Naquela noite quente de Verão alguém recitava palavras esquecidas por muitos, recitava numa cadência profana e sacra diante de uma parede repleta de símbolos arcanos. Ele dizia as palavras num tom vociferante e esperava que o nada ouvisse suas preces sombrias. Ele rogou aos caídos que as portas para o outro lado se abrissem e estas se abriram. Um ar gélido passou por todo o salão. Todas as velas se apagaram. Todos os sons cessaram. Todo o tempo parecia parado. Diante dele, no lugar onde deveria estar apenas a parede desenhada com símbolos profanos estava uma porta sombria. Parecia em muitos aspectos a entrada de um túnel, ou talvez de uma caverna.
Ele deu passos vacilantes para dentro do túnel e as sombras o envolveram. Para os que nunca tocaram as sombras, saibam que elas ao toque são frias como uma alcova de meretriz, densas como a espuma do mar à meia-noite, enervantes como um sussurro de um assassino na nuca de sua vítima momentos antes de finalizar o ato. Assim são as sombras e nada de belo reside nelas. E ele caminhou por entre este vale triste até deparar-se com a torpe amostra daquilo que ele procurava. Sentado num trono feito de ossos humanos, um nobre Rei Caído estava diante dele, e ele acreditou que estava pronto para fazer o acordo. A coroa do Rei Caído estava rachada como todas as coisas estavam nele, seu olho esquerdo era vermelho, o direito era azul, e seu sorriso parecia amável, como se ele pudesse amar e salvar todas as coisas. Talvez este seja o maior truque dos Caídos, serem distintos do que todos acreditam, ou talvez este fosse mesmo.
- Estou aqui para fazer um pacto! – Falou alto o homem que atravessou o portal para o outro lado.
- Sério? Não supus que viria tão longe apenas para ter uma conversa cordial, embora preferisse que fosse assim. – Disse o Rei em tom jovial e impressionantemente sedutor.
- Sou um feiticeiro e vim até aqui pelos meus próprios meios, quero então fazer um acordo. – Disse o homem ignorando as zombarias do Rei. – Você me dará o que quero!
- Sim, darei. – Disse o demônio de forma displicente. – Embora receio que aquilo que queres não seja exatamente o que necessitas, mas darei mesmo assim.
- Como assim? – Perguntou o homem ficando com dúvidas.
- Eu vejo o que queres, sei o que te motivou, e vejo para além desta tua pífia vida. – Disse o demônio em meio a um suspiro. – Sei que você vai se arrepender daquilo que pede, e sei ainda mais que há de sofrer mais do que estaria pronto.
- O que você vê? – Perguntou de modo aflitivo o homem diante do Mal Primordial. – Você vê a minha amada me abandonando? Você acha que ficarei pobre? Eu quero ter sucesso na vida, eu quero que minha amada fique comigo para sempre!
- Sim, tola criança, eu vejo que sua amada vai te deixar, não por não te amar, longe disso, mas por você não a amar como ele merece. – Meneando a cabeça de um lado para o outro enquanto de forma fabulosa equilibrava a coroa rachada o Nobre Caído prosseguia. – Não terás sucesso, pois sua cobiça vai te levar a ruína sempre que você começar a prosperar, e tua amada pode ficar ao seu lado, sim claro que pode, afinal eu posso conceder teu desejo, mas será que valerá a pena?
O homem diante do Mal tremia bastante, e em meio a escuridão ele pôde ouvir zumbidos como se milhares de moscas estivessem por perto. Um cheiro de podridão espalhou-se pelo ambiente e gritos puderam ser ouvidos ao longe. Mesmo assim o homem estava decidido.
- Claro que a amo, se não a amasse não atravessaria os portais do abismo para que ela permanecesse ao meu lado. Claro que isso tem que ser amor, eu não seria feliz sem ela e não quero que ela seja feliz sem mim.
- Você veio ter com um Demônio apenas para conseguir subjugar a vontade de alguém a tua, realmente você acredita que isso é amor? – Disse o demônio olhando para o homem com um olhar que não poderia ser pena, posto que demônios não deveriam sentir tal coisa, mas talvez fosse o mais próximo que os Caídos se aproximariam disto. – Eu sei o que acontecerá adiante e sei que você sofre se o acordo for traçado.
- E se eu não traçar este acordo, o que acontece? – Disse o homem no auge da petulância, mas ainda assim tinha algo de tristonho no olhar.
- Você será abandonado por essa dama, vai sofrer e chorar, penar e lamentar. Será abandonado certamente que será e esta dama será feliz sem você. Ainda assim você encontrará um novo amor, uma nova pessoa para ter em seus braços e vai aprender que é assim que as coisas são. Não se pode forçar alguém a te amar, e você só tem o amor que pode ter no momento que tem como ter. Cada dor que a vida nos impõe, meu caro, vem para o nosso crescimento, e não há dor maior que a dor de um coração partido. – O demônio fez uma pausa, como se lembrasse de algo. – Sofra e aprenda, conserve sua alma e se livre da Danação Eterna.
- Eu não quero um amor melhor, eu não quero ser feliz com outra pessoa, eu quero minha amada. – Disse o homem no auge de sua arrogância.
- Vale tanto assim perder a sua alma por alguém que você não ama? – Perguntou o demônio. – Vocês mortais condenam a si mesmos a danações apenas por essas coisas pequenas. Egoísmo disfarçado de amor, orgulho disfarçado de vitimismo, inveja disfarçada de amizade. Essas são as pequenas coisas que vocês fazem e legam a nós a responsabilidade, no fim os torpes são vocês mesmos.
- Não importa, eu quero mesmo assim! – Disse o homem ignorando por completo as palavras do demônio. – Você pode fazer isso?
- Posso muitas coisas, inclusive fazer com que um alguém fique ao teu lado por uma eternidade. – Disse o demônio com pesar. – Não posso entretanto criar amores verdadeiros. Eu só faço tomar, nunca dou. Eu só tiro, nunca coloco. Eu tirarei todo o amor que sua amada tem por si, tirarei toda a vontade de fazer qualquer outra coisa além de estar contigo e deixarei uma casca vazia e com apenas uma vontade, que é a de ter você ao lado. Nada além disso será deixado, e quero ver o quanto você agüenta, o quanto você agüenta ser o estuprador daquela que diz amar, o quanto você agüenta ter uma boneca no lugar de um humano com vontades e desejos. Sim criança tola, eu te darei o que me pede, mas saiba que uma vez dado, nada poderá fazer com que isso seja desfeito.
- Perfeito então. – O homem riu e estava contente. – Você é o meu salvador, eu não quero que nunca ela me traia, que só tenha olhos para mim e que tudo da vida dela seja eu!
- Ouvi da primeira vez aquilo que desejou. – Disse o demônio.
- Eu quero, contudo uma condição, para encerrar isso. – Disse o homem se achando esperto. – Quero que quando eu canse de ter ela ao meu lado eu possa simplesmente dizer para desfazer e ela irá embora.
- Você quer, em resumo, um brinquedo para brincar e descartar quando quiser. – Disse o demônio analisando o homem. – Você quer que ela seja apenas um brinquedo em suas mãos, é isso?
- Sim, e não quero que ela tenha mais nada, que ela dependa de mim para tudo, quero que perca o dinheiro, que não consiga progredir em lugar algum, que não possa fazer nada sem depender totalmente de mim. – O sorriso de satisfação que exibia o homem ao falar tais coisas era aterrador. – Eu quero que ela não consiga coisa alguma sem mim ou minha permissão.
- Feito. – Disse o demônio. – Se você acredita que vale a pena perder tua alma por um brinquedo, então quem sou eu para negar tal solicitação?
Então o homem estava novamente em seu quarto, com as janelas abertas, moscas saindo do quarto e uma sensação de satisfação. Do outro lado do portal, no lugar escuro, uma criança cega e louca que dizia amar todas as coisas estava diante de um Rei Vidente e São que dizia Odiar todas as coisas. Ela veio para aconselhar o Rei, o Rei estava ali para ouvir os conselhos, e questionar sobre a natureza dos homens e das coisas.
- Não consigo entendê-los, disse com todas as palavras o que aconteceria de ruim a ele se ele persistisse no caminho e ele simplesmente me ignorou. – Disse o demônio com ar cansado.
- Não cabe a você fazer as escolhas dos mortais, Nobre Caído. – Disse a criança a cantar. – Você é apenas algo que faz, um agente. Os humanos é que são os livres para escolher o que desejam e escolher onde querem cair.
- Mas ele não entende que o que ele sente não é amor? – Disse o Rei em aflição.
- Não. Ele não entende. Amor é algo implausível de ser determinado, e por tal razão, não se pode dizer exatamente o que vem a ser. Como um rasgo no nada, não se pode dizer que o nada está rasgado, apenas especular que isso é possível ou não. O amor é assim, e por não saber ao certo, alguém que nunca conheceu outra coisa além do amor por si, não pode dizer se o que sente é ou não amor.
- Na tentativa de obter uma felicidade mútua, os humanos acabam caindo nas armadilhas do egoísmo, não é? Compreendo! – O demônio parecia cansado ao levantar-se do seu trono.
- Sim, Nobre Caído, na tentativa de serem felizes, eles buscam desenfreadamente a infelicidade. Mesmo que não saibam, pois no momento, aquela sensação de felicidade é a única coisa que eles são capazes de compreender.
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