quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Adeus, Meu Amado Imortal.

Era uma manhã de domingo, num Novembro ensolarado. Apenas uma leve brisa acariciava o rosto e o cabelo dela. Neste instante sorri... Sorri com a felicidade inocente de uma criança que pela primeira vez vê uma bola. Sorri como se fosse a primeira vez que via aquela pequena pessoa que sorria de volta para mim como se me reconhecendo, embora talvez, e apenas talvez, fosse mais uma reação desconcertada frente a um sorriso de um estranho do que verdadeiramente um reconhecimento real. Ainda assim ela estava lá. Cabelos negros, que já foram loiros, castanhos, brancos, ruivos e negros mais uma vez. Esvoaçando enquanto ela vem em minha direção. Sua tez pálida reflete os raios de sol fazendo com que ela fique ainda mais alva, tal qual a neve que um dia caiu por sobre seu rosto. Sou fitado por curiosos olhos castanhos, uma vez mais estes olhos já foram de tantas outras cores que mal consigo lembrar... Mentira, lembro-me das cores, lembro de cada coisa sobre ela.
Ela para diante de mim, e por um momento fico sem saber exatamente o que dizer, ou talvez o que fazer... ela sorri novamente, franzindo o cenho e pergunta:
-Sim? – Sua voz é cantante...
- Apenas admirando, você está tão linda quanto da primeira vez que nos vimos... – Disse por fim.
- Receio que esta seja a primeira vez que nos encontramos, gentil senhor. – a fala dela vinha com um ar de elegância.
Não pude deixar de rir, sempre é a mesma coisa, sempre acontece da mesma forma... Talvez seja a forma do destino impressionar dizendo que as coisas são inescapáveis a ele. Não importa quantas vezes tentemos sempre ele dará um jeito para que as coisas se repitam, simplesmente porque ele deseja que elas ocorram duma determinada maneira.
- Receio eu, minha pequena princesa, que estejas errada, duplamente errada, devo dizer. – Falei com tanta mesura na voz quanto ela, talvez mais. – Não sou gentil, de forma alguma sou gentil. Sou cruel e destrutivo, talvez fosse o lobo do homem se este já não fosse seu próprio. Sou alguém que fere sem propósito e ri das dores alheias, sou alguém que se deleita do sangue e se refestela da carne.
- Que triste então. Deve ser solitário viver deste modo, bebendo apenas quando sangram, e comendo apenas carne. Deste modo não tem como saber o sabor do mel, tão pouco do leite ou do vinho. Não terá como provar dos doces e dos amargores, apenas conhece o gosto ferroso do sangue. – Ela abriu um sorriso calmo e compreensivo, seus lábios rosados eram belos e pareciam expressar um misto de compaixão com ternura. - Triste também por ser destrutivo, pois nada podes juntar ou deixar perto, não pode segurar uma rosa sem que ela morra, tão pouco pode aproveitar da alegria de abraçar alguém que se ama, pois este alguém pode ser destruído.
- Sim, minha existência é amaldiçoada. Sou um alguém do vazio que vive para sempre na solidão. – Disse eu com minha voz saindo quase entre os dentes.
-Sempre é um tempo indefinido. Pode acabar a qualquer instante. Seu sempre pode ser apenas um ponto de vista que resolveu adotar. Mesmo assim, gentil senhor, diga qual é o outro engano que cometi. – Ela me olhava complacente.
- Esta não é a primeira vez que nos encontramos. – Disse também calmamente.
- Não compreendo. – Um semblante confuso era tudo o que tinha. – Como poderíamos ter nos encontrado outras vezes, se esta é a primeira vez que venho a esta cidade. Não lembro de você nas outras cidades que estive, então como pode tal coisa.
- Você apenas não tem como lembrar. Embora eu lembre claramente. Estive te esperando, desta vez demorou sessenta e cinco anos para que eu pudesse te ver novamente. Mesmo assim, você não mudou nada.
- Como assim? - Disse a menina ficando cada vez mais confusa, mas sempre acontecia deste mesmo modo. – Como pode você ter esperado mais do que sessenta e cinco anos se não aparenta ter mais do que trinta, e como posso ter ficado tanto tempo distante se eu mesma não chego aos vinte? – A exaltação na voz da dama era crescente.
- Sou imortal, minha cara, você não. – Minha calma é apenas sinal de experiência, fiz isso tantas outras vezes que já entendi quais são as etapas da descrença. – Esperei por que é isso que eu faço. Vi você morrer e renascer tantas vezes que já me acostumei, embora houve séculos que simplesmente não consegui te achar, eu eventualmente descubro notícias suas.
- E como pode você saber que sou eu aquela que reencarnou? – Ela de confusa estava mais para curiosa agora... – Como poderia dizer que não é outra pessoa que esta diante de você, mas aquela que você vem perseguindo por tanto tempo e com tanto afinco.
- Por causa do seu cheiro. – Perguntas extravagantes, respostas rápidas.
-Meu cheiro? O perfume é um Carolina Herrera, se quer saber, mas não sei se tinha um desses a sessenta e cinco anos atrás... – Disse ela com tom zombeteiro. – Acho que você está um tanto enganado quanto a isso.
- Não, posso estar enganado sobre muitas coisas, mas não quanto ao teu cheiro. Você é você, e cheiro nada tem a ver com o perfume externo que jogas por sobre você. Teu cheiro é toda a pletora de coisas que sinto sempre que respiro perto de você. Cada uma das lembranças que me vem a tona sempre que estou perto de você. Este cheiro de inocência, igual ao sorriso de um amante. Este cheiro de doce de flor de um campo distante. Eu não sinto essa coisa que você pôs por sobre teu corpo. O que sinto é o cheiro da lenha queimando como no dia em que te pedi em casamento pela primeira vez e você aceitou.
- Como essa sensação estranha de estar perto de você, e sentir esse cheiro que não sei por que me lembra o mar? – Disse ela sem perceber as lágrimas furtivas que rolam pela sua face. – Como se fossemos sempre afastados um do outro sem que nada pudéssemos fazer para ficar perto. Esse cheiro que sempre me lembra de viagem e distância?
- Sim, isso é sentir o cheiro de alguém, é lembrar das coisas que essa pessoa representa para você. – Disse enquanto me aproximava para abraçá-la. – E você, para mim representa os parcos momentos felizes que tive ao longo dos séculos. Você não tem idéia de como é viver para sempre e sempre esperar que você renasça para poder fazer valer a penas alguns breves anos a mais por sobre a terra.
- E por quê você se massacra tanto assim?- Perguntou a pequena dama enquanto se afastava de meu abraço. – Por quê você se lega ao sofrimento, se é imortal então para quê ficar a espera de uma única pessoa?
- Porque viver para sempre sem ter você por perto, é como já estar condenado ao inferno. – Disse eu parado e de cabeça baixa. – Mas cada coisa eventualmente acaba, não é? Se nosso romance chegou ao fim, mesmo depois de todos esses séculos, então talvez seja hora de seguir em frente. Talvez seja hora de dizer adeus e tentar viver uma nova história.
- Sim, faça isso, por favor... Não posso viver mais uma vez no oceano. Não posso mais uma vez ser legada à tormenta da separação que sempre que chega a morte me impõe. Seremos mais felizes um longe do outro. – Ela tentava convencer mais a si mesma do que a mim, mas eu entendi o que ela trazia consigo.
- Sim, vou partir para nunca mais. Nunca mais nos veremos novamente, e nunca mais te importunarei de novo, mas você ainda me deve um último beijo. Não vou cobrar, mas não vou te esquecer. – Então virei as costas e parti. Agora ela também tem cheiro de mar. Não, não é o mar, são lágrimas de adeus.
Enquanto seguia meu caminho pude ouvir, era quase como um sussurro, mas eu ouvi como um grito. Em meio a lágrimas de tristeza e dor quatro palavras emergiram, talvez como mais uma piada cruel do destino para me fazer sofrer, ou talvez como uma forma de mostrar que as coisas podem ter fim, mas outras duram para sempre. Para além disso tudo, eu pude ouvi-la dizer: "Adeus, meu amado imortal."

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