sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Todas as Histórias Merecem ser Contadas.

O Trono de Diamante de Sangue estava vazio. As paredes da Sala do Trono estavam tão polidas que qualquer um que adentrasse poderia ver seu reflexo naquele espelho negro. Não há janelas naquele castelo, e apenas podia-se entrar pela porta da frente. Toda aquela grandiosidade abandonada ao tempo e ao vento. O Castelo quando vazio parecia ainda mais lúgubre, seus desenhos sombrios lembravam coisas que todos querem esquecer, e buscam lembrar. O Rei estava ausente. Havia partido numa jornada para se entender. As paredes do castelo, apesar de serem de um cristal negro extremamente polido não conseguiam refletir o monarca quando esse adentrou os salões reais.

O Rei adentrou em grande velocidade no seu salão principal, era tão rápido que nem parecia que ele tinha ao menos saído de lá, a velocidade dos sonhos, como alguns dizem, chega a ser mais rápida que o pensamento. Num instante o Rei estava lá novamente, como se nunca tivesse saído. Ornado com sua coroa negra, e com seus olhos fixos na entrada do Salão. As paredes do salão ainda estavam captando a passagem do Rei, como um movimento em câmera lenta. Passo a passo, e o Rei podia admirar seu trajeto pelo salão através do reflexo das paredes.  Aquelas paredes refletem muito mais que apenas as imagens dos objetos, elas refletem almas e lembranças. Sonhos partidos, e memórias esquecidas.  Contemplar a si mesmo através dos reflexos da parede as vezes era a única forma de se entender, mas o Rei não tinha tempo para tal, ele precisava ser um Rei, e atender os súditos que chegam ao castelo.

Um pequeno homem de olhos avermelhados de tanto choro andava por sobre o tapete rubro que levava até o trono do Rei Feiticeiro. Ele entrava de cabeça baixa, e era tímido. Um ar de sombras tomava o ambiente, ele usava esse aspecto de solidão como se fosse um manto. O que no castelo do Rei isso se tornava real. O pequeno homem de olhos vermelhos e usando um manto de solidão se prostrou diante do Rei e disse depois de uma longa pausa:

- Vós que sois o Rei que tudo pode, em nome do tempo e do vento, atenda o meu humilde pedido se for de vossa vontade. – O pequeno homem falava quase como se estivesse chorando.

- Fale.

- Eu quero pertencer a algum mundo. – Disse o homem erguendo a cabeça para encontrar os olhos do Rei, um azul e outro vermelho.  – Quero por fim a essa maldita solidão que me assola por não fazer parte de mundo algum.

Pertencer à algum lugar era algo importante para as pessoas, e todas sempre queriam fazer parte de algo, todas as pessoas sempre querem ser amadas, e todas sempre querem que alguém diga que elas pertencem a um lugar ou outro. Aquele homem estava lá, só, mas ele simplesmente ignorava que a natureza da humanidade é essa, a solidão partilhada. Todos possuem seus próprios mundos particulares, e ninguém pode ansiar por entrar no mundo de ninguém. Nunca poderia ser feito tal coisa.

- Sinto muito por sua solidão, mas ainda não tenho um motivo para fazer com que você pertença a qualquer mundo que não o teu. – Disse o Rei, que poderia burlar as Leis da Natureza dos humanos naquele lugar de sonho e fantasia.

- Pois lhe contarei minha história, meu caro Rei, e após ela, decida-se se vale ou não a pena fazer com que eu me integre a algo, se vale ou não a pena me por em outro mundo, me fazer parte de mais algum mundo além do meu.

- Prossiga, conte a sua história. – O Rei se aborrecia facilmente com aquele homenzinho lento e de fala floreada. Mesmo assim era o dever dele ouvi-lo.

- Um dia, meu Rei, eu amei alguém. – Começou o homenzinho. – Não que todos não já tenham amado alguém, ou irão amar alguém, mas eu amei. Amei com todas as ínfimas forças de meu ser, amei como poucas coisas poderiam amar. E não fui retribuído. Pois àquela que eu amei dizia que éramos de mundos diferentes.

- Certa vez, pequeno homem, eu amei a Morte. – Começou o Rei. – E ela era o fim de todas as coisas, roubou-me de mim mesmo, e levou para nunca mais devolver algo que nem sei mais o que foi. Ela disse que pertencíamos a mundos distintos. Eu era Sonho, e ela Realidade. Não podíamos nos tocar, e não nos tocamos. E assim ela seguiu com os afazeres dela e eu os meus. – O Rei em meio a um suspiro terminou. – Sua história é comum, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu caro Rei, tempos depois eu abdiquei de um grande amor apenas para fazer as vontades de uma pequena amiga que me virou as costas quando precisei.

- Após a morte, eu tornei-me escravo de uma mortal que me usou por anos como um brinquedo, tomando tudo o que era meu, do início ao fim. E quando certa vez amei alguém, tal mortal simplesmente fez-me distanciar e ferir essa amada para que ela pudesse tentar algo... Sua história é como a de tantos outros, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu Rei, num dada época de minha vida, amei uma mulher que viajava e falava bem, alguém que estava tão perto que por um momento acreditei que poderia ter achado um lugar no qual pertencia, mas o mundo dela era um mundo peregrino, e o meu um mundo de pobre alma presa num lugar.

- Outra história comum, pois eu mesmo conheci alguém que eu fui amaldiçoado a esperar que percorresse mil vezes mil caminhos distintos para que eu pudesse ter o tempo de apenas ver uma única flor desabrochar perto dela, para que então ela voltasse a sumir na neblina e viajar mais mil vezes por mil caminhos.

O homem começou a desesperar, a tremer, a soluçar.Todas as histórias que ele contava para o Rei pareciam tão pequenas, e ele as via tão grandiosas, e o Rei apenas fazia pouco delas. Como se seus sentimentos não valessem a pena. Como se ele não valesse nada. Triste ele estava, mas mais ainda indignado por ter suas histórias e seus sentimentos tão ignorados por aquele cruel Rei. Ele então ficou de pé prosseguiu de forma altiva:

- Eu sou um poeta que pediu para a própria morte ensinar-me a amar. – Uma lágrima furtiva começou a nascer nos olhos do homem. – Então no desespero me fiz escravo de uma mortal para que minha existência que não sabia amar fizesse sentido. Disse que era livre para uma pessoa que tentou fazer com que eu acreditasse em mim mesmo. Vivi como pude nas sombras de pessoas que achei ter amado, simplesmente por não saber mais como é sentir-me amado. Busquei emoções numa princesa de terras distantes. Fiquei envolvido numa ilusão que eu mesmo criei e a chamei de diversos nomes enquanto ela simplesmente temeu por não ser aquilo que eu sonhei, e eu a envolvi em tudo aquilo que não era ela. Sou um farsante que mentiu para alguém que fingiu me amar.

O Rei se empertigou no seu trono e observou o homem falar, ele parecia surpreso pelas falas agora. Talvez uma história interessante pudesse surgir disto, afinal.

- Vossa Majestade fala que todas as minhas histórias são comuns, mas não há uma só história que não seja comum e especial ao mesmo tempo. Não há uma só pessoa que não seja o centro de sua própria história e não a veja com olhos diferentes dos demais. – O Homem agora parecia irritado com o Rei. – Cada pessoa é tecelã de seu próprio sonho e de sua própria vida. Todas as histórias são igualmente comuns e fantásticas. Tudo o que basta é o ponto de vista, a forma de como olhar para estas histórias.

O Rei estava ouvindo estas palavras e sentiu que estava sendo desafiado, que alguém em seus salões questionava sua autoridade e sabedoria magnânima. Ele não estava para isso e resolveu falar, mas antes que pudesse proferir uma só palavra foi interrompido pelo homem:

- Não há uma só história que não mereça ser ouvida. E não há um só desejo que não mereça atenção.  Todas as histórias são dignas e se adequadamente pintadas por um artista experiente, todas as histórias dariam belos quadros. Minha história é trivial, como a tantos homens que amaram. Meu nome é comum como a grama que cresce em qualquer jardim. Minha vida é como a de qualquer outro. Mas para mim, ela é tudo o que tenho. E eu serei ouvido.

Enquanto falava isso, o homem começava a sentar num trono de Diamante Sanguíneo que surgiu atrás dele, enquanto se acomodava no trono, suas roupas foram ficando negras como a noite, e uma coroa surgiu em sua cabeça. Enquanto olhava para frente, tudo o que o homem via eram as portas da Sala do Trono, com suas paredes lustradas e seu tapete vermelho.


- Todas as histórias merecem ser contadas e ouvidas. 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Conversa do Rei Feiticeiro e o Pescador de Ilusões.

As areias eram negras na margem daquele Rio. O céu também, escuro, com nuvens cinza de uma eterna tempestade vindoura. A água era branca, e brilhava. Era o contraste daquele lugar desolado, sem aparente vida. Não havia vegetação, ou animais por perto. Nem mesmo um único mosquito para incomodar algum transeunte fortuito, mas também não havia transeuntes. Havia apenas ele, o pescador.

O Pescador estava tranqüilo naquelas margens sombrias. Não tinha certeza do tempo que passou ali, mas sabia que estava lá para pegar algumas coisas do Rio. Ele jogava sua linha e esperava, as vezes ficava por horas, dias, anos esperando, até que apanhava algo. Ele calmamente puxava a linha de volta, pegava o que tinha que pegar e jogava novamente a linha. Talvez seja desnecessário dizer que não existem peixes num Rio branco e fluorescente que tem como margem praias de areia negra, mas digo que não eram peixes que ele pescava, eram desejos e ilusões.  Ele usava essa pequena linha feita de alma para que os desejos se fixassem nela. Quando queria ilusões, ele jogava uma corda feita de esperança. Desejos perdidos procuram restos de almas para se agarrar, e ilusões se fixam bem na esperança.

Foi enquanto estava prestes a pegar mais um Desejo que o Pescador viu um homem em vestes tão negras que se destacava do ambiente. Era como se fosse uma sombra que absorvesse toda a luz que havia na escuridão e nada deixasse. As vestes deste homem eram de uma costura invejável, como se fossem as próprias Sombras envolvendo-o. Sua cabeça era encimada com uma coroa de diamante-sangue. Um diamante raro que normalmente não é visto em lugar nenhum do mundo que não seja em campos celestes. O pescador suspirou, e em meio ao suspiro falou:

- O que o Nobre Rei Feiticeiro faz tão longe de seus escuros domínios?

- Apenas divagando...  – Disse o Rei Feiticeiro ao se aproximar do pescador. – E minhas divagações me trouxeram até esta margem que não há como cruzar.

- Sempre há um barqueiro.

- Não há barcos para idéias. Elas são persistentes, insistem em existir na cabeça de diversas pessoas e isto as mantém.

O Rei parecia um tanto interessado naquilo que o Pescador estava pescando. Ele sabia que naquele Rio não havia peixes. Não poderia haver. Também sabia que ali era um lugar que era de acesso muito difícil, ir até ali deveria ter um motivo importante, e o que quer que se esteja pescando ali, deve ser algo interessante.

- Diga-me, pescador, o que você pega com essa linha tão fina.

- Esta, Rei, é uma linha de alma, serve para pegar Desejos.

- Desejos?

- Sim, desejos legados ao esquecimento. – O Pescador parecia ter um olhar distante enquanto falava isso. – Desejos que ficam impedidos de serem satisfeitos pela vida. Eles acabam por serem trazidos para cá.

O Rei pensou por um instante. Alguns desejos suficientemente poderosos podem criar deuses, como algo tão magnífico pode acabar aqui? Como um desejo pode acabar parando num lugar de esquecimento? O pescador observando o olhar pensativo do Rei meio que adivinhou o que ele pensava. Então respondeu:

- Nobre Rei, a Majestade não conhece as limitações da vida humana. – Em meio a um suspiro o Pescador prosseguiu. – Os humanos devem fazer o que têm que fazer, e as vezes isso quer dizer que eles devem abdicar de seus desejos. Chamamos isso de Realidade.

O Rei era de um mundo de Sonho. Aquilo de Realidade era novidade para ele, pois nunca ele pensou que algo pudesse não ser Real.  O Pescador ali diante dele não era distinguível de qualquer sonho que ele já teve, e isso para ele era o que era, e não havia diferença entre os mundos.

- E há uma diferença entre aquilo que você julga ser real, e aquilo que não?

- Sim, há! Aquilo que é da Realidade, é a rotina e convivência. Ela tolhe muitos sonhos e desejos, e deixa apenas algumas parcas possibilidades. Todos podem viver através disso, é claro, mas apenas dessa maneira.

- E sua liberdade para escolher é legada simplesmente ao fato de escolher ir para esse caminho que o convívio lhe impõe, ao contrário daquilo que os seus anseios lhe guiam?

- Nem sempre é ao contrário, Nobre Rei, mas sempre é algo que limita mais do que dá liberdade. Ao contrário de Vossa Majestade, nós não fazemos as leis, apenas nos submetemos a elas.

- E no processo perdem grande parte da liberdade. O que ganham com isso.

- Tudo.

- Tudo?

- Sim, estar preso é ansiar fugir da prisão, e com o anseio há desejo, e com o desejo há mudança. Sem a prisão não haveria desejos.

O Rei refletiu sobre tal afirmação. Ser preso tolhe, e liberta ao mesmo tempo. Ser um escravo das próprias normas é a única forma de ser livre.

-  Ainda assim qual é o real custo desta liberdade?

- O Medo. – O Pescador apenas olhava para o Rio. – O medo de falhar, de não conseguir ir adiante, o medo de ser menos do que aquilo que se espera. O Medo é o preço a ser pago. Principalmente o medo de sofrer.

- E como vocês fazem para não ficarem presos no medo.

- Criamos Ilusões.  Fantasias que sustentam nossas realidades frágeis, e afugentam nossos medos.  Ao criar ilusões, nós forjamos fantasias para os fantasmas que tememos, e vestimo-los com tais roupas. As fantasias são presas de forma muito precária, entretanto, e as vezes ela não se sustenta por muito tempo. Então temos que forjar uma nova fantasia, uma nova forma de ver alguma coisa que não é em algo que é.

- Se são tão necessárias assim, como tantas acabam aqui?

- Ás vezes elas não são o bastante, outras vezes nos rasgam muito então resolvemos jogá-las para cá.

- Machucam? A intenção não era que a fantasia fizesse com que o medo sumisse, ou ficasse mais agradável?

- Tente imaginar então o que aconteceria conosco sem ela... – O pescador puxava a linha de prata feita de esperanças de volta, nela algo iridescente se contorcia, uma ilusão perfeita. – Sem essas coisas, os nossos medos simplesmente acabariam conosco. Precisamos delas. Precisamos destas coisas para que todos sonhem com dias melhores, sem que os pesadelos apareçam para nos lembrar que os dias sempre são os mesmos e quem deve mudar somos nós.

- E não seria mais fácil vocês mudarem por si só, no lugar de depender das fantasias?

- Dói muito o esforço de tentar mudar por si. Uma dor que rasga os ossos e quebra a pele.  Tamanha é a dor que uma pessoa sente ao começar a tocar os seus medos que ela acaba por acreditar que vai se despedaçar. O mundo é um lugar hostil, e imaginar que ele pode ser bom é uma forma de não termos medo dele.

- Por mais que o mundo não seja bom ou ruim, o mundo é apenas o mundo, não há valores nele, há 
nos humanos, mas o mundo é apenas isso, o mundo.

- Essa é outra característica dos humanos, eles dão a todas as coisas as suas características. Tudo é um pouco humano sob os olhos dos humanos, pois eles impregnam todas as coisas com suas ilusões, e essas ilusões, transformam um pouco essas coisas.

- Como se o observador fizesse com que aquilo que está sendo observado mude pela simples intencionalidade da observação causal...  Quer dizer que apenas....

- Sim, apenas pelo fato de você está diante de mim, Vossa Alteza, algo em você é meu, e você é mais parecido comigo. Tornando-se um pouco de mim a medida que eu me torno um pouco de você, e assim todas as coisas são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

- Compreendo, e agradeço.


Ao terminar estas palavras o Rei deixou aquelas praias desertas, e nada mais podia ser visto lá. Nada salvo uma linha prateada feita de esperança, e uma linha branca feita de alma, um pequeno balde com algumas ilusões e uns desejos pequenos, apenas isso e nada mais. O Rei teria muito o que pensar até chegar em seu castelo, embora nunca tivesse saído de lá, e agora ele  entendia o que chamavam de ilusão. A Ilusão, o Sonho, o Delírio, a Fantasia... Tudo não passa de pontos de vistas de uma realidade.