Os pés dela tocavam aquela areia fofa e fria. O vento fazia com que pequenos fios de areia dançassem por entre os dedos dos pés descalços daquela menina. Não era dia, tão pouco noite. Tanto um quanto o outro estavam misturados no céu, ali havia noite no dia e dia na noite. O Sol e a Lua estavam abraçados no que deveria ser o centro do céu, e as estrelas podiam ser vistas brincando por sobre um tapete azul celeste. Na terra, entretanto, só havia areia. Areia e nada além de areia, dunas desenhavam aquele ambiente que parecia cada vez mais onírico.
Ela não sabia quanto havia andado, se é que havia andado. Não sabia, pois o tempo não parecia fazer diferença. Tudo parecia parado e movente ao mesmo instante. Foi quando ela percebeu a figura que estava à sua esquerda. Um vulto negro que sempre que ela tentava olhar diretamente esquivava-se e permanecia à esquerda.
Ela não sabia quanto havia andado, se é que havia andado. Não sabia, pois o tempo não parecia fazer diferença. Tudo parecia parado e movente ao mesmo instante. Foi quando ela percebeu a figura que estava à sua esquerda. Um vulto negro que sempre que ela tentava olhar diretamente esquivava-se e permanecia à esquerda.
- Quem é você? Onde estou? – Perguntou a mulher, que espantou-se ao ouvir a sua própria voz ecoando no vazio do deserto.
- Este é o lugar no qual os sonhos são criados. Assim como também é aqui que os sonhos se realizam. – A fala que a figura sombria proferia vinha sem voz nenhuma, era algo que era apenas sentido no fundo da alma, mas que não poderia ser ouvido por ouvidos humanos.
- Então isto é um sonho? – Perguntou a moça.
- Sim, e não... – Disse a figura funesta. – Este é realmente o reino dos sonhos, e você está certamente dormindo, mas isto não é um sonho é uma conversa e uma declaração.
- Como assim... Você não poderia ter falado comigo noutro lugar? – A confusão era evidente no olhar da mulher.
- Sim e não. – A figura persistiu. – Poderia ter feito isso doutra maneira, mas ai não seria eu, mas outro. Isto, digamos, faz parte do meu show. Vim até aqui, te seqüestrei do teu sonho pois queria falar contigo, mas não queria que soubestes que sou, tão pouco que lembrastes de nossa conversa.
- E o que você quer? – A mulher parecia impaciente. – Fale logo, não tenho tempo para perder com essas enroladas.
- Primeiro, pequena palhaça, eu queria te ouvir cantar uma última vez. – Ao falar isso o rosto da mulher foi tomado por uma maquiagem burlesca e lúgubre. Como se fosse uma palhaça se preparando para um funeral de infinitas pessoas. A areia moldou-se em diversas figuras igualmente sombrias, só que estas poderiam ser focadas, eram humanóides, esquálidos, jogados ao relento e a dor, pessoas que nunca tiveram chance. E uma lágrima furtiva rolou do olho esquerdo da palhaça, como se fosse apenas para finalizar esta doentia maquiagem. – Cante para mim, e para todos os que sofrem...
- Eu vou cantar o que? – Disse a triste palhaça. – Por que você faz isso? Para quê me mostrar todas essas coisas?
- Por que é isso o que faço, faz parte do meu show passar para você essa imagem cruel e profana. – Disse a figura sombria. – Preciso que me odeie, ou que ao menos tenha repulsa a mim. Preciso que fique longe, preciso do fundo da minha alma que esteja longe de mim.
- Por quê? O que te fiz? Eu nem ao menos sei quem é você, como eu poderia ter repulsa por alguém assim? – Disse a palhaça procurando alguma explicação para o que acontecia nos sonhos.
- Porque eu prometi que ficaria longe. – Disse a figura sombria, que agora poderia perceber que possuía olhos vermelhos e brilhantes. – Disse que ficaria longe, e manterei minha promessa a todo custo. De uma forma ou doutra, se não consigo me distanciar, farei que você me tenha ojeriza completa.
A figura então parou e por um instante era como se o próprio inferno estivesse presente. Crueldade e fúria estavam em todos os lugares. As figuras esquálidas se retorceram, e como se fossem feitas de areia, e eram, foram carregadas pelo vento. Só estava ali aquele ser furtivo, que fazia de tudo para não ser encarado.
- Vim de muito longe, mas é tudo o que consigo fazer. – A fala parecia um lamento, uma lamúria sem fim que a alma escuta e o corpo nega. – Trouxe-te aqui com um propósito. Vim fazer uma declaração que nunca poderia fazer enquanto teus olhos estivessem abertos. Não por covardia, ou talvez seja por isso, mas não posso estar diante de ti para isso. Mostrei-te muito de um show que nunca foi meu. Envolvi-te demais em histórias que nunca foram minhas. Apenas por que tive medo de trair meus princípios e meu nome. Renunciei a um sonho apenas por que outro disse que o sonho já era dele.
- Não entendo, do que fala? – Disse a palhaça. – Quem sonhou comigo?
- Alguém que depois de algum tempo simplesmente desistiu. Deixou passar e foi para outro lugar. Alguém que é tão inconstante quanto o tempo e que o nome é tão mutável quanto essas areias. Alguém que você conheceu e desconheceu, alguém que você simplesmente ignorou ao longo da sua vida, mas que reclamou você como o sonho dele. – A voz da figura funesta era de um compasso rápido. – Não tenho o direito de tomar os sonhos dos mortais. Isso não é algo que me cabe, então tive que dar passos para trás e deixar que você fluísse livre e solta.
- Por quê? – Pergunta simples de ser feita, difícil de ser respondida, mas a palhaça demandava isso.
- Porque é isso que sou. Sou imutável à passagem do tempo, mas por causa disto também tenho que me prender a coisas antigas. Não pude te jurar amores fora daqui, não pude falar o quanto você significava a mim enquanto seus olhos estivessem abertos. Nunca poderia te dizer como tua voz me arrebata sempre que canta, nunca poderia dizer que quando me aproximo a única vontade que tenho é a de te tomar em meus braços. Nunca poderei fazer nada disto, e graças ao meu show, mesmo que eu fale, você não mais poderá acreditar. Não mais será possível para você crer nas palavras deste que está ao seu lado, simplesmente por que eu fiz isso a mim mesmo. – Algo tão antigo quanto a tristeza ecoava da voz da figura sombria. – Sinto muito, mas este é o motivo pelo qual você não pode me ver de frente. Nem mesmo em seus sonhos sou permitido, e nem num sonho tu pode realmente me ver.
- Você tomou de mim a possibilidade de escolher não te amar? – Disse a palhaça indignada. – Como pôde ser tão cruel? Como pôde roubar de mim o direito que tenho de escolher amar ou não amar qualquer coisa?
- Faz parte do meu show. – Disse a figura de olhos vermelhos.
- O que você quer que eu faça agora? – A palhaça começava a gritar. – Será que já posso enlouquecer, ou devo apenas achar graça em tua fala?
- Faça como queira, nunca consegui fazer isso da maneira certa mesmo, sempre no fim das contas, todos me odeiam. Estou condenado a viver para sempre neste mundo de solidão e tristeza.
- Condenado apenas por que você mesmo se encerra neste mundo. – Disse a palhaça triste. – Você se jogou neste mundo de livre e espontânea vontade, e ninguém nem mesmo um deus pode obrigar ninguém a fazer coisa alguma.
- Condenado apenas por que você mesmo se encerra neste mundo. – Disse a palhaça triste. – Você se jogou neste mundo de livre e espontânea vontade, e ninguém nem mesmo um deus pode obrigar ninguém a fazer coisa alguma.
- Eu te obriguei a me odiar. – Disse a Sombra.
- Não, você me pediu para te odiar, mas nada senti por você, nunca senti e agora tudo o que sinto é pena. Você é triste, sombra de olhos vermelhos, mas eu conheci a solidão muito bem. Sei que é de escolha própria se jogar neste mundo de sombras. Embora as vezes seja deveras atrativo permanecer nele.
A figura sombria com estas palavras começou a esvanecer. A palhaça via o céu sendo separado entre dia e noite novamente, e por fim, viu-se acordada. As luzes entravam pela cortina do quarto dela, o som seco do ar-condicionado era a única coisa que se ouvia para além da própria respiração da palhaça.
No outro lado da cidade. Um feiticeiro olhava para uma taça cheia de vinho. Diante dele, uma criança cega e louca, que dizia amar todas as coisas sorria. Ele se ajeitou na cadeira, olhou para a criança cega, que possuía um olho vermelho e outro azul, e por fim perguntou:
- Gostou do espetáculo?
- Sim, e não. Você escolheu isso para si, tomou para si o direito de viver, e quando se fez vivo, acabou por se legar eternamente a prisão da liberdade. – Disse calmamente a criança. – Você tentou fugir disto, tentou estar para além da mortalidade, mas a dor é inescapável...
- Sim. – Disse o feiticeiro. – Estar vivo é sofrer.
-Não. – Disse a criança. – Estar vivo é escolher. O sofrimento nada mais é do que o peso de todas as vidas a quais você abdicou ao fazer as suas escolhas.
- O que posso fazer agora? - Disse o feiticeiro olhando nervoso para a criança. - Como lido com isso?
- As incertezas do amor, esse calor e essa dor... Faça o que quiser, feiticeiro... a vida é sua, escolha...
- Sim... - Disse o feiticeiro rindo-se.- Talvez apenas para rimar, eu escreva uma furtiva sonata...
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