quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Cavaleiro Prateado.

Num reino distante, longe de muita coisa, e perto muitas outras, havia uma grande ordem de cavaleiros. Estes cavaleiros protegiam este reino de várias ameaças vis, inclusive acreditavam que mantinham um Rei Troll longe, e impediam que um Lobo Rei se aproximasse. Este reinado ficava a sul da floresta que outrora um Dragão de nome Razão fez sua morada, e uma Elfa, diziam alguns, ainda podia ser vista de rabo de olho por entre as árvores.
Belos cavaleiros que para provar seu valor se empenhavam em combates e torneios. Mostravam a quem quisesse ver o quão habilidosos eram. Dentre estes, o que diziam que era o melhor e mais habilidoso era o Cavaleiro Prateado. Este cavaleiro nunca havia se ferido em batalha, seu corpo era totalmente imaculado, e seu rosto contemplava a sua princesa prometida. Esta princesa, que era apenas uma trovadora, que cantava e tocava numa taberna na cidade, nem sabia que possuía o coração do galante cavaleiro, que apenas para espantar a solidão deitava-se com uma moura que veio dos reinos do leste, no lado contrário do território do Lobo Rei e da Puma Rainha.
Ainda assim, para o cavaleiro em sua poderosa armadura, com sua grande espada, e cruel maça, a vida parecia sem ânimo, e nada o motivava para coisa alguma. Nem mesmo o anúncio de um torneio o fazia se animar. Mais uma vez ele entraria e sairia com sua armadura impenetrável e nada poderia detê-lo, ninguém poderia machucá-lo. Todavia como cavaleiro real, era dever dele participar do torneio, escrevendo-se então para tal.
Todos os outros cavaleiros do reino estavam já desanimados ao saber que mais uma vez o Cavaleiro Prateado se inscrevera, até cavaleiros de outros reinos estavam tristes, mas um homem parecia indiferente ao fato. Ao contrário dos outros cavaleiros, que possuíam um corpo belo e aquele que tivesse menos chagas era entendido como o melhor, aquele homem tinha o corpo coberto por cicatrizes. Sua pele não era macia e sedosa como a de um galante guerreiro, mas parecia rija e áspera como a de um javali.
Quando o torneio começou, um a um todos os cavaleiros foram perdendo para o Cavaleiro Prateado sem nem ao menos arranhar sua armadura. Este foi galgando vitórias por sobre vitórias. Sem se importar quem era o seu adversário. Convicta, sua armadura, não seria derrotada. Tão pouco sua espada, Temporis, ou sua Maça, Iniquus. Chegou na final, como de costume, e procurou seu adversário. Este se apresentou, um homem sem armadura, mãos nuas e cortes ainda sangrando.
- Não vais vestir a armadura? – Perguntou o Cavaleiro – Não quero que acabe tão rápido o entretenimento da platéia.
- Não possuo armaduras. – disse o homem, elas de nada me serviram até hoje, e não será agora que me servirão. – Disse o homem se pondo diante do seu adversário.
O Cavaleiro não hesitou, avançou ferozmente e usando sua espada atingiu o homem no peito. Um golpe limpo, direto, e apenas o barulho metálico de sua espada se quebrando pôde ser ouvido. Nem mesmo um grito de dor a esmo. O homem sem armadura estava resoluto diante do Cavaleiro, a espada havia se partido, mas o sangue jorrava em grande profusão. Acreditando que isto havia sido apenas um golpe de sorte do homem, o Cavaleiro Prateado roda a maça no rosto do pobre homem sem um elmo para proteger-lhe a cabeça. Um ataque reto, e apenas o som de algo se espatifando pôde ser ouvido. A maça, que era metal puro estava em ruínas. Nesse momento o Cavaleiro recua.
- O que foi? – Perguntou o guerreiro com o rosto inchado e o peito ensangüentado – Por que não prossegue com os ataques?
O Cavaleiro não sabia o que fazer, não sabia para onde ir, estava confuso frente a esta pessoa que simplesmente ignorava ferimentos que deveriam ser fatais, que qualquer um teria como fatais. A única alternativa que viu foi perguntar:
- Seria você um monstro? Como uma espada no peito e uma maça na cabeça não te puseram a baixo? Como estes ferimentos que infligi por sobre você não te puseram de joelhos?
- Simples, caro Cavaleiro. – Respondeu o homem com um sorriso no rosto. – No peito eu guardo uma esperança e na cabeça um ideal. Enquanto tiver ambos colocados em seus devidos lugares, meu peito suportará todos os ataques, e minha cabeça não será declinada. As esperanças sobrevivem ao tempo, e os ideais vencem qualquer iniqüidade. Serei capaz de ficar diante de você e lutar.
- Lutar? – A voz do Cavaleiro titubeava – Mas com estes ferimentos? Como podes lutar? Por um acaso não conheceste a dor?
- Dor? – riu-se o guerreiro coberto em cicatrizes. – Você acha que simples facas e pedaços de ferro fornecerão dores maiores do que a de ser eu mesmo? Conheci a dor quando olhei para mim mesmo no espelho e me reconheci enquanto fraco e vulnerável. Hora de dar fim a isto.
- Dar fim? – o Cavaleiro parecia voltar a toda a altivez de outrora. – Quer dizer que pretende me atacar? Tolo, não compreende que minha armadura é inquebrável.
O Guerreiro caminhou até o Cavaleiro Prateado, pôs suavemente a mão sobre o peitoral da armadura dele, e quebrou a armadura inteira do Cavaleiro como se esta fosse feita de vidro. Apenas farelo prateado cobria o chão, e cavaleiro estava de joelhos frente ao guerreiro.
- Como eu te disse, caro Cavaleiro. Era hora de acabar com tudo isso. Armaduras são como convicções. Sempre que estão rígidas o bastante, elas se despedaçam frente ao peso do mundo. – o olhar do guerreiro ensangüentado parecia complacente. – Eu entendo que queira proteger-se do mundo, mas não é possível proteger-se de si mesmo. Eventualmente o peso do mundo, que é apenas o nosso próprio peso, recairá por sobre nós mesmos. Por isso eu vivo sem armadura, pois assim, eu entendo a dor de ser eu mesmo, e sempre que essa dor parece insuportável, uma esperança e um ideal me mantém inteiro e vivo. Não possuo convicções sólidas, sou flexível ao tempo e ao vento, mas sou sincero quanto a mim mesmo e ao que sinto.
Ao terminar de dizer estas palavras, o guerreiro retirou-se do campo de batalha. Foi para longe dali, voltou para o seu lugar de descanso, satisfeito, havia feito alguém entender uma lição naquele dia. E talvez, somente talvez, o cavaleiro possa decidir-se. Não decidir-se entre uma trovadora, ou uma moura, mas entre viver escondido atrás de uma armadura que se despedaçará sobre seu próprio peso, ou encarar o peso de ser ele mesmo.

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