Já era noite naquele bosque. A lua estava alta no céu, reluzente como se fosse feita de prata. Não havia nuvens, nem estrelas, apenas a lua. Era como se um enorme pano preto servisse de moldura para uma brilhante baixela prateada. Sob esta luz, um corpo se movia esquivo e esguio por entre as árvores. Veloz e destro, um vulto ruivo que se perdia ao menor piscar de olhos parecia dirigir-se para algum lugar.
Mesmo sendo primavera ainda havia neve, dizem que é por causa do coração do Soberano Lobo que enregelou toda essa parte da floresta e nada poderia trazer o degelo. Um coração tão frio que trouxe o eterno inverno para seu povo. Por isso a Raposa movia-se tão rápido. Seu intento era trazer alento para o coração do soberano e com isso fazer com que a primavera mais uma vez retornasse.
O inverno da alma é o mais terrível, e precisava ser aplacado. Muitos dependiam do nobre Lobo Rei, e a raposa acreditava que se encantasse o Soberano as coisas iriam voltar a ser como antes, e o Sol finalmente iria raiar depois de tantos dias de noite. Se o Lobo encontrasse a chama do amor novamente dentro de si, ele faria com que o Sol aparecesse, as estrelas voltassem a brilhar, e o verão em fim chegasse.
A Raposa então se empenhou na tarefa de seduzir-Lo, e saiu de seu covil do outro lado do reino e correu para chegar rapidamente ao Grande Imperador Lupino. Chegando numa clareira, exausta, sedenta e faminta, a insone Raposa resolveu descansar um pouco. Precisava descansar as patas cansadas, respirar da viagem longa, para que pudesse dar procedimento a sua sina.
Sina, pois o destino da Raposa, ela pensou era o de sempre ser o amor de todos, mas nunca o de quem ela realmente deseja. A sina da Raposa é tomar para si o coração de todos menos daqueles a quem ela realmente ama, afinal não haveria sentido em roubar algo como o amor verdadeiro, este deveria lhe ser dado de bom grado, e nunca roubado.
Quando estava prestes a mover-se a Raposa percebe alguém em meio às arvores. Uma figura pequena, que se aproximava cantando algo que fugia a mente da Raposa sempre que ela tentava entender o que estava sendo cantado. Uma criança surge em meio a clareira, sob uma bela lua prateada.
Quando estava prestes a mover-se a Raposa percebe alguém em meio às arvores. Uma figura pequena, que se aproximava cantando algo que fugia a mente da Raposa sempre que ela tentava entender o que estava sendo cantado. Uma criança surge em meio a clareira, sob uma bela lua prateada.
A Raposa que estava faminta cogita em como iria comer a criança sorridente que estava diante dela, e os olhos enevoados dela traziam a tona a verdade sobre sua visão. Uma criança cega, descalça, e vestida em andrajos em meio a Floresta Nevada dos Lamentos. A Raposa calculava o quanto sortuda ela era, pois isto é uma das coisas que as Raposas são, seres de sorte, destino e acaso. Resolve se mover silenciosamente para que a criança cega não notasse sua aproximação.
- Dona Raposa, sinto lhe dizer que esta jornada é vã. – Disse a criança encarando a Raposa.
A Raposa encarou-a por algum tempo. Não entendeu como uma criança cega poderia saber que ela estava ali, mas dizem que os cegos enxergam coisas que os videntes não conseguem. Desse modo, ficou parada e decidiu esperar que a criança seguisse o seu caminho. A Raposa sabia que precisava rumar para o alto da mais alta montanha a fim de fazer com que o Rei Lobo a amasse.
- Por isso que sua jornada é vã, minha doce Raposa. – A criança parecia encará-la com seus olhos enevoados e coloridos, um azul e outro vermelho. – Não se pode fazer amar. Não é possível para ninguém fazer com que o outro o ame. Não importa o quanto você se diga sedutora, isso só é relevante para você mesma, pois o outro é quem escolhe se deve ou não te amar.
Uma criança, pensou a Raposa, não deve saber o que fala, afinal é apenas uma criança. Não há a possibilidade de ela saber o que é o amor, ou os rudimentos dos jogos da conquista. Seduzir é uma arte antiga, que leva muito tempo para ser dominada e é fruto de constante empenho e dedicação a abdicar de pequenos pedaços seus para agradar pequenas partes do outro.
Seduzir é como a dança que o mar faz com a praia, o mar cede um pouco de si para a praia, para que este tenha o sabor do mar em seus lábios e queira mais. O avanço do Mar é apenas uma amostra daquilo que ele é capaz, e a sede da praia que bebe cada gota de mar que se derrama por sobre ela, é apenas aumentada pela insistência da dança, até que toda a praia seja devorada pela dança.
- Isso é amor? – Perguntou a criança para a raposa absorta em seus pensamentos.
Claro que é, pensou a Raposa enquanto farejava a criança e tentava descobrir se de fato ela era humana, ou se era algo a mais. Amor é isso, algo que consome todas as coisas e arrebata tudo o que vê pela frente.
- Não, minha cara Raposa... Isso é paixão. Esse fogo intenso que absorve tudo não é como o terno calor do Sol, que mesmo no dia mais fustigante de verão não consome toda a terra a transformando em brasa ardente. Não haveria Mar ou Praia para fazer esta dança se o Sol não amasse a todos. Não haveria simplesmente porque o Sol engoliria todas as coisas que não são ele apenas para aplacar a dor da paixão que sente. A paixão queima tantas coisas tão rapidamente que em pouco tempo não haveria mais nada para queimar. Pequena Raposa, amor não tem a ver com a sua dança, pois não é algo para dois. Amor nunca é algo apenas para duas pessoas, mas para o mundo.
A Raposa não conseguia compreender isso, meneou a cabeça e olhou para a Lua. Ao ver aquela grande e brilhante Dama Prateada no céu pensou: Se amor não é uma Dança a dois, então o que viria a ser esta dança do Sol com a Lua? Como poderia a Lua e Sol não serem os amantes perdidos e separados pela fúria e inveja dos deuses? Como não poderia ser crueldade isto que o Lobo Rei fazia ao impedir que a Lua pudesse ver, mesmo que por poucos instantes seu amado Sol, e que este pudesse vê-la até que tivessem a permissão dos deuses do firmamento para estarem juntos por aqueles parcos instantes que chamam de eclipses solares, ou quando a Lua não mais agüenta estar presente no céu e retira-se causando o eclipse Lunar. Isso era amor, e essa dança não pertencia a mais ninguém, só a eles dois.
- Como poderia pertencer apenas a eles se você conhece tão bem a história? Amor é para todos, não se encarcera a visão dele. Não se prende apenas ao casal. Não amor é partilhado e gera essa sensação boa que você sente em seu coração sempre que olha para essa dança. Uma dança tão gloriosa que o Mar tentou imitar junto a Praia e tudo o que conseguiu foi não ter mais praia. Amor não se trata de ciclo, ou de constância, mas de algo que está para além disso tudo e que só de ver somos capazes de reconhecer. Por este motivo, minha pequena Raposa, não tente nada com o Lobo Rei, ou você se afundará num inverno ainda mais denso, espere o coração Dele abrandar-se e então terás tua primavera de volta.
A Raposa estava cansada, e não conseguia persistir nesta conversa, fraquejou em suas patas dianteiras, e então nas traseiras, e por fim caiu sobre a neve. Seus olhos pesaram, e encontrou o sono. Em seus sonhos encontrou uma Raposa Branca com olhos azuis, e sentiu-se bem, como se o Sol estivesse surgindo, como se o primeiro vento vespertino a tivesse alcançado trazendo um doce cheiro de amoras frescas. Tão boa a sensação de um antigo amigo da infância que a Raposa sorriu. Sorrindo abriu suavemente os olhos para ver a Gloriosa Aurora. O Lobo Rei seguiu seu caminho e o Sol novamente poderia nascer. A primavera chegara. Sua missão era realmente vã, pois do mesmo modo que não se tem como fazer com que alguém te ame, não se pode ocupar espaços de outrem no coração de ninguém. Cada tempo tem que ser respeitado, tanto o de dor, quanto o de alegria.
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