essas Abominações?
- Sim...
- Você acredita que as pessoas que todos os dias oram, e
rezam, e jejuam, e prestam honras aos deuses deveriam fazer isso que esses
bêbados e ímpios fazem?
- Não...
O Opositor parou, ele não conseguia entender onde o Santo queria
chegar, se o Caminho para a Santidade era o Caminhos dos bêbados e sodomitas,
então a vida de jejum e oração era uma vida errada, era simples o raciocínio. O
Santo, contudo, parecia discordar disso, ao passo que afirmava outra coisa.
- A vida não é dual,
meu caro Opositor, há tantos caminhos quanto há pessoas, há aqueles que
alcançarão a Santidade fazendo as práticas ascéticas, enquanto também há
aqueles que através dos excessos chegarão. Não posso determinar o caminho, é o
Coração da Pessoa que diz.
- As escrituras...
- As tuas escrituras. Estas não são minhas, nem tão pouco
foram escritas por mim, ou para mim. Como eu falei, cabe apenas à verdade de
cada um aquilo que vai levá-lo à Santidade. Não posso dizer o caminho de
ninguém, mas sei quando se desviam, você por exemplo, Opositor, é tão Santo
quanto qualquer outro Santo. Você faz o que tem que ser feito, e nunca se
desvia do seu caminho. Louvável.
O Opositor então suspira, materializa um cálice de cristal
rubro, com um líquido negro dentro, ergue e brinda junto com o Santo. Assim é a
vida, e nessa noite, dois Santos beberam num templo de luxúria sobre um altar
malícia, e ainda assim, permaneceram puros.
Um comentário:
Meu titulo: Todos os caminhos levam a roma. :3
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