sábado, 16 de abril de 2016

A Fada, o Mercador, e as Coisas que Se Quer Esquecer.

O Sol se punha no Leste, era um espetáculo magnífico ver aquela esfera flamejante caindo onde deveria ser o seu nascedouro, mas as coisas são assim em lugares que obedecem poucas leis naturais. Talvez, na verdade, seja assim em lugares que possuem sua própria Natureza. A areia branca por sobre os pés dela não parecia incomodar. Apesar do calor escaldante, a areia parecia ser uma dor que reconfortava. Um momento de tristeza e solidão que trazia a ela pedaços de cruel sanidade naquele mundo onírico.

Escolhemos sofrer para nos mantermos sãos, assim como escolhemos o ódio para nos resguardarmos do amor. Nada disso dá certo. Sofrer em demasia leva a loucura, e o ódio é uma forma de atar perenemente alguém a si. Mesmo assim essas coisas funcionam como paliativos. Funcionam enquanto as coisas definitivas não são feitas. Ela ainda caminhava naquele deserto de areias brancas. Não sabia ao certo quem procurava, mas tinha certeza do que queria. Queria esquecer.

Esquecer por vezes é uma das tarefas mais complexas que alguém pode tomar para si, pois envolve sempre um assassinato e um nascimento. Para que algo seja deixado para trás, alguém tem que morrer e algo deve nascer. Embora raramente saibamos o que deve nascer e sempre acreditamos que sabemos quem devemos matar. Ainda assim ela estava decidida. Ela queria fazer isso, ela queria esquecer.

Um Mercador que passava por aquele deserto avistou-a de longe. Ele havia acabado de fazer um proveitoso acordo com o Rei Feiticeiro que habitava um Castelo naquele Deserto, e queria outro negócio, pois é isso que mercadores fazem, negociam coisas com as pessoas. Ele se aproximou sorrateiro como uma serpente e a moça mal pôde reagir quando o ofídico homem chegou. Ele a olhou de cima a baixo e sorriu. Sabia que ela buscava algo, pois apenas aqueles que buscam coisas chegam naquele Deserto.

- O que desejas, pequena Dama? – Perguntou com sorriso cruel e olhar nefando o Mercador. – Posso ofertar diversas coisas, desde sonhos engarrafados, até amores despedaçados.

A moça observou com espanto o homem que oferecia tanto, e parecia possuir tanta confiança que chegava realmente a convencer que ele tinha mesmo aquilo que se propunha a vender. Sonhos e amores, nada exatamente físico, mas naquele lugar isso poderia até mesmo ser tocado. A moça, entretanto não parecia se impressionar com o que o homem viajante oferecia, ela queria ver para além das palavras, queria tocar naquilo que foi prometido, e para além disso, ela não queria sonhos, queria esquecer.
-Desejo esquecer alguém que um dia me feriu muito. – A moça parecia decidida ao falar, mas vacilava no coração. – Desejo que eu não lembre nunca que um dia eu possa ter conhecido essa pessoa.

O Mercador sorriu, e isso poderia ser feito. Ele tomaria duas coisas e não precisaria deixar nada. Negócios como este raramente são encontrados. Então o Mercador não titubeou quando aceitou.
- Claro que posso fazer isso, por um preço, é claro. – O Sorriso no Rosto dele era diabólico. – Eu quero as cores do seu mundo, e em troca levo essa memória comigo.

A moça não pensou duas vezes, deixou com o Mercador as cores do mundo dela, assim como a lembrança daquele que a feriu... Mesmo assim algo permanecia estranho na moça. Algo estava diferente, mas ainda o mesmo. Algo a perturbava e ela nem sabia o que era ao certo. Dito isto a moça voltou a caminhar pelo deserto. Deixou para trás o mercador, e seguiu caminho para achar algo. Achar uma coisa que ela mesma havia esquecido, e o caminho agora era ainda mais confuso, pois tudo estava preto e branco.

Passaram-se dias, talvez anos, séculos, ou alguns minutos, era complicado definir isso naquele lugar. Difícil definir para onde iria. Mais difícil ainda procurar o que havia esquecido que buscava, mas que se sentia precisar encontrar. Ela apenas vagou pelo lugar. Quando não se podia ver as cores do mundo, o Sol Que Se Põe No Leste perde toda a sua mística, as areias brancas tornam-se indistintas, e o caminho árduo pelo calor fica cansativo pela mesmice. Ainda assim ela não desiste. Caminha até chegar num Oásis em meio ao Deserto.

Um pouso, um lugar para descansar, isso era aquilo que ela precisava, precisava mais que outras coisas, mais até do que encontrar aquilo que ela não fazia idéia do que procurava. A pequena Dama olhou seu reflexo na poça d’água que ali estava e não pôde evitar de sussurrar para si, ou talvez para alguma lembrança esquecida:
- Pequena e Feia.
- Sim, como as fadas devem ser. – Disse uma voz que vinha de algum lugar escuro no meio do Oásis.
- Obrigada por concordar comigo, mas não acho que precise de mais pessoas para me porem para baixo.
- Não, certamente não precisa, mas farei mesmo assim. – Disse a voz que vinha do lugar escuro. – Talvez eu deva torturar um pouco mais, apenas pelo prazer de torturar, ou apenas porque dessa forma você sairá desse meu Oásis.
- Por que quer tanto assim que eu saia? Apenas estou cansada, e estou procurando alguma coisa.
- O que seria tal coisa? Conheço todas as coisas neste Deserto.
- Não sei... Esqueci...

Por um instante a pequena Fada se encheu de tristeza, e tudo que era Cinza ficou ainda mais escuro, como se toda a luz também estivesse sendo retirada dela...  Lágrimas caíram, talvez fosse a primeira vez que a Fada derramou lágrimas naquele lugar, e não sabia o que isso significava, mas continuou derramando e repetiu as palavras que repetia para si mesma quase que de forma constante:
- Pequena e Feia, como as Fadas devem ser.
- Devem ser apenas para aqueles que não conseguem ver a luz delas. – A Voz que Vinha do Lugar Sombrio disse rapidamente.

A Fada não pôde evitar se surpreender com aquilo, não era comum as vozes sombrias serem gentis, mesmo num lugar onde o Sol se Põe no Leste, estas coisas costumam ser tidas como certas. A Voz ainda assim falou dessa forma.

- Você está tão perdida que lega às sombras uma gentileza que elas não possuem. – Disse a Voz. – Você está tão perdida que quer atar em qualquer um aquilo que guarda no peito apenas para manter vivas por mais algum tempo as chamas que outrora te incendiaram.

A pequena Fada sentiu um Aperto no Peito. Algo estava dentro dela, e ela não sabia o que era, não sabia o que estava fazendo ali, mas sabia que estava, e se revolvia e doía bastante. Doía como se fosse o próprio Inferno querendo abrir passagem através do peito.

- O que é isso?
- São os sentimentos buscando alguma coisa para se prenderem.
- Sentimentos?
- Sim, você tirou uma imagem, mas não matou a pessoa dentro de você, e quando não se mata a pessoa, os sentimentos ficam confusos...
- Eu só queria esquecê-lo...  – Ao falar isso as lembranças daquele que Feriu a Fada voltaram todas à mente, e voltaram com força total. – Por quê eu não consigo?
- Isso é simples de se responder, porque você não pode simplesmente pegar um pedaço da sua própria história e jogá-la ao vento.
- Não era tão forte antes...
- Não, não era, mas agora há todo o afeto daquela figura que você perdeu, somado a todo o afeto da figura que você idealiza em si.
- Como acabar com isso?
- Mate-o...  Mate um pedaço da lembrança e do afeto dele que habita em você. A lembrança sempre estará viva, mas o afeto não precisa estar. Você nunca pode matar alguém por completo, apenas por pedaços, a idéia da pessoa é imortal, mas aquilo que essa idéia significa para você pode ser minguado até à Insignificância.
- Só Isso?
- Claro que não, depois de matar esse afeto, você deve fazer a parte mais difícil, deixar nascer algo em você... Algo que deve te preencher e te mover, algo que deve ser importante o bastante para que você consiga dar um passo adiante e erguer a cabeça.

A Fada respirou fundo. Na primeira vez que ela puxou o ar para seus pulmões, ela pôde sentir dentro dela uma navalha que retalhava aquilo que ela sentia. Um corte fino, afiado, impreciso. Deixando restos vivos onde ela não queria, e mortos onde ela não esperava.
- Malditos olhos que permanecem vivos. – Ela falou enquanto ainda puxava ar e mantinha os olhos fechados.

Então ela soltou o ar, e quanto mais soltava mais via as coisas se afastando dela e saindo dela, mais via as coisas do mundo e suas cores. A primeira cor que ela lembra de ver foi a vermelha. A cor do Sangue e da Paixão. Coisas próximas, agora que a raiva já estava fora dela, ela poderia deixar algo nascer nela, embora não soubesse o que é, essa é a beleza da vida e dos nascimentos, nunca se sabe exatamente o que é até que a coisa nasça de vez. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Todas as Histórias Merecem ser Contadas.

O Trono de Diamante de Sangue estava vazio. As paredes da Sala do Trono estavam tão polidas que qualquer um que adentrasse poderia ver seu reflexo naquele espelho negro. Não há janelas naquele castelo, e apenas podia-se entrar pela porta da frente. Toda aquela grandiosidade abandonada ao tempo e ao vento. O Castelo quando vazio parecia ainda mais lúgubre, seus desenhos sombrios lembravam coisas que todos querem esquecer, e buscam lembrar. O Rei estava ausente. Havia partido numa jornada para se entender. As paredes do castelo, apesar de serem de um cristal negro extremamente polido não conseguiam refletir o monarca quando esse adentrou os salões reais.

O Rei adentrou em grande velocidade no seu salão principal, era tão rápido que nem parecia que ele tinha ao menos saído de lá, a velocidade dos sonhos, como alguns dizem, chega a ser mais rápida que o pensamento. Num instante o Rei estava lá novamente, como se nunca tivesse saído. Ornado com sua coroa negra, e com seus olhos fixos na entrada do Salão. As paredes do salão ainda estavam captando a passagem do Rei, como um movimento em câmera lenta. Passo a passo, e o Rei podia admirar seu trajeto pelo salão através do reflexo das paredes.  Aquelas paredes refletem muito mais que apenas as imagens dos objetos, elas refletem almas e lembranças. Sonhos partidos, e memórias esquecidas.  Contemplar a si mesmo através dos reflexos da parede as vezes era a única forma de se entender, mas o Rei não tinha tempo para tal, ele precisava ser um Rei, e atender os súditos que chegam ao castelo.

Um pequeno homem de olhos avermelhados de tanto choro andava por sobre o tapete rubro que levava até o trono do Rei Feiticeiro. Ele entrava de cabeça baixa, e era tímido. Um ar de sombras tomava o ambiente, ele usava esse aspecto de solidão como se fosse um manto. O que no castelo do Rei isso se tornava real. O pequeno homem de olhos vermelhos e usando um manto de solidão se prostrou diante do Rei e disse depois de uma longa pausa:

- Vós que sois o Rei que tudo pode, em nome do tempo e do vento, atenda o meu humilde pedido se for de vossa vontade. – O pequeno homem falava quase como se estivesse chorando.

- Fale.

- Eu quero pertencer a algum mundo. – Disse o homem erguendo a cabeça para encontrar os olhos do Rei, um azul e outro vermelho.  – Quero por fim a essa maldita solidão que me assola por não fazer parte de mundo algum.

Pertencer à algum lugar era algo importante para as pessoas, e todas sempre queriam fazer parte de algo, todas as pessoas sempre querem ser amadas, e todas sempre querem que alguém diga que elas pertencem a um lugar ou outro. Aquele homem estava lá, só, mas ele simplesmente ignorava que a natureza da humanidade é essa, a solidão partilhada. Todos possuem seus próprios mundos particulares, e ninguém pode ansiar por entrar no mundo de ninguém. Nunca poderia ser feito tal coisa.

- Sinto muito por sua solidão, mas ainda não tenho um motivo para fazer com que você pertença a qualquer mundo que não o teu. – Disse o Rei, que poderia burlar as Leis da Natureza dos humanos naquele lugar de sonho e fantasia.

- Pois lhe contarei minha história, meu caro Rei, e após ela, decida-se se vale ou não a pena fazer com que eu me integre a algo, se vale ou não a pena me por em outro mundo, me fazer parte de mais algum mundo além do meu.

- Prossiga, conte a sua história. – O Rei se aborrecia facilmente com aquele homenzinho lento e de fala floreada. Mesmo assim era o dever dele ouvi-lo.

- Um dia, meu Rei, eu amei alguém. – Começou o homenzinho. – Não que todos não já tenham amado alguém, ou irão amar alguém, mas eu amei. Amei com todas as ínfimas forças de meu ser, amei como poucas coisas poderiam amar. E não fui retribuído. Pois àquela que eu amei dizia que éramos de mundos diferentes.

- Certa vez, pequeno homem, eu amei a Morte. – Começou o Rei. – E ela era o fim de todas as coisas, roubou-me de mim mesmo, e levou para nunca mais devolver algo que nem sei mais o que foi. Ela disse que pertencíamos a mundos distintos. Eu era Sonho, e ela Realidade. Não podíamos nos tocar, e não nos tocamos. E assim ela seguiu com os afazeres dela e eu os meus. – O Rei em meio a um suspiro terminou. – Sua história é comum, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu caro Rei, tempos depois eu abdiquei de um grande amor apenas para fazer as vontades de uma pequena amiga que me virou as costas quando precisei.

- Após a morte, eu tornei-me escravo de uma mortal que me usou por anos como um brinquedo, tomando tudo o que era meu, do início ao fim. E quando certa vez amei alguém, tal mortal simplesmente fez-me distanciar e ferir essa amada para que ela pudesse tentar algo... Sua história é como a de tantos outros, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu Rei, num dada época de minha vida, amei uma mulher que viajava e falava bem, alguém que estava tão perto que por um momento acreditei que poderia ter achado um lugar no qual pertencia, mas o mundo dela era um mundo peregrino, e o meu um mundo de pobre alma presa num lugar.

- Outra história comum, pois eu mesmo conheci alguém que eu fui amaldiçoado a esperar que percorresse mil vezes mil caminhos distintos para que eu pudesse ter o tempo de apenas ver uma única flor desabrochar perto dela, para que então ela voltasse a sumir na neblina e viajar mais mil vezes por mil caminhos.

O homem começou a desesperar, a tremer, a soluçar.Todas as histórias que ele contava para o Rei pareciam tão pequenas, e ele as via tão grandiosas, e o Rei apenas fazia pouco delas. Como se seus sentimentos não valessem a pena. Como se ele não valesse nada. Triste ele estava, mas mais ainda indignado por ter suas histórias e seus sentimentos tão ignorados por aquele cruel Rei. Ele então ficou de pé prosseguiu de forma altiva:

- Eu sou um poeta que pediu para a própria morte ensinar-me a amar. – Uma lágrima furtiva começou a nascer nos olhos do homem. – Então no desespero me fiz escravo de uma mortal para que minha existência que não sabia amar fizesse sentido. Disse que era livre para uma pessoa que tentou fazer com que eu acreditasse em mim mesmo. Vivi como pude nas sombras de pessoas que achei ter amado, simplesmente por não saber mais como é sentir-me amado. Busquei emoções numa princesa de terras distantes. Fiquei envolvido numa ilusão que eu mesmo criei e a chamei de diversos nomes enquanto ela simplesmente temeu por não ser aquilo que eu sonhei, e eu a envolvi em tudo aquilo que não era ela. Sou um farsante que mentiu para alguém que fingiu me amar.

O Rei se empertigou no seu trono e observou o homem falar, ele parecia surpreso pelas falas agora. Talvez uma história interessante pudesse surgir disto, afinal.

- Vossa Majestade fala que todas as minhas histórias são comuns, mas não há uma só história que não seja comum e especial ao mesmo tempo. Não há uma só pessoa que não seja o centro de sua própria história e não a veja com olhos diferentes dos demais. – O Homem agora parecia irritado com o Rei. – Cada pessoa é tecelã de seu próprio sonho e de sua própria vida. Todas as histórias são igualmente comuns e fantásticas. Tudo o que basta é o ponto de vista, a forma de como olhar para estas histórias.

O Rei estava ouvindo estas palavras e sentiu que estava sendo desafiado, que alguém em seus salões questionava sua autoridade e sabedoria magnânima. Ele não estava para isso e resolveu falar, mas antes que pudesse proferir uma só palavra foi interrompido pelo homem:

- Não há uma só história que não mereça ser ouvida. E não há um só desejo que não mereça atenção.  Todas as histórias são dignas e se adequadamente pintadas por um artista experiente, todas as histórias dariam belos quadros. Minha história é trivial, como a tantos homens que amaram. Meu nome é comum como a grama que cresce em qualquer jardim. Minha vida é como a de qualquer outro. Mas para mim, ela é tudo o que tenho. E eu serei ouvido.

Enquanto falava isso, o homem começava a sentar num trono de Diamante Sanguíneo que surgiu atrás dele, enquanto se acomodava no trono, suas roupas foram ficando negras como a noite, e uma coroa surgiu em sua cabeça. Enquanto olhava para frente, tudo o que o homem via eram as portas da Sala do Trono, com suas paredes lustradas e seu tapete vermelho.


- Todas as histórias merecem ser contadas e ouvidas. 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Conversa do Rei Feiticeiro e o Pescador de Ilusões.

As areias eram negras na margem daquele Rio. O céu também, escuro, com nuvens cinza de uma eterna tempestade vindoura. A água era branca, e brilhava. Era o contraste daquele lugar desolado, sem aparente vida. Não havia vegetação, ou animais por perto. Nem mesmo um único mosquito para incomodar algum transeunte fortuito, mas também não havia transeuntes. Havia apenas ele, o pescador.

O Pescador estava tranqüilo naquelas margens sombrias. Não tinha certeza do tempo que passou ali, mas sabia que estava lá para pegar algumas coisas do Rio. Ele jogava sua linha e esperava, as vezes ficava por horas, dias, anos esperando, até que apanhava algo. Ele calmamente puxava a linha de volta, pegava o que tinha que pegar e jogava novamente a linha. Talvez seja desnecessário dizer que não existem peixes num Rio branco e fluorescente que tem como margem praias de areia negra, mas digo que não eram peixes que ele pescava, eram desejos e ilusões.  Ele usava essa pequena linha feita de alma para que os desejos se fixassem nela. Quando queria ilusões, ele jogava uma corda feita de esperança. Desejos perdidos procuram restos de almas para se agarrar, e ilusões se fixam bem na esperança.

Foi enquanto estava prestes a pegar mais um Desejo que o Pescador viu um homem em vestes tão negras que se destacava do ambiente. Era como se fosse uma sombra que absorvesse toda a luz que havia na escuridão e nada deixasse. As vestes deste homem eram de uma costura invejável, como se fossem as próprias Sombras envolvendo-o. Sua cabeça era encimada com uma coroa de diamante-sangue. Um diamante raro que normalmente não é visto em lugar nenhum do mundo que não seja em campos celestes. O pescador suspirou, e em meio ao suspiro falou:

- O que o Nobre Rei Feiticeiro faz tão longe de seus escuros domínios?

- Apenas divagando...  – Disse o Rei Feiticeiro ao se aproximar do pescador. – E minhas divagações me trouxeram até esta margem que não há como cruzar.

- Sempre há um barqueiro.

- Não há barcos para idéias. Elas são persistentes, insistem em existir na cabeça de diversas pessoas e isto as mantém.

O Rei parecia um tanto interessado naquilo que o Pescador estava pescando. Ele sabia que naquele Rio não havia peixes. Não poderia haver. Também sabia que ali era um lugar que era de acesso muito difícil, ir até ali deveria ter um motivo importante, e o que quer que se esteja pescando ali, deve ser algo interessante.

- Diga-me, pescador, o que você pega com essa linha tão fina.

- Esta, Rei, é uma linha de alma, serve para pegar Desejos.

- Desejos?

- Sim, desejos legados ao esquecimento. – O Pescador parecia ter um olhar distante enquanto falava isso. – Desejos que ficam impedidos de serem satisfeitos pela vida. Eles acabam por serem trazidos para cá.

O Rei pensou por um instante. Alguns desejos suficientemente poderosos podem criar deuses, como algo tão magnífico pode acabar aqui? Como um desejo pode acabar parando num lugar de esquecimento? O pescador observando o olhar pensativo do Rei meio que adivinhou o que ele pensava. Então respondeu:

- Nobre Rei, a Majestade não conhece as limitações da vida humana. – Em meio a um suspiro o Pescador prosseguiu. – Os humanos devem fazer o que têm que fazer, e as vezes isso quer dizer que eles devem abdicar de seus desejos. Chamamos isso de Realidade.

O Rei era de um mundo de Sonho. Aquilo de Realidade era novidade para ele, pois nunca ele pensou que algo pudesse não ser Real.  O Pescador ali diante dele não era distinguível de qualquer sonho que ele já teve, e isso para ele era o que era, e não havia diferença entre os mundos.

- E há uma diferença entre aquilo que você julga ser real, e aquilo que não?

- Sim, há! Aquilo que é da Realidade, é a rotina e convivência. Ela tolhe muitos sonhos e desejos, e deixa apenas algumas parcas possibilidades. Todos podem viver através disso, é claro, mas apenas dessa maneira.

- E sua liberdade para escolher é legada simplesmente ao fato de escolher ir para esse caminho que o convívio lhe impõe, ao contrário daquilo que os seus anseios lhe guiam?

- Nem sempre é ao contrário, Nobre Rei, mas sempre é algo que limita mais do que dá liberdade. Ao contrário de Vossa Majestade, nós não fazemos as leis, apenas nos submetemos a elas.

- E no processo perdem grande parte da liberdade. O que ganham com isso.

- Tudo.

- Tudo?

- Sim, estar preso é ansiar fugir da prisão, e com o anseio há desejo, e com o desejo há mudança. Sem a prisão não haveria desejos.

O Rei refletiu sobre tal afirmação. Ser preso tolhe, e liberta ao mesmo tempo. Ser um escravo das próprias normas é a única forma de ser livre.

-  Ainda assim qual é o real custo desta liberdade?

- O Medo. – O Pescador apenas olhava para o Rio. – O medo de falhar, de não conseguir ir adiante, o medo de ser menos do que aquilo que se espera. O Medo é o preço a ser pago. Principalmente o medo de sofrer.

- E como vocês fazem para não ficarem presos no medo.

- Criamos Ilusões.  Fantasias que sustentam nossas realidades frágeis, e afugentam nossos medos.  Ao criar ilusões, nós forjamos fantasias para os fantasmas que tememos, e vestimo-los com tais roupas. As fantasias são presas de forma muito precária, entretanto, e as vezes ela não se sustenta por muito tempo. Então temos que forjar uma nova fantasia, uma nova forma de ver alguma coisa que não é em algo que é.

- Se são tão necessárias assim, como tantas acabam aqui?

- Ás vezes elas não são o bastante, outras vezes nos rasgam muito então resolvemos jogá-las para cá.

- Machucam? A intenção não era que a fantasia fizesse com que o medo sumisse, ou ficasse mais agradável?

- Tente imaginar então o que aconteceria conosco sem ela... – O pescador puxava a linha de prata feita de esperanças de volta, nela algo iridescente se contorcia, uma ilusão perfeita. – Sem essas coisas, os nossos medos simplesmente acabariam conosco. Precisamos delas. Precisamos destas coisas para que todos sonhem com dias melhores, sem que os pesadelos apareçam para nos lembrar que os dias sempre são os mesmos e quem deve mudar somos nós.

- E não seria mais fácil vocês mudarem por si só, no lugar de depender das fantasias?

- Dói muito o esforço de tentar mudar por si. Uma dor que rasga os ossos e quebra a pele.  Tamanha é a dor que uma pessoa sente ao começar a tocar os seus medos que ela acaba por acreditar que vai se despedaçar. O mundo é um lugar hostil, e imaginar que ele pode ser bom é uma forma de não termos medo dele.

- Por mais que o mundo não seja bom ou ruim, o mundo é apenas o mundo, não há valores nele, há 
nos humanos, mas o mundo é apenas isso, o mundo.

- Essa é outra característica dos humanos, eles dão a todas as coisas as suas características. Tudo é um pouco humano sob os olhos dos humanos, pois eles impregnam todas as coisas com suas ilusões, e essas ilusões, transformam um pouco essas coisas.

- Como se o observador fizesse com que aquilo que está sendo observado mude pela simples intencionalidade da observação causal...  Quer dizer que apenas....

- Sim, apenas pelo fato de você está diante de mim, Vossa Alteza, algo em você é meu, e você é mais parecido comigo. Tornando-se um pouco de mim a medida que eu me torno um pouco de você, e assim todas as coisas são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

- Compreendo, e agradeço.


Ao terminar estas palavras o Rei deixou aquelas praias desertas, e nada mais podia ser visto lá. Nada salvo uma linha prateada feita de esperança, e uma linha branca feita de alma, um pequeno balde com algumas ilusões e uns desejos pequenos, apenas isso e nada mais. O Rei teria muito o que pensar até chegar em seu castelo, embora nunca tivesse saído de lá, e agora ele  entendia o que chamavam de ilusão. A Ilusão, o Sonho, o Delírio, a Fantasia... Tudo não passa de pontos de vistas de uma realidade. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

O Caminho dos Santos.

Um Santo fazia uma peregrinação pelo deserto. Caminhava para meditar sobre as coisas da vida e os caminhos que tinha que percorrer. Neste deserto, repleto de templos de areia, com altares de areia, e crentes de areia, ele via como era volúvel a fé humana. Entendia como as coisas eram simples e que bastavam alguns sopros para que as coisas mudassem e se tornassem outras. Os fiéis de areia, migravam de templo em templo. Ao sabor do vento, e estes templos também mudavam a medida que ventos mais fortes juntavam um templo de areia noutro. Assim era o deserto. Repleto de coisas de areia.

O Santo peregrino caminhou e cruzou todo o deserto, até chegar num de seus lugares preferidos. Um lugar que cheirava a álcool, cigarro, perfume barato, suor e lascívia. Neste lugar as pessoas não eram de areia, mas de carne, e tinham desejos de carne, e vontades de carne. Não migravam ao sabor do vento, mas à vontade da carne. Tinham desejos e os desejos eram mais reais que as coisas que habitam o deserto. Eram desejos sinceros. Parcamente iluminados em sua maioria, mas sinceros. Singelos, mas honestos. Ali o Santo sentia-se em casa. E foi quando, entre um gole e outro de vinho, que surgiu um velho homem de aspecto funesto e macabro. Ao redor dele, moscas, e um zumbido infernal. Ele sentou-se à mesa do Santo, sem ser convidado para tal, mas fazia porque ali ele era um Senhor, não um Servo.
- Seu lugar não é aqui, Santo. – Disse o homem com olhar severo.
- Meu lugar é onde eu puder estar, e ao lado de quem precisar. – Respondeu o Santo de forma serena.
- Aqui é um lugar de devassidão, de pecado, de luxúria, aqui as pessoas não procuram um caminho para alcançar graças, mas desgraças. Aqui é um lugar que o desejo deu voz e vazão ao que há de pior no homem.
- Ai é que você se engana, meu caro Opositor. Este é um lugar que as pessoas podem ser como elas são, elas são como podem e como devem, aqui é um lugar que muitos véus caem.
- Tira-se uns, bota-se outros. Ao passo que alguns parcos véus caem, outros são postos nos olhos já cegos dos que aqui vivem.
- E quem pode ver a Verdade com olhos nus?

O Opositor fez uma breve pausa. Era algo a se pensar, mas mesmo assim, ali não era um lugar que Santos pudessem fazer algo. Ali era um lugar que as pessoas iam para se entregar aos vícios, e apenas estar ali macularia uma alma. Ali era o lugar do pecado, e o pecado é algo que consome, pois seu nome é Culpa, a irmã mais nova da Consciência.

- Ainda assim, Santo. – Continuou o Opositor. – Você nada tem a fazer aqui, apenas aqueles que querem ser salvos é que serão, e ninguém aqui espera salvação.
- Ninguém está para ser salvo. – Disse o Santo de forma rápida. – Tão pouco estou aqui para me prontificar para salvar alguém. Não tenho o poder de salvar aquele que não está em perigo, temo, entretanto, por aqueles que estão no deserto. Os fiéis de areia precisam de ajuda, mas o vento é constante, e até mesmo minhas palavras fazem com que mudem de lugar para o outro dentro do deserto.
- Como estes que estão aqui estão menos perdidos que os que estão no deserto?
- Simples, estes sabem que existem caminhos a serem seguidos. Os moradores do deserto, nem isso. Aqui as pessoas estão em terreno sólido, e não importa para que lado andem, uma hora, acharão o caminho que lhes cabe, os fieis de areia infelizmente estão em situação crítica.
- Então você acredita que os que hoje são meus eventualmente encontrarão o caminho da Santidade?
- Eles já estão no caminho.
- Como assim?

O Santo parou por um tempo, respirou fundo, olhou ao redor, tomou um gole de seu vinho e parou para pensar. Lembrou das coisas que fizeram com que ele chegasse lá, as coisas que o guiaram, os caminhos percorridos, e ele pensou na pergunta que se fez há muito: “Qual é o caminho da Santidade?”. Ouviu tantas respostas quanto eram possíveis serem ouvidas, pensou também em tantas outras respostas quanto poderia dar. Nenhuma delas era satisfatória. Nenhuma delas era boa o bastante. Foi em meditação que ele pôde ter uma revelação, um caminho a seguir. Essa revelação foi extremamente simples, como todas as boas revelações devem ser. Ele entendeu que todos os caminhos levam à Santidade, desde que não seja desviado.

O Caminho que o Santo escolhe para si, é seu caminho de Santidade, e não deve ser desviado, não importa o que seja esse caminho, desviar-se é perder-se, e ao se perder, a pessoa peca contra a única divindade que realmente deveria importar, ela mesma. Ela peca contra si, e ao fazer tal coisa, ao fazer aquilo que ela mesma toma como errada, ela se fecha, e mergulha na culpa, e no remorso. Sim, era assim que os santos deveriam ser.
- As pessoas que aqui estão fazem o que fazem, porque fazem o que são, elas estão livres de culpa, e tua moralidade não as afeta. – Disse o Santo com um Riso no Rosto. – Quem faz o Pecado é o Pecador. Enquanto os que estão aqui fizerem aquilo que eles acham certo, eles estarão no caminho Santo.
- Você chama de Santo os bêbados e as prostitutas, os Sodomitas, essas Abominações?
- Sim...
- Você acredita que as pessoas que todos os dias oram, e rezam, e jejuam, e prestam honras aos deuses deveriam fazer isso que esses bêbados e ímpios fazem?
- Não...

O Opositor parou, ele não conseguia entender onde o Santo queria chegar, se o Caminho para a Santidade era o Caminhos dos bêbados e sodomitas, então a vida de jejum e oração era uma vida errada, era simples o raciocínio. O Santo, contudo, parecia discordar disso, ao passo que afirmava outra coisa.
-  A vida não é dual, meu caro Opositor, há tantos caminhos quanto há pessoas, há aqueles que alcançarão a Santidade fazendo as práticas ascéticas, enquanto também há aqueles que através dos excessos chegarão. Não posso determinar o caminho, é o Coração da Pessoa que diz.
- As escrituras...
- As tuas escrituras. Estas não são minhas, nem tão pouco foram escritas por mim, ou para mim. Como eu falei, cabe apenas à verdade de cada um aquilo que vai levá-lo à Santidade. Não posso dizer o caminho de ninguém, mas sei quando se desviam, você por exemplo, Opositor, é tão Santo quanto qualquer outro Santo. Você faz o que tem que ser feito, e nunca se desvia do seu caminho. Louvável.


O Opositor então suspira, materializa um cálice de cristal rubro, com um líquido negro dentro, ergue e brinda junto com o Santo. Assim é a vida, e nessa noite, dois Santos beberam num templo de luxúria sobre um altar malícia, e ainda assim, permaneceram puros.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Prisioneiro e o Carcereiro.

A repetição era infernal. Gotas caindo no piso de pedra. O lugar era escuro, úmido, fétido. Ele não sabia por quanto tempo esteve ali. Apenas lembra de ter ido parar lá. Uma masmorra. Os outros presos se foram há muito, apenas alguns companheiros silenciosos estavam lá. Cadáveres dos antigos prisioneiros, que os carcereiros nem se deram ao trabalho de remover dali. Ele estava suspenso pelos pulsos, já machucados, em carne viva. Feridas purulentas começavam a se instaurar nele. Ele só sofria.

Ele nem lembrava o que tinha feito. Não conseguia recordar que crime seria tão terrível para pô-lo naquela parte terrível do Inferno. Apenas estava lá. Havia marcas de chicotadas nas costas dele. Ele estava magro, e não comia nada haviam dias, também não lembra a última vez que bebeu alguma coisa que não fosse seu próprio suor, que escorria em parcas gotas pela sua testa. Nem saliva ele tinha mais. E lá ele estava. Não sabia se havia sido condenado, ou se ainda seria julgado, não sabia se alguém iria defendê-lo, ou mesmo acusá-lo. Apenas estava lá. Triste. Solitário. Foi quando outro som começou a ecoar pelo ambiente. Algo diferente das gotas de água que caiam do teto, e estavam longe demais para serem lambidas. Era um som de um zumbido. Um zumbido alto, moscas. Muitas moscas.

Ele deveria finalmente ter enlouquecido, mas isso ao menos já era um sinal, logo ele não precisaria mais ter que lidar com a cruel realidade que o mantinha preso, e poderia viajar nos devaneios de uma mente doentia para longe. Engraçado, ele também não lembrava da última vez que havia dormido. Talvez nunca tivesse dormido. Enquanto esteve lá, talvez apenas tivesse sofrido. Então em meio a esses devaneios, uma porta se abre. Não há luz entrando na masmorra, tudo era escuro e permanecia escura, agora apenas um som de moscas se somava aos habituais, e então passos. Talvez alguém tenha vindo visitá-lo.

- Olá. Prisioneiro.
- Oi! Quem é você! Pode me tirar daqui! Ou ao menos dizer por que estou aqui! – Estas eram as primeiras palavras ouvidas pelo prisioneiro em muito tempo, ele não podia se conter em alegria, medo e espanto.
- Sou o Carcereiro Daqueles Legados à Miséria. Sim, posso dizer por que você está aqui. – A fala do Carcereiro se mesclava com o zumbido das moscas. – Você foi posto aqui pelas pessoas que um dia chamou de amigos. Além de ter se posto aqui você mesmo, é claro!
- Meus amigos me puseram aqui? – Ele que nem sabia o nome estava confuso ao perceber que também tinha amigos, e que eles o legaram a esta prisão terrível. – Me diga, por que meus amigos me jogaram nesse lugar?
- Eles te jogaram aqui porque você é foi escolhido para vir para cá.
- Como assim? Houve alguma espécie de sorteio? De escolha?
- Claro que houve uma escolha, não apenas deles, é claro, mas houve.  Você foi escolhido para ocupar este lugar de ostracismo e sofrimento em detrimento de todos os outros. Você é o mártir deles.
- Eles me jogaram para cá para que não viessem?
- Sim. E você aceitou, talvez não de tão bom grado assim, mas aceitou. Aceitou ficar nas sombras, e aceitou que pusessem os ferros em seus pulsos, e aceitou que açoitassem suas costas.
- Que homem louco aceitaria todas essas coisas de bom grado?

Silêncio. Nenhum som pôde ser ouvido, nem das moscas, nem do carcereiro, nem das gotas de água que copiosamente caiam. Nada podia ser ouvido além do pensamento do Prisioneiro. Ele começou a lembrar. Começou a lembrar que possuía amigos, eles sempre caçoavam dele. Lembrou que os seus amigos riam dele por coisas que eles mesmos faziam, apenas porque tinham que dizer que alguém era tolo, e ele era o que deveria ser o tolo. Era apenas porque era o mais frágil. Porque era...

- Sim, parece que você está se lembrando... – A voz do Carcereiro parecia ecoar em meio aquela imensidão vazia. – Isso é um começo.
- Sim, lembro de algumas coisas, mas você disse que eu fui aquele que escolheu vir para cá, como eu escolhi se eles é que fizeram tudo? – As lágrimas dela começaram a brotar, assim como a voz a aos poucos mudar.
- Você... teve... medo... – As pausas da voz dele eram ainda mais aterradoras, mas pela primeira vez em muito tempo ele começou a se sentir ofegante, e não apenas apático, e começou a se sentir melhor. Ele começou a se sentir cada vez mais outra pessoa.

Mais silêncio. Ele se viu novamente apanhando, novamente se escondendo. Ele se viu fugindo, pois é isso que se faz quando se luta contra o mundo, foge. Principalmente por se achar merecedor disso, se achar merecedor das coisas ruins. Ele se sentia cada vez pior, e cada vez mais merecedor dos abusos. Se todos caçoavam dele, eles deveriam estar certos... Caçoavam dele por tudo, principalmente por ele não ser ele.

- Não é fácil não ter medo quando todo mundo está contra você. – Ela falou em meio a lágrimas. – Não é fácil ficar de cabeça erguida quando todos dizem que você está errada.
- Errada... – A pausa do Carcereiro parecia que iria durar uma vida toda. – Sim, você começa a se enxergar. A parte mais difícil começa agora.
- Qual é a parte mais difícil?
- Quebrar esses grilhões, e sair por aquela porta.

O novo silêncio era algo esperado agora. Nessas pausas ela podia pensar, podia parar e olhar para si mesma. Ela era uma leoa, e estava presa por pequenas correntes de ferro. Ela tinha como se livrar, mas era difícil. Essas correntes não eram só feitas de ferro, mas de vergonha, medo e rancor. Todas essas coisas são complicadas de se partir.

- Sim, são complicadas. – O Carcereiro falou como se estivesse dentro da mente dela. – Mas não impossíveis. Mais força, e talvez você seja uma das poucas pessoas a abandonar esta prisão.
- Você não vai tentar me impedir?
- Estou para guardar a prisão, não os prisioneiros. Não me importo com o destino que tomes, não me importo para onde vais, desde que vá, e abra a vaga para um próximo que será preso neste mesmo lugar.
- Há mais vindo?
- Sim... enquanto houver tempo, dor, rancor e medo. – Disse o Carcereiro calmamente. – Enquanto alguém fizer com que outros paguem dívidas que não possuem, este lugar está aqui para receber prisioneiros como você.
- Então vou sair daqui e derrubar essa prisão! – Ela falou com os dentes cerrados e um sorriso selvagem. As correntes cederam e ela avançou no carcereiro. Apenas para ver que não havia nada diante dela. Apenas a escuridão e uma porta pesada de madeira velha.

Quando ela terminou de atravessar o portal, o Carcereiro já terminava de aprontar a masmorra para seu novo prisioneiro. Era isso que os demônios faziam afinal, preparam, punem e testam, até que as pessoas passem nas provações, e cresçam... Ou elas falhem de vez e morram. Não importa para o Demônio, principalmente porque ele não está em lugar algum...
Era isso, tudo o que ela pensava quando acordou naquele dia de domingo. E decidiu que mesmo que toda a história fosse só um sonho, ela faria esse sonho valer e ser diferente. Ela saiu da cama contente e decidida, tão contente e decidida que nem reparou que embaixo da cama, ainda tinha uns pedaços de uma enferrujada corrente. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sobre Corujas e Crianças.

Havia passado quase um ano desde o Grande Torneio. Um homem despido de armaduras venceu o torneio, e fez com que o Cavaleiro de Prata pensasse sua vida e sua posição frente o mundo. Sua maça e sua espada foram destruídas, e sua armadura despedaçada. Ele precisava voltar às suas atividades como Cavaleiro e para tal, ele tinha que possuir uma armadura nova. Enfrentar o mundo de peito aberto era algo difícil de se fazer, e mesmo cavaleiros lendários precisam de momentos de descanso e uma ilusão de proteção e segurança.

Mesmo assim o Cavaleiro de Prata havia mudado, ele não precisava mais de uma armadura comum, ele precisava de outras coisas agora, outra coisa, algo que se molde a ele e se enquadre na sua nova vida, no seu novo modo de agir. Tão parecido com o antigo, e tão diferente. Ele precisava de algo mutável como ele.

Nisso o Cavaleiro soube que num reino longínquo, próximo de um Deserto de Areias Negras morava um Ferreiro que forjava qualquer coisa. Ele decidiu que deveria viajar e visitar este Ferreiro. Ver que armadura ele poderia escolher que combinasse tão bem com sua nova forma e vida. Algo novo, algo que o descrevesse.

A jornada era longa. A cavalo, seis dias demoraria. Ainda assim o cavaleiro era alguém resoluto, não iria se deixar abalar pela distância. Ele rumou, e como em todas as viagens, encontrou diversas pessoas ao longo do caminho, diversas pessoas precisando de um herói, de um cavaleiro de armadura brilhante, e ele era esse cavaleiro sempre que necessitado, mesmo sem armadura, mesmo sem espada. O cavaleiro havia percorrido apenas metade do caminho, mas já haviam passados quase um mês, e quanto mais o cavaleiro andava, mais parecia que se distanciava do destino.

Na manhã daquilo que seria o terceiro mês desde quando o cavaleiro havia deixado a sua cidade e partido para encontrar o Ferreiro, enquanto ele cavalgava tranquilamente, viu uma Criança Cantando e Dançando pelas bordas de uma Floresta. O Cavaleiro sabia das lendas daquela floresta, diziam que lá havia um Dragão e uma Elfa. Ninguém entrava na Floresta das Lendas, nem heróis, nem crianças. O Cavaleiro então foi mais uma vez fazer sua função de Cavaleiro Lendário que era. Desviou do seu caminho, desmontou e começou a caminhar em direção a Floresta para resgatar a criança.

- Criancinha, criancinha, é perigoso estar ai. – Disse o Cavaleiro enquanto tentava alcançar a criança que dançava na borda da Floresta.
- Perigoso é ser atado pelas palavras alheias, e conduzido pela vontade do outro. – Respondeu a criança enquanto dançava uma música que ninguém ouvia.
- Como... – O Cavaleiro hesitou por um momento ao ver que os olhos da criança, um azul e outro vermelho, eram baços, como se ela fosse cega. – Você é cega, criança?
- Cega?  Como poderia eu ser cega se vejo perfeitamente o coração daqueles com quem converso, e conheço os desejos ocultos de todos os corações. Inclusive o seu, Cavaleiro. – A criança disse isso enquanto entrava na floresta.

O Cavaleiro foi atrás dela, a criança deveria ser louca, e por ser cega ela estaria ainda mais perdida nessa floresta. Ele viu a criança correndo em meio a uma sebe. O cavaleiro sabia que aquilo não podia ser bom. Ele embrenhou-se naquele espinheiro e tentou alcançar a criança. Quanto mais ele andava, mais se rasgava. Os espinhos eram afiados, e rasgavam a pele. Primeiro cortes finos, e depois cortes mais fundos.

Imagens começaram a passear pela cabeça dele. Diversas imagens. Lembrou do Torneio, lembro dos dias de aprendiz. Lembrou que ele sempre deveria fazer algo. Ele tinha obrigações, obrigações com o Reino, com os outros cavaleiros, e com todos ao redor. A medida que o sangue fluía, ele via cada vez mais de suas obrigações vindo à mente. Nesse momento ele lembrou que se tivesse com sua armadura prateada, esses espinhos não iriam feri-lo. As armaduras servem para aparar as dores da vida, e os espinhos no caminho sempre são inevitáveis. Por isso as pessoas se revestem de coisas como armaduras, e tentam usá-las para reduzir seus ferimentos, ao passo que estas fazem com que fiquemos parados.

O Cavaleiro Prateado via ainda a imagem da criança em meio aos espinhos da Sebe. Ela parecia dançar, e cantava como se não houvesse amanhã, cantava uma canção que não dava para reconhecer. E ele ainda estava atrás dela e gritava:
- Criancinha, pare, você vai se machucar!
- Quem não se machuca ao andar pelos caminhos da vida? – A Criança falava enquanto andava. – Mesmo assim estes espinhos são apenas para as pessoas que se prendem em seus medos. Eles são feitos para cortar covardes. Os bravos enfrentam e não se cortam.
- Como alguém poderia não se cortar nesse mar de espinhos?
A criança parou um pouco a frente do Cavaleiro e apontou para cima. Um sorriso calmo habitava o rosto da criança. Um sorriso de alguém que parecia saber de alguma coisa.

- Não dá para ir por cima. Não sou como um pardal!
- Não é por que acredita que deve algo a esta forma. Não é por ser devedor de alguém e por isso veste essa carcaça e não consegue vestir nenhuma outra.
- E como eu vestiria outra pele que não a minha?
- Arranque essa velha... livre-se desse seu eu antigo para poder ir adiante.
- Assim eu não terei mais que enfrentar espinhos.
- Estes não.

O cavaleiro pensou sobre isso e começou a andar novamente pela Sebe. Agora mais resoluto, agora ele fazia isso por ele, e não por que tinha que fazer, ou porque foi pedido para fazer. Agora ele fazia porque era o que ele queria fazer. E a cada passo que dava os espinhos iam ainda mais fundo na sua pele, e removiam grandes pedaços dele. E deixavam a mostra seus músculos sem pele. Foi quando algo fantástico começou a acontecer, algumas penas começaram a ocupar o lugar que antes era pele, onde antes era apenas pele agora uma penugem. Penas marrons, negras e brancas foram aparecendo. Os braços virando asas, o rosto tomando outro aspecto. Ele era como uma Coruja. Algo diferente do que era, e agora diferente do humano. Como Coruja viu que não fazia mais sentido estar ali no chão, quando podia voar. Alçou vôo e do alto ainda podia ver a criança, que havia subido num alto carvalho. O Cavaleiro agora Coruja foi falar com a criança, talvez para se despedir talvez para ter alguma explicação, mas a criança apenas disse uma coisa enquanto sumia em pleno ar:

- Aqueles espinhos não mais te ferirão, agora você está aproveitando a liberdade e toda a insustentável leveza que ela traz consigo. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Anjo Retornando.

Ele então observava perto do leito de sua amada uma doença que consumia o corpo e açoitava a alma. Ainda sem entender o que estava acontecendo, ele que até menos de um ano atrás nem sabia o que eram os sentimentos humanos sentia uma forte dor no peito. Uma dor impossível de ser descrita e que mesmo que se tentasse por mil anos nunca seria capaz de falar tudo aquilo que estava sentindo. Daí ele olhou para a criança cega e louca que cantarolava alguma canção insana ao seu lado e esperou por uma resposta. Ainda atônito por ele, que outrora fora o Anjo responsável pelo Cair das Gotas de Chuva das Manhãs de Outono, e desde o primeiro outono observou a terra e viu os humanos, não conhecer uma resposta que tinha quase certeza que a criança cega misteriosamente sabia. 

- A dor que você sente, meu amigo, é a dor de um coração amargurado pela perda. - Respondeu a criança com um sorriso no rosto - Você sente que ela vai partir e isso faz com que teu pequeno e humano coração se encha de dor e tristeza. 

- Então nunca mais voltarei a encontrar com ela? Ela irá assim, agora que comecei a amá-la? -- Disse o Anjo com dor no olhar e deixando uma lágrima furtiva escorrer pelos seus olhos. 

- Nunca? Não eras tu um anjo? Como poderia não acreditar numa possibilidade de vida para além desta? E mais, mesmo que o corpo se despedace, ela ainda possui uma memória forte e viva no coração de todos os que a amaram. Então, seja feliz, pois agora ela estará num lugar melhor do que este. 

A dama deitada na cama estava magra, pálida, com pele ressequida, apenas uma sombra do que foi um dia. Nada além de pequenos movimentos que o peito fazia ao respirar indicavam vida naquele corpo destroçado. Ela parecia frágil, como se o vento a qualquer embalo maior pudesse dissipá-la, como se um simples toque fosse o suficiente para rachá-la e então quebrá-la. Ela parecia algo que não estava ali, mas estava. Ela parecia o maior medo de todos os humanos, ela parecia mortal, ela parecia humana.

O Anjo só havia começado a ser um ser humano a pouco, então isso o fascinava, o que frustrava em realidade era o fato de perder um amor que ele havia acabado de entender que estava amando. Ela queria viver, ele sabia disto, mas ele não aguentaria, e também compreendia isto. 

- Volte a ser um anjo, e então cure-a. -- Disse a criança com um tom de voz despreocupado, mas como se estivesse lendo a mente do anjo.

- Voltar a ser uma anjo? Isso é impossível, nunca aconteceu, não tem como acontecer! 

- Um pouco de fé, meu caro amigo, um pouco de fé, e tudo é possível. - A criança parecia tranquila. 

- Ela se lembrará de mim? Ela ainda terá a memória dos momentos que vivemos? - Disse o anjo em desespero. 

- Quem pode ver anjos?

- Apenas crianças, cegos e loucos. - Disse o Anjo pensativo. - E mesmo depois que eles nos vêem, ao partirmos somos apenas lembranças de uma presença maior, um sonho bom, uma coisa boa. Ninguém lembra dos anjos, apenas de momentos felizes que viveram ao lado dos mortais que estavam junto. 

- Será a mesma coisa. Você tornar-se-á aquilo que sempre foi, e então será nada além daquilo que é. Ela não se lembrará de você, não saberá o seu nome ou mesmo que um dia você existiu, e assim será com todos os outros humanos. 

- Não quero deixar a vida dela, não quero que a minha lembrança se perca! 

- Então você pretende ser egoísta o suficiente para atar a pobre moça a uma lembrança de alguém que morreu por ela? Que crueldade é a de ligar a vida de alguém ao seu sacrifício. Um egoísmo sem tamanho tornar o outro responsável por um fim que foi você mesmo quem escolheu. 

- Mas eu a amo. - O Anjo não sabia mais o que falar.

- Então por que torturá-la com uma lembrança de algo que ela nem mesmo pediu, ou sabia que poderia pedir? Por que causar uma dor sem tamanho numa pessoa que você diz que ama, apenas para povoar a memória desta pessoa e então fazer com que este alguém esteja eternamente presa a ti? - Apesar das palavras o tom da criança parecia divertido e jovial, como se ela estivesse se divertindo ao ensinar um alguém mais novo algo que ela dominara. - O que poderia você querer mais? Querer que ela te adore e preste homenagens? 

- O que eu devo fazer então, me ilumine! 

- Pergunto-me quem seria mais iluminado que um anjo. 

Então ele entendeu o que a criança quis dizer, ela estava ali e partiria, mas se o anjo quisesse evitar tal coisa, ele simplesmente precisava deixar a humanidade de lado e então transformar-se no anjo dela. Transformar-se no protetor que ela merece ter. Não importa que ela não lembre mais dele, o que importa é o amor que ele sente por ela. Se ele não poderia viver esse amor, então que protegesse a sua amada. Que ele fosse aquilo que tem que ser. Porque no fim das contas amar esta para além de suas próprias vontades, esta em aceitar a felicidade do outro seja como esta vier, mesmo que o outro nem mesmo saiba da existência daquele que o ama. Amar esta para além de si.