quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Jornadas e Caminhos

Houve então um momento de silêncio. A princesa havia jurado e juras são coisas sérias. Todos pararam para ouvir o urro de dor que ela proferiu e então o juramento de ser como o gelo, e então ser gelo. Em muito tempo, ninguém nunca ouviu a princesa falar deste modo, em muito tempo, ninguém nunca esperou que o sorriso fácil da pequena princesa escondesse tamanha dor e sofrimento.
Não muito distante dali uma criança cega afinava um violino imaginário que tocava as melodias do coração com perfeição. A criança viu a sorte da princesa e esta se recusou a crer naquilo que lhe havia sido dito. A criança falou que seu pretendente era alguém que de um mundo distante, com costumes diferentes e hábitos diferentes. Disse para a princesa que seu consorte era um plebeu e que este se apoiaria nela sempre que estivesse caindo, mas nenhum plebeu pode suportar o peso de um nobre. Enquanto ela para ele seria uma fonte de luz e renovação, ela teria que trilhar o caminho de forma mais árdua, na escuridão, pois o plebeu possui tochas e não luz própria. A princesa não acreditou nas palavras da criança e seguiu.
A criança afinou então o seu violino imaginário e contemplou a princesa que seguiu o caminho que havia dito que seguiria. Ela seguiu acompanhada e só ao mesmo tempo por um caminho longo que por vezes o mais bravo de todos não consegue percorrer sozinho. Seguiu caminhando descalça, pois teve que dar suas sandálias para o plebeu, num chão de espinhos e lágrimas. A princesa percorreu o caminho ouvindo um réquiem que era tocado por pardais em coro, flores solistas e cascalhos intrometidos.
Depois de muito caminhar, com os pés ensangüentados, a boca seca de palavras de força, o coração rasgado, ao som de uma valsa triste, com rosas ao redor ela proferiu uma jura triste, solene e etérea. Jurou que quando tudo tivesse um fim, o frio tocaria seu coração e então ele seria como gelo.
A criança ouviu tudo isso, mas sabia, no entanto que o coração não é de água para congelar, mas é vento e fogo. Por isso voa sem controle e arrasa todos os lugares por onde passa. Isso não pode ser congelado, não se congela o relâmpago, não se para o vento, não se interrompe a tempestade, e não se apaga o Sol. A criança sabe que é impossível de cumprir este juramento que a princesa fez. Sabe que por mais que tente a chama do coração de um nobre queima mais do que qualquer coisa, sabe que depois que tudo acabasse, e a jornada terminasse, quando a noite chegasse, a princesa seria o que ela sempre foi. Uma gata. Que faz coisas de gata, fala coisas de gata e vive como gata. Neste momento ela voltaria para seu lar, descansaria e então poderia amar novamente, não apenas como princesa, ou apenas como gata, mas como ela mesma.
A criança recolheu seu violino, viu um “pequeno corvo”, abraçou forte sua “espada”, e seguiu a sua própria jornada. Pois assim é a vida, cheia de caminhos e encruzilhadas, quem sabe quando os caminhos se cruzarão novamente, e talvez a criança possa recitar uma história mais feliz sobre princesa na próxima vez que se encontrarem. Sim, histórias felizes as vezes são coisas boas. A criança sorriu e seguiu. Deixando para trás um violino, um coração petrificado, uma adaga e levando apenas um sorriso

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