quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Princesa e o Troll.

Num reino distante, que o outrora principezinho, então rei, costumava ficar no alto duma colina observando as caravanas que chegavam, e que depois de uma conversa com uma criança cega e louca que cantava amar todas as coisas aprendeu a enxergar, ao invés de apenas ver o que estava diante de si. Este mesmo reino que possui como brasão um Arco Verde num Fundo Preto. Residia numa caverna, talvez por bondade do rei outrora príncipe, ou talvez simplesmente por que as coisas são assim e não se explicam demais, um troll. 
Este troll, asqueroso e terrível, devorava todos aqueles que entravam em sua caverna, todos exceto uma única criança, cega e louca e que cantava que amava todas as coisas. Esta criança era alguém que conversava com o Troll e este com a criança. Ela trazia notícias de além da caverna, contava das coisas que aconteciam, falava sobre as coisas da vida e sobre a vida das coisas. E a criança trouxe novidades interessantes certa vez. Falou duma dama com um nome principesco, que residia naquele reino, mas passava tempos suando numa cidade pesqueira. 
A criança, porém disse que tal dama já estava sendo cortejada, e que o troll era um troll, e deveria agir como um. Claro que a criança também sabia que aquele era o Rei dos Trolls, um ser que viveu por centenas de anos e travou duros combates pela honra dos Trolls. O Troll decidiu que observaria a disputa e a dama com o nome de princesa do alto da colina que outrora o principezinho então Rei costumava ficar para observar todo o reino. 
O Troll deparou-se com os três pretendentes conversando entre si. Como Rei dos Trolls, o Troll possuía habilidades únicas como, por exemplo a capacidade de ouvir coisas sendo ditas a muitas léguas de distância. Ouviu a seguinte discussão:
- Eu ganharei a dama, não existe este que seja meu rival. – Disse o primeiro com toda empáfia no olhar e toda a arrogância daquele que nunca conheceu uma única vitória por esforço próprio. – Eu a quero para mim e a conquistarei quando trouxer para ela a pele do Lobo Rei que outrora foi consorte da Rainha das Pumas. – Dizendo isso partiu sem nem ouvir o que os outros dois tinha a dizer.
O Troll teve que rir, pois não se conquista o amor com matanças, ele mesmo já teria um harém do tamanho daquele mísero reino se para cada besta que ele matasse uma mulher o amasse. Não é assim que funciona o amor, não são ameaças vãs, não é apenas a tua vontade, é algo diferente. Pensando e ouvindo, viu o outro mancebo dizendo:
- Tolo é este que crê que conseguirá o amor duma donzela com uma pele. – Este era mais maduro, mas ainda assim um tanto esquivo e de fala maliciosa. – Trarei a Maldita Rosa Eterna, este presente sim fará com que ela me ame. 
Mais uma vez o Troll riu, um riso tão alto que pôde ser ouvido como um trovão por todo o reino. Uma rosa? Ele mesmo já colheu rosas da roseira do tempo. Entregou uma para sua primeira rainha, uma para sua primeira filha e outra para o seu maior inimigo. A rosa é um grande símbolo, mas sozinha é apenas uma flor, uma flor que assim o tempo chegar murchará como todas as outras flores. Uma flor ainda não é aquilo que pode gerar o amor. Ela apenas põe em evidência aquilo que lá estava. Rosas não conquistam pessoas, nem geram amores... gerar amor é algo diferente. Vendo que o segundo ficou para gabar-se de seu feito e ver o terceiro desistir de sua tentativa, a conversa continuou e o troll prosseguiu ouvindo.
- Uma flor? Isto é o que você dará a dama com o nome de princesa? Quantas flores ela já não deve ter visto? Quantas rosas não deve ter ganhado – Zombou o terceiro como se tivesse uma solução brilhante e inovadora. – Eu sou um trovador. Como um bom trovador, cantarei e farei com que ela se encante por mim. 
Ambos se despediram e foram para suas tarefas. O Troll acompanhou a caçada do primeiro e viu quando o Lobo Soberano ficou diante do mortal tolo. Foi ai que o primeiro humano aprendeu que amor não se ganha com bravura, mas com a coragem de se fazer algo que se tem medo. Com a coragem de viver algo que é novo e imprevisível. O Soberano com seus olhos vermelhos fez com que o sangue do primeiro humano enregelasse e quando as gigantescas patas brancas do Lobo Imperador bateram no peito do humano, este entendeu que aquilo ele sentia não era amor, mas a vontade de se provar para a dama.
O Segundo humano entrou no Roseiral Eterno. Lá o espírito da Rosa contou a ele sobre o que é amar, e que não se escolhe amar alguém, simplesmente se ama. Fazendo desta jornada algo que estaria fadado a desgraça, o humano resolveu persistir, pois acreditou que os símbolos diriam tudo e representariam todas as coisas que ele quisesse. Triste o humano que não entende que qualquer símbolo pode representar qualquer coisa, e que a Rosa Eterna não representaria coisa alguma se não houvesse lá algo para ser representado. Em meio aos espinhos, rasgado até a alma pela sebe, ele entende que aquela rosa é uma busca vazia, e não importa o quanto ande, ele nunca vai alcançá-la, pois o sentido da coisa nunca encontra o seu símbolo, e era isso que ele queria fazer, matar o amor transformando-o em algo que uma rosa poderia esgotar todas as possibilidades. 
O terceiro humano pegou sua viola e tocou a mais doce melodia. Algo tão incrível que muitos pararam para ouvir. O Rei dos Trolls já havia escutado algo assim antes, chama-se solidão. Um vazio cantado de forma tão profunda que gerou ainda mais vazio, e que foi preciso ainda mais pessoas para que ouvir o vazio que aumentava e só fazia crescer. Terrível e triste, o trovador tocou o nada para uma platéia extasiada. E na música, pois esta quando se toca com o coração, fala para a alma também, ele entendeu que não amava a dama com nome de princesa, mas amava a idéia de poder amar, pois se sentia tão vazio de si, com tamanha necessidade de algo para completá-lo que só, somente, só a música seria capaz de fazê-lo feliz. 
O Rei Troll parou e pensou, não é a bravura, não é o símbolo, não é a canção. O que gera o amor... A criança cega, louca e que amava todas as coisas parou e como se fosse capaz de ler os pensamentos do troll falou a ele:
- Amor gera o amor. E apenas isso, e nada mais. Não são canções, não são atos heróicos, não são flores, é apenas a lembrança constante da ausência de um alguém. Somado a todas as faltas que não fazem faltas, todas estas pequenas coisas que são apenas uma demonstração de algo que pode vir a ser.
Nisto o Troll lembrou de sua rainha, outrora uma princesa entre os humanos, hoje um troll, e entendeu, ela abriu mão da humanidade para estar junto a ele, pois é assim que funciona essa coisa de amor, é um jogo de trocas e formas. No qual todos cedem e dão uma parte importante de si para o outro, para que possam viver juntos. A Rainha cedeu a humanidade, o Rei, a Coroa.

Nenhum comentário: