quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Valsa Triste.

Naqueles tempos antigos, quando as coisas eram mais simples do que são hoje, um Rei caminhava tranquilamente em meio a um bosque. Este Rei, diferente dos demais reis, era o último Lobo Rei. Como as coisas estavam começando a ficar mais complicadas, e as coisas deveriam ser como eram, e não como poderiam ter sido, quem quer que o veja pelo bosque veria um homem, e não um Lobo. Ele andava pelo território da Rainha Puma, lar dos felinos e do dia. Este rei era soberano sobre a noite e raramente caminhava durante o dia pelo bosque.
O Rei caminhava lentamente com peso dos fantasmas de seu passado, seu amor indissolúvel pela Puma Rainha, assim como o fato dele e de uma Tigresa Branca acabarem por ser a mesma pessoa. Como Nobre que era ele podia até certo ponto mandar em seu próprio coração, ordenar que pessoas não entrassem, e manter longe todos os indesejados. O problema talvez comece somente depois que a porta semi-cerrada que o rei deixa no coração é atravessada. Daí ele não pode mais ordenar que saiam, e fica impossível remover qualquer um que se aloje, tanto que todos os que adentram o coração do Rei Lobo acabam por fazer parte perenemente dele. Foi em meio aos pensamentos perdidos que ele viu como um raio de Sol na savana uma Leoa. Apenas aqueles que realmente tinham olhos para ver poderiam vê-la como tal, o restante apenas conseguiria ver mais uma pessoa andando pela savana. A Leoa não podia enxergar o lobo branco em todas as suas cores, ele em sua prerrogativa de Nobre não permitiu tal feito, ela apenas o viu como alguém semelhante. Não um predador da mesma estirpe, algo similar, mas que era ao mesmo tempo diferente, e isso para ela, era bom.
O Nobre Lobo, que mais tarde, por não entenderem sua natureza, seria chamado de Rei Feiticeiro, aproximou-se calmamente da Leoa. A Leoa fez menção em fugir, mas já havia sido cercada. Animais Nobres fazem disto, cercam muito antes de serem percebidos, e se mostram apenas para fazer valer o nome de Nobre, ressaltando sua altivez perene. A Leoa, uma plebéia não sabia o que fazer, sentiu medo frente a um terror maior, como se o seu próprio coração estivesse sendo lido ali naquele exato instante.
Um passo para frente.
Um passo para trás.
A Leoa recuava de forma nervosa, repleta de cautela, de insegurança, de temores passados. Como apenas Nobres são capazes de ler a mente de outros Nobres, ela poderia apenas adivinhar o que o Lobo queria, mesmo sem saber que o Lobo era um rei, ou mesmo um Lobo, e não um Leão.
Um sorriso.
Uma hesitação
O encantador sorriso de alguém que parecia saído de um romance dos mais doces estremeceu por inteiro a Leoa. Não era um sorriso qualquer, era um sorriso para ela, e ela entendia como sendo somente dela. Ela nunca esteve perto de um Nobre antes, então não sabia dos procedimentos da Nobreza, não sabia o que cada coisa significava e não pôde evitar de ficar fascinada pela presença do Lobo.
Um passo para a direita.
Um passo para a esquerda.
Fascinada, mas não morta, fascinada, mas não pega. A Leoa via no Lobo o mesmo brilho que se vê nos olhos de suas presas antes de serem abatidas. Ela estaria sendo caçada? Isso fez a leoa apenas hesitar ainda mais.
- Por que você veio até mim? – Perguntou a Leoa, quebrando o sepulcral silêncio que envolvia o campo.
- Por que você possui uma presença refrescante em meio a toda a turbulência de minha vida. – O Lobo falou pausadamente, como se em staccato, e deixou transparecer em seus olhos o brilho que só os Nobres possuem.
Um passo para frente.
Um passo para trás.
- Somo diferentes, você é Nobre e eu sou da plebe, o que alguém como eu poderia oferecer a alguém como você? – Disse a Leoa tentando achar uma rota de fuga, embora parecesse que o Lobo estivesse em todos os lugares.
- Sim, eu sou um Nobre Lobo e você uma Leoa Plebéia, somos distintos, mas não me lembro de ter te pedido nada, e tão pouco disse que você nada tinha a me oferecer. – O Lobo tinha olhos vermelhos e fixos na Leoa, como um bom caçador, nada escapa ao seu olhar.
Um passo para esquerda.
Um passo para direita.
- Isso não vai dar certo! – Disse em desespero a Leoa. – Não tem como dar certo, por favor, deixe-me livre, deixe-me ir.
- Você é livre. – Disse o Lobo. – Tanto quanto qualquer pessoa pode ser livre, e isto não é muito. Afinal que tipo de liberdade você acha que possui? Você está atada a vontades que estão para além de si mesma, e a medos que são maiores que suas vontades, você acha-se realmente liberta? Acredita mesmo que alguém neste mundo é livre? – O sorriso na face do lobo continuava o mesmo, mas deixava pouco a pouco de ser encantador e passava a ser aterrador. – Você teme aquilo que deseja, simplesmente por não ser capaz de lidar com o que tem.
Um passo para frente.
Um passo para trás.
- Sim temo, e fujo, e desespero, mas o que você queria que fizesse? – A Leoa não podia fazer muito frente a isto, e menos ainda frente ao que foi dito. Como se o Lobo Rei conseguisse decifrar cada parte dela, como se nada fosse segredo para ele. E o seu temor era, e se o Lobo se decepcionasse com o que iria encontrar? E se o Lobo que era alguém acostumado com Nobres Princesas em palácios suntuosos não conseguisse suportar aquilo que ela tinha a oferecer. Ela temia decepcionar o lobo mais do que temia que ele a decepcionasse.
- Compreendo. – Disse o Lobo com o sorriso ainda no rosto, mas agora este sorriso parecia mais calmo, mais plácido.
Um passo para frente.
Parada.
Um abraço.
- Isso não vai dar certo. – A Leoa disse quase em meio a lágrimas.
- Não, não daria. – Disse o lobo tranquilamente. – Você me viu, Leoa, e apenas os que estão perdidos podem me ver. Apenas aqueles que estão em desespero podem ver a face do seu nêmeses e procurar abrigo em seus braços. Sou esse abrigo, pois sei que posso te destruir se chegar mais perto. – O abraço do Lobo parecia terno. – Você precisa de um coração inteiro... de uma vida simples... de uma vida tranqüila. Nada disso tenho para te oferecer.
- Não? – Perguntou confusa a Leoa. – O que me ofereces então?
- Uma mão para te guiar para longe desta escuridão que o seu coração se encontra. Não importa em qual reino alguém esteja, não importa quantas pessoas estejam próximas, quando um coração está perdido nas sombras ele sempre está solitário. – Disse o lobo apertando ainda mais a Leoa. – Eu vivo nas sombras, busco estes corações solitários e os devolvo para a luz, para que possam prosperar no Sol.
Um passo para esquerda.
Um passo para esquerda.
- Você não vai me largar? – Perguntou a Leoa, agora mais calma.
- Eventualmente, quando seu coração parar de sangrar e seu sorriso for verdadeiro. Até lá, estou por aqui. – Disse o Lobo sussurrando para a Leoa. – Isso não daria certo, certamente que não. Pois você não é feita de ouro e prata, não poderia suportar o peso do mundo e de todos ao meu lado, e uma hora eu fraquejaria, e alguém que teve tantos remendos no peito poderia não suportar. E não estou disposto a te arriscar.
- Obrigada...

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