sábado, 12 de dezembro de 2015

O Caminho dos Santos.

Um Santo fazia uma peregrinação pelo deserto. Caminhava para meditar sobre as coisas da vida e os caminhos que tinha que percorrer. Neste deserto, repleto de templos de areia, com altares de areia, e crentes de areia, ele via como era volúvel a fé humana. Entendia como as coisas eram simples e que bastavam alguns sopros para que as coisas mudassem e se tornassem outras. Os fiéis de areia, migravam de templo em templo. Ao sabor do vento, e estes templos também mudavam a medida que ventos mais fortes juntavam um templo de areia noutro. Assim era o deserto. Repleto de coisas de areia.

O Santo peregrino caminhou e cruzou todo o deserto, até chegar num de seus lugares preferidos. Um lugar que cheirava a álcool, cigarro, perfume barato, suor e lascívia. Neste lugar as pessoas não eram de areia, mas de carne, e tinham desejos de carne, e vontades de carne. Não migravam ao sabor do vento, mas à vontade da carne. Tinham desejos e os desejos eram mais reais que as coisas que habitam o deserto. Eram desejos sinceros. Parcamente iluminados em sua maioria, mas sinceros. Singelos, mas honestos. Ali o Santo sentia-se em casa. E foi quando, entre um gole e outro de vinho, que surgiu um velho homem de aspecto funesto e macabro. Ao redor dele, moscas, e um zumbido infernal. Ele sentou-se à mesa do Santo, sem ser convidado para tal, mas fazia porque ali ele era um Senhor, não um Servo.
- Seu lugar não é aqui, Santo. – Disse o homem com olhar severo.
- Meu lugar é onde eu puder estar, e ao lado de quem precisar. – Respondeu o Santo de forma serena.
- Aqui é um lugar de devassidão, de pecado, de luxúria, aqui as pessoas não procuram um caminho para alcançar graças, mas desgraças. Aqui é um lugar que o desejo deu voz e vazão ao que há de pior no homem.
- Ai é que você se engana, meu caro Opositor. Este é um lugar que as pessoas podem ser como elas são, elas são como podem e como devem, aqui é um lugar que muitos véus caem.
- Tira-se uns, bota-se outros. Ao passo que alguns parcos véus caem, outros são postos nos olhos já cegos dos que aqui vivem.
- E quem pode ver a Verdade com olhos nus?

O Opositor fez uma breve pausa. Era algo a se pensar, mas mesmo assim, ali não era um lugar que Santos pudessem fazer algo. Ali era um lugar que as pessoas iam para se entregar aos vícios, e apenas estar ali macularia uma alma. Ali era o lugar do pecado, e o pecado é algo que consome, pois seu nome é Culpa, a irmã mais nova da Consciência.

- Ainda assim, Santo. – Continuou o Opositor. – Você nada tem a fazer aqui, apenas aqueles que querem ser salvos é que serão, e ninguém aqui espera salvação.
- Ninguém está para ser salvo. – Disse o Santo de forma rápida. – Tão pouco estou aqui para me prontificar para salvar alguém. Não tenho o poder de salvar aquele que não está em perigo, temo, entretanto, por aqueles que estão no deserto. Os fiéis de areia precisam de ajuda, mas o vento é constante, e até mesmo minhas palavras fazem com que mudem de lugar para o outro dentro do deserto.
- Como estes que estão aqui estão menos perdidos que os que estão no deserto?
- Simples, estes sabem que existem caminhos a serem seguidos. Os moradores do deserto, nem isso. Aqui as pessoas estão em terreno sólido, e não importa para que lado andem, uma hora, acharão o caminho que lhes cabe, os fieis de areia infelizmente estão em situação crítica.
- Então você acredita que os que hoje são meus eventualmente encontrarão o caminho da Santidade?
- Eles já estão no caminho.
- Como assim?

O Santo parou por um tempo, respirou fundo, olhou ao redor, tomou um gole de seu vinho e parou para pensar. Lembrou das coisas que fizeram com que ele chegasse lá, as coisas que o guiaram, os caminhos percorridos, e ele pensou na pergunta que se fez há muito: “Qual é o caminho da Santidade?”. Ouviu tantas respostas quanto eram possíveis serem ouvidas, pensou também em tantas outras respostas quanto poderia dar. Nenhuma delas era satisfatória. Nenhuma delas era boa o bastante. Foi em meditação que ele pôde ter uma revelação, um caminho a seguir. Essa revelação foi extremamente simples, como todas as boas revelações devem ser. Ele entendeu que todos os caminhos levam à Santidade, desde que não seja desviado.

O Caminho que o Santo escolhe para si, é seu caminho de Santidade, e não deve ser desviado, não importa o que seja esse caminho, desviar-se é perder-se, e ao se perder, a pessoa peca contra a única divindade que realmente deveria importar, ela mesma. Ela peca contra si, e ao fazer tal coisa, ao fazer aquilo que ela mesma toma como errada, ela se fecha, e mergulha na culpa, e no remorso. Sim, era assim que os santos deveriam ser.
- As pessoas que aqui estão fazem o que fazem, porque fazem o que são, elas estão livres de culpa, e tua moralidade não as afeta. – Disse o Santo com um Riso no Rosto. – Quem faz o Pecado é o Pecador. Enquanto os que estão aqui fizerem aquilo que eles acham certo, eles estarão no caminho Santo.
- Você chama de Santo os bêbados e as prostitutas, os Sodomitas, essas Abominações?
- Sim...
- Você acredita que as pessoas que todos os dias oram, e rezam, e jejuam, e prestam honras aos deuses deveriam fazer isso que esses bêbados e ímpios fazem?
- Não...

O Opositor parou, ele não conseguia entender onde o Santo queria chegar, se o Caminho para a Santidade era o Caminhos dos bêbados e sodomitas, então a vida de jejum e oração era uma vida errada, era simples o raciocínio. O Santo, contudo, parecia discordar disso, ao passo que afirmava outra coisa.
-  A vida não é dual, meu caro Opositor, há tantos caminhos quanto há pessoas, há aqueles que alcançarão a Santidade fazendo as práticas ascéticas, enquanto também há aqueles que através dos excessos chegarão. Não posso determinar o caminho, é o Coração da Pessoa que diz.
- As escrituras...
- As tuas escrituras. Estas não são minhas, nem tão pouco foram escritas por mim, ou para mim. Como eu falei, cabe apenas à verdade de cada um aquilo que vai levá-lo à Santidade. Não posso dizer o caminho de ninguém, mas sei quando se desviam, você por exemplo, Opositor, é tão Santo quanto qualquer outro Santo. Você faz o que tem que ser feito, e nunca se desvia do seu caminho. Louvável.


O Opositor então suspira, materializa um cálice de cristal rubro, com um líquido negro dentro, ergue e brinda junto com o Santo. Assim é a vida, e nessa noite, dois Santos beberam num templo de luxúria sobre um altar malícia, e ainda assim, permaneceram puros.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Prisioneiro e o Carcereiro.

A repetição era infernal. Gotas caindo no piso de pedra. O lugar era escuro, úmido, fétido. Ele não sabia por quanto tempo esteve ali. Apenas lembra de ter ido parar lá. Uma masmorra. Os outros presos se foram há muito, apenas alguns companheiros silenciosos estavam lá. Cadáveres dos antigos prisioneiros, que os carcereiros nem se deram ao trabalho de remover dali. Ele estava suspenso pelos pulsos, já machucados, em carne viva. Feridas purulentas começavam a se instaurar nele. Ele só sofria.

Ele nem lembrava o que tinha feito. Não conseguia recordar que crime seria tão terrível para pô-lo naquela parte terrível do Inferno. Apenas estava lá. Havia marcas de chicotadas nas costas dele. Ele estava magro, e não comia nada haviam dias, também não lembra a última vez que bebeu alguma coisa que não fosse seu próprio suor, que escorria em parcas gotas pela sua testa. Nem saliva ele tinha mais. E lá ele estava. Não sabia se havia sido condenado, ou se ainda seria julgado, não sabia se alguém iria defendê-lo, ou mesmo acusá-lo. Apenas estava lá. Triste. Solitário. Foi quando outro som começou a ecoar pelo ambiente. Algo diferente das gotas de água que caiam do teto, e estavam longe demais para serem lambidas. Era um som de um zumbido. Um zumbido alto, moscas. Muitas moscas.

Ele deveria finalmente ter enlouquecido, mas isso ao menos já era um sinal, logo ele não precisaria mais ter que lidar com a cruel realidade que o mantinha preso, e poderia viajar nos devaneios de uma mente doentia para longe. Engraçado, ele também não lembrava da última vez que havia dormido. Talvez nunca tivesse dormido. Enquanto esteve lá, talvez apenas tivesse sofrido. Então em meio a esses devaneios, uma porta se abre. Não há luz entrando na masmorra, tudo era escuro e permanecia escura, agora apenas um som de moscas se somava aos habituais, e então passos. Talvez alguém tenha vindo visitá-lo.

- Olá. Prisioneiro.
- Oi! Quem é você! Pode me tirar daqui! Ou ao menos dizer por que estou aqui! – Estas eram as primeiras palavras ouvidas pelo prisioneiro em muito tempo, ele não podia se conter em alegria, medo e espanto.
- Sou o Carcereiro Daqueles Legados à Miséria. Sim, posso dizer por que você está aqui. – A fala do Carcereiro se mesclava com o zumbido das moscas. – Você foi posto aqui pelas pessoas que um dia chamou de amigos. Além de ter se posto aqui você mesmo, é claro!
- Meus amigos me puseram aqui? – Ele que nem sabia o nome estava confuso ao perceber que também tinha amigos, e que eles o legaram a esta prisão terrível. – Me diga, por que meus amigos me jogaram nesse lugar?
- Eles te jogaram aqui porque você é foi escolhido para vir para cá.
- Como assim? Houve alguma espécie de sorteio? De escolha?
- Claro que houve uma escolha, não apenas deles, é claro, mas houve.  Você foi escolhido para ocupar este lugar de ostracismo e sofrimento em detrimento de todos os outros. Você é o mártir deles.
- Eles me jogaram para cá para que não viessem?
- Sim. E você aceitou, talvez não de tão bom grado assim, mas aceitou. Aceitou ficar nas sombras, e aceitou que pusessem os ferros em seus pulsos, e aceitou que açoitassem suas costas.
- Que homem louco aceitaria todas essas coisas de bom grado?

Silêncio. Nenhum som pôde ser ouvido, nem das moscas, nem do carcereiro, nem das gotas de água que copiosamente caiam. Nada podia ser ouvido além do pensamento do Prisioneiro. Ele começou a lembrar. Começou a lembrar que possuía amigos, eles sempre caçoavam dele. Lembrou que os seus amigos riam dele por coisas que eles mesmos faziam, apenas porque tinham que dizer que alguém era tolo, e ele era o que deveria ser o tolo. Era apenas porque era o mais frágil. Porque era...

- Sim, parece que você está se lembrando... – A voz do Carcereiro parecia ecoar em meio aquela imensidão vazia. – Isso é um começo.
- Sim, lembro de algumas coisas, mas você disse que eu fui aquele que escolheu vir para cá, como eu escolhi se eles é que fizeram tudo? – As lágrimas dela começaram a brotar, assim como a voz a aos poucos mudar.
- Você... teve... medo... – As pausas da voz dele eram ainda mais aterradoras, mas pela primeira vez em muito tempo ele começou a se sentir ofegante, e não apenas apático, e começou a se sentir melhor. Ele começou a se sentir cada vez mais outra pessoa.

Mais silêncio. Ele se viu novamente apanhando, novamente se escondendo. Ele se viu fugindo, pois é isso que se faz quando se luta contra o mundo, foge. Principalmente por se achar merecedor disso, se achar merecedor das coisas ruins. Ele se sentia cada vez pior, e cada vez mais merecedor dos abusos. Se todos caçoavam dele, eles deveriam estar certos... Caçoavam dele por tudo, principalmente por ele não ser ele.

- Não é fácil não ter medo quando todo mundo está contra você. – Ela falou em meio a lágrimas. – Não é fácil ficar de cabeça erguida quando todos dizem que você está errada.
- Errada... – A pausa do Carcereiro parecia que iria durar uma vida toda. – Sim, você começa a se enxergar. A parte mais difícil começa agora.
- Qual é a parte mais difícil?
- Quebrar esses grilhões, e sair por aquela porta.

O novo silêncio era algo esperado agora. Nessas pausas ela podia pensar, podia parar e olhar para si mesma. Ela era uma leoa, e estava presa por pequenas correntes de ferro. Ela tinha como se livrar, mas era difícil. Essas correntes não eram só feitas de ferro, mas de vergonha, medo e rancor. Todas essas coisas são complicadas de se partir.

- Sim, são complicadas. – O Carcereiro falou como se estivesse dentro da mente dela. – Mas não impossíveis. Mais força, e talvez você seja uma das poucas pessoas a abandonar esta prisão.
- Você não vai tentar me impedir?
- Estou para guardar a prisão, não os prisioneiros. Não me importo com o destino que tomes, não me importo para onde vais, desde que vá, e abra a vaga para um próximo que será preso neste mesmo lugar.
- Há mais vindo?
- Sim... enquanto houver tempo, dor, rancor e medo. – Disse o Carcereiro calmamente. – Enquanto alguém fizer com que outros paguem dívidas que não possuem, este lugar está aqui para receber prisioneiros como você.
- Então vou sair daqui e derrubar essa prisão! – Ela falou com os dentes cerrados e um sorriso selvagem. As correntes cederam e ela avançou no carcereiro. Apenas para ver que não havia nada diante dela. Apenas a escuridão e uma porta pesada de madeira velha.

Quando ela terminou de atravessar o portal, o Carcereiro já terminava de aprontar a masmorra para seu novo prisioneiro. Era isso que os demônios faziam afinal, preparam, punem e testam, até que as pessoas passem nas provações, e cresçam... Ou elas falhem de vez e morram. Não importa para o Demônio, principalmente porque ele não está em lugar algum...
Era isso, tudo o que ela pensava quando acordou naquele dia de domingo. E decidiu que mesmo que toda a história fosse só um sonho, ela faria esse sonho valer e ser diferente. Ela saiu da cama contente e decidida, tão contente e decidida que nem reparou que embaixo da cama, ainda tinha uns pedaços de uma enferrujada corrente. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sobre Corujas e Crianças.

Havia passado quase um ano desde o Grande Torneio. Um homem despido de armaduras venceu o torneio, e fez com que o Cavaleiro de Prata pensasse sua vida e sua posição frente o mundo. Sua maça e sua espada foram destruídas, e sua armadura despedaçada. Ele precisava voltar às suas atividades como Cavaleiro e para tal, ele tinha que possuir uma armadura nova. Enfrentar o mundo de peito aberto era algo difícil de se fazer, e mesmo cavaleiros lendários precisam de momentos de descanso e uma ilusão de proteção e segurança.

Mesmo assim o Cavaleiro de Prata havia mudado, ele não precisava mais de uma armadura comum, ele precisava de outras coisas agora, outra coisa, algo que se molde a ele e se enquadre na sua nova vida, no seu novo modo de agir. Tão parecido com o antigo, e tão diferente. Ele precisava de algo mutável como ele.

Nisso o Cavaleiro soube que num reino longínquo, próximo de um Deserto de Areias Negras morava um Ferreiro que forjava qualquer coisa. Ele decidiu que deveria viajar e visitar este Ferreiro. Ver que armadura ele poderia escolher que combinasse tão bem com sua nova forma e vida. Algo novo, algo que o descrevesse.

A jornada era longa. A cavalo, seis dias demoraria. Ainda assim o cavaleiro era alguém resoluto, não iria se deixar abalar pela distância. Ele rumou, e como em todas as viagens, encontrou diversas pessoas ao longo do caminho, diversas pessoas precisando de um herói, de um cavaleiro de armadura brilhante, e ele era esse cavaleiro sempre que necessitado, mesmo sem armadura, mesmo sem espada. O cavaleiro havia percorrido apenas metade do caminho, mas já haviam passados quase um mês, e quanto mais o cavaleiro andava, mais parecia que se distanciava do destino.

Na manhã daquilo que seria o terceiro mês desde quando o cavaleiro havia deixado a sua cidade e partido para encontrar o Ferreiro, enquanto ele cavalgava tranquilamente, viu uma Criança Cantando e Dançando pelas bordas de uma Floresta. O Cavaleiro sabia das lendas daquela floresta, diziam que lá havia um Dragão e uma Elfa. Ninguém entrava na Floresta das Lendas, nem heróis, nem crianças. O Cavaleiro então foi mais uma vez fazer sua função de Cavaleiro Lendário que era. Desviou do seu caminho, desmontou e começou a caminhar em direção a Floresta para resgatar a criança.

- Criancinha, criancinha, é perigoso estar ai. – Disse o Cavaleiro enquanto tentava alcançar a criança que dançava na borda da Floresta.
- Perigoso é ser atado pelas palavras alheias, e conduzido pela vontade do outro. – Respondeu a criança enquanto dançava uma música que ninguém ouvia.
- Como... – O Cavaleiro hesitou por um momento ao ver que os olhos da criança, um azul e outro vermelho, eram baços, como se ela fosse cega. – Você é cega, criança?
- Cega?  Como poderia eu ser cega se vejo perfeitamente o coração daqueles com quem converso, e conheço os desejos ocultos de todos os corações. Inclusive o seu, Cavaleiro. – A criança disse isso enquanto entrava na floresta.

O Cavaleiro foi atrás dela, a criança deveria ser louca, e por ser cega ela estaria ainda mais perdida nessa floresta. Ele viu a criança correndo em meio a uma sebe. O cavaleiro sabia que aquilo não podia ser bom. Ele embrenhou-se naquele espinheiro e tentou alcançar a criança. Quanto mais ele andava, mais se rasgava. Os espinhos eram afiados, e rasgavam a pele. Primeiro cortes finos, e depois cortes mais fundos.

Imagens começaram a passear pela cabeça dele. Diversas imagens. Lembrou do Torneio, lembro dos dias de aprendiz. Lembrou que ele sempre deveria fazer algo. Ele tinha obrigações, obrigações com o Reino, com os outros cavaleiros, e com todos ao redor. A medida que o sangue fluía, ele via cada vez mais de suas obrigações vindo à mente. Nesse momento ele lembrou que se tivesse com sua armadura prateada, esses espinhos não iriam feri-lo. As armaduras servem para aparar as dores da vida, e os espinhos no caminho sempre são inevitáveis. Por isso as pessoas se revestem de coisas como armaduras, e tentam usá-las para reduzir seus ferimentos, ao passo que estas fazem com que fiquemos parados.

O Cavaleiro Prateado via ainda a imagem da criança em meio aos espinhos da Sebe. Ela parecia dançar, e cantava como se não houvesse amanhã, cantava uma canção que não dava para reconhecer. E ele ainda estava atrás dela e gritava:
- Criancinha, pare, você vai se machucar!
- Quem não se machuca ao andar pelos caminhos da vida? – A Criança falava enquanto andava. – Mesmo assim estes espinhos são apenas para as pessoas que se prendem em seus medos. Eles são feitos para cortar covardes. Os bravos enfrentam e não se cortam.
- Como alguém poderia não se cortar nesse mar de espinhos?
A criança parou um pouco a frente do Cavaleiro e apontou para cima. Um sorriso calmo habitava o rosto da criança. Um sorriso de alguém que parecia saber de alguma coisa.

- Não dá para ir por cima. Não sou como um pardal!
- Não é por que acredita que deve algo a esta forma. Não é por ser devedor de alguém e por isso veste essa carcaça e não consegue vestir nenhuma outra.
- E como eu vestiria outra pele que não a minha?
- Arranque essa velha... livre-se desse seu eu antigo para poder ir adiante.
- Assim eu não terei mais que enfrentar espinhos.
- Estes não.

O cavaleiro pensou sobre isso e começou a andar novamente pela Sebe. Agora mais resoluto, agora ele fazia isso por ele, e não por que tinha que fazer, ou porque foi pedido para fazer. Agora ele fazia porque era o que ele queria fazer. E a cada passo que dava os espinhos iam ainda mais fundo na sua pele, e removiam grandes pedaços dele. E deixavam a mostra seus músculos sem pele. Foi quando algo fantástico começou a acontecer, algumas penas começaram a ocupar o lugar que antes era pele, onde antes era apenas pele agora uma penugem. Penas marrons, negras e brancas foram aparecendo. Os braços virando asas, o rosto tomando outro aspecto. Ele era como uma Coruja. Algo diferente do que era, e agora diferente do humano. Como Coruja viu que não fazia mais sentido estar ali no chão, quando podia voar. Alçou vôo e do alto ainda podia ver a criança, que havia subido num alto carvalho. O Cavaleiro agora Coruja foi falar com a criança, talvez para se despedir talvez para ter alguma explicação, mas a criança apenas disse uma coisa enquanto sumia em pleno ar:

- Aqueles espinhos não mais te ferirão, agora você está aproveitando a liberdade e toda a insustentável leveza que ela traz consigo. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Anjo Retornando.

Ele então observava perto do leito de sua amada uma doença que consumia o corpo e açoitava a alma. Ainda sem entender o que estava acontecendo, ele que até menos de um ano atrás nem sabia o que eram os sentimentos humanos sentia uma forte dor no peito. Uma dor impossível de ser descrita e que mesmo que se tentasse por mil anos nunca seria capaz de falar tudo aquilo que estava sentindo. Daí ele olhou para a criança cega e louca que cantarolava alguma canção insana ao seu lado e esperou por uma resposta. Ainda atônito por ele, que outrora fora o Anjo responsável pelo Cair das Gotas de Chuva das Manhãs de Outono, e desde o primeiro outono observou a terra e viu os humanos, não conhecer uma resposta que tinha quase certeza que a criança cega misteriosamente sabia. 

- A dor que você sente, meu amigo, é a dor de um coração amargurado pela perda. - Respondeu a criança com um sorriso no rosto - Você sente que ela vai partir e isso faz com que teu pequeno e humano coração se encha de dor e tristeza. 

- Então nunca mais voltarei a encontrar com ela? Ela irá assim, agora que comecei a amá-la? -- Disse o Anjo com dor no olhar e deixando uma lágrima furtiva escorrer pelos seus olhos. 

- Nunca? Não eras tu um anjo? Como poderia não acreditar numa possibilidade de vida para além desta? E mais, mesmo que o corpo se despedace, ela ainda possui uma memória forte e viva no coração de todos os que a amaram. Então, seja feliz, pois agora ela estará num lugar melhor do que este. 

A dama deitada na cama estava magra, pálida, com pele ressequida, apenas uma sombra do que foi um dia. Nada além de pequenos movimentos que o peito fazia ao respirar indicavam vida naquele corpo destroçado. Ela parecia frágil, como se o vento a qualquer embalo maior pudesse dissipá-la, como se um simples toque fosse o suficiente para rachá-la e então quebrá-la. Ela parecia algo que não estava ali, mas estava. Ela parecia o maior medo de todos os humanos, ela parecia mortal, ela parecia humana.

O Anjo só havia começado a ser um ser humano a pouco, então isso o fascinava, o que frustrava em realidade era o fato de perder um amor que ele havia acabado de entender que estava amando. Ela queria viver, ele sabia disto, mas ele não aguentaria, e também compreendia isto. 

- Volte a ser um anjo, e então cure-a. -- Disse a criança com um tom de voz despreocupado, mas como se estivesse lendo a mente do anjo.

- Voltar a ser uma anjo? Isso é impossível, nunca aconteceu, não tem como acontecer! 

- Um pouco de fé, meu caro amigo, um pouco de fé, e tudo é possível. - A criança parecia tranquila. 

- Ela se lembrará de mim? Ela ainda terá a memória dos momentos que vivemos? - Disse o anjo em desespero. 

- Quem pode ver anjos?

- Apenas crianças, cegos e loucos. - Disse o Anjo pensativo. - E mesmo depois que eles nos vêem, ao partirmos somos apenas lembranças de uma presença maior, um sonho bom, uma coisa boa. Ninguém lembra dos anjos, apenas de momentos felizes que viveram ao lado dos mortais que estavam junto. 

- Será a mesma coisa. Você tornar-se-á aquilo que sempre foi, e então será nada além daquilo que é. Ela não se lembrará de você, não saberá o seu nome ou mesmo que um dia você existiu, e assim será com todos os outros humanos. 

- Não quero deixar a vida dela, não quero que a minha lembrança se perca! 

- Então você pretende ser egoísta o suficiente para atar a pobre moça a uma lembrança de alguém que morreu por ela? Que crueldade é a de ligar a vida de alguém ao seu sacrifício. Um egoísmo sem tamanho tornar o outro responsável por um fim que foi você mesmo quem escolheu. 

- Mas eu a amo. - O Anjo não sabia mais o que falar.

- Então por que torturá-la com uma lembrança de algo que ela nem mesmo pediu, ou sabia que poderia pedir? Por que causar uma dor sem tamanho numa pessoa que você diz que ama, apenas para povoar a memória desta pessoa e então fazer com que este alguém esteja eternamente presa a ti? - Apesar das palavras o tom da criança parecia divertido e jovial, como se ela estivesse se divertindo ao ensinar um alguém mais novo algo que ela dominara. - O que poderia você querer mais? Querer que ela te adore e preste homenagens? 

- O que eu devo fazer então, me ilumine! 

- Pergunto-me quem seria mais iluminado que um anjo. 

Então ele entendeu o que a criança quis dizer, ela estava ali e partiria, mas se o anjo quisesse evitar tal coisa, ele simplesmente precisava deixar a humanidade de lado e então transformar-se no anjo dela. Transformar-se no protetor que ela merece ter. Não importa que ela não lembre mais dele, o que importa é o amor que ele sente por ela. Se ele não poderia viver esse amor, então que protegesse a sua amada. Que ele fosse aquilo que tem que ser. Porque no fim das contas amar esta para além de suas próprias vontades, esta em aceitar a felicidade do outro seja como esta vier, mesmo que o outro nem mesmo saiba da existência daquele que o ama. Amar esta para além de si.

Visões.

Parado sobre o alto da colina estava lá um princepezinho, com um olhar triste, distante e contemplativo, ele fitava a estrada de acesso ao seu palácio. O palácio onde morava o principezinho ficava no alto de uma montanha, tão alta que podia-se ver todo o reinado de lá. O pequeno príncipe, vestido com um garboso colete negro e prata, fitava o oriente, que era de lá de onde vinham os peregrinos e as caravanas. Olhava para todas as coisas e nada deixava escapar. Olhar curioso, sempre atento sempre vigilante. O príncipe destas terras, que usava um arco verde obre um céu negro como brasão, gabava-se de poder ver todas as coisas e sempre inquirir sobre tudo o que acontece.
Até que um dia, o pequenino infante ficou inquieto com a visita de um peregrino no mínimo inusitado. Uma criança cega, vestida em andrajos, de pés no chão e um sorriso enorme no rosto andava em meio a estrada nevada. Ela não apenas andava, mas saltava e cantarolava. Não apenas saltava e cantarolava, mas fazia isso tudo sozinha. Sem ninguém por perto, ninguém para amparar-lhe a cegueira, ou qualquer um que dissesse para onde ela estaria indo, ou mesmo um bastão de apoio, para mostrar o caminho a seguir. A criança cega simplesmente caminhava, cantava e saltitava, por vezes até ensaiava uns passos de algum tipo de dança estranha de países distantes. A figura era tão inquietante ao pequeno principezinho, que este teve que ter com a criança. Ordenou aos guardas que a pegasse, e levasse a criança até a ele. E assim os guardas fizeram.
Diante do príncipe a criança ainda cantarolava baixinho, cantarolava não, solfejava algo, algo que ninguém compreendia ao certo o que era, mas era doce e isso todos tinham certeza. O pequeno príncipe fala então com toda a autoridade que apenas um nobre sabe ter.
- De onde vens e para onde vais? - Começou com voz firme - Sabes que em meu reino entram apenas os que vão tratar com meu pai, o Rei, ou os que venderão algo para nosso povo. Se não isso, não aceito ninguém aqui.
- Sim, sou apenas uma criança que anda, canta e saltita. - Falou a criança cega num tom divertido - Nada tenho a tratar com o rei, apenas vim para admirar as belezas desta terra que dizes que é tua.
- Como assim digo? - Falou o pequeno ficando impaciente - Esta terra é minha, sou o filho do regente, assim como o herdeiro por direito de tudo o que esta aqui, tudo isto me pertence.
- Me Pergunto como se pode ser dono de algo que esta para além de si mesmo... - a criança olhava diretamente para o príncipe com um sorriso calmo e um olhar de algo que só poderia ser descrito como pena, mas ainda assim era diferente disto.
- Sou o herdeiro do Regente, e posso ser dono de tudo o que é maior ou menor do que eu. Tudo aquilo que esta em mim é meu, assim como tudo o que esta para fora também o é. - o príncipe parecia cada vez mais agitado.
- Hmm, perdão vossa Alteza Real, não tinha percebido que estava diante duma divindade! - Disse Abaixando a cabeça a pequena criança cega - Consegues ser dona de algo que é você, que esta em você e que esta fora de você! Não posso descrever a honra de ver alguém assim.
- Ainda me zombas? O que poderia você enxergar? Você é uma criança cega, e como uma criança cega poderia olhar para algo?
- Não disse enxergar ou olhar, disse ver. São coisas distintas, as primeiras se faz com os olhos exclusivamente, a última, nem tanto. Além dos olhos é preciso de um pouco mais de coisas como, por exemplo, estar com a mente aberta a qualquer possibilidade.
- Então, o que poderia você ver, pequena criança cega?
- Tudo! - Falou a criança de modo terno e morno - E você, o que realmente você vê, meu pequeno principezinho de uma terra distante? Quando tu fitas as coisas o que você vê para além de suas formas, para além daquilo que esta aparente, o que você realmente pode ver daquilo que tu olhas?
- Nada. - Respondeu o pequeno príncipe que começava então a ver as coisas ao invés de apenas olhar para elas.

A Última Elfa

Houve um tempo quando as coisas eram simplesmente como elas eram e não como deveriam ser. Um tempo de sonhos e desejos, um tempo onde as coisas eram mais simples, e não era necessário muito dinheiro para se viver bem. Nesse tempo cada coisa com as quais alguém sonhava ganhava vida e força, e então podia caminhar livre pelo mundo. Era um tempo de reis príncipes e princesas, era um tempo de fadas e elfos. Era um tempo de magia e poder. Então, como todas as coisas que existem, este tempo chegou a um fim.
Não chegou sem aviso porém, chegou escrevendo na carne de cada ser do sonhar o seu advento. Chegou modificando a forma de como as pessoas sonham. Esta transformação findou com todos os seres do sonhar, com tudo que era simplesmente o que era, mas não o que deveria ser. As coisas que não se importavam com o que deveria ser simplesmente começavam a se importar e com isso foram pouco a pouco conhecendo seu fim. Um trágico porém certo fim. Os primeiros foram os Thuata, juntamente aos Leshay, as Salamandras e as Silfedes foram em seguida, os Gnomos, os Trolls, as ondinas e por fim os elfos. Da menor Pixe ao maior dos Nobres Thuata nenhum persistiu, nenhum salvo uma única elfa.
Uma pequena elfa que ainda acreditava nos sonhos, uma pequena elfa que ainda era como era, e nada além disso. Esta elfa dos bosques, num dia frio de outono pode pela primeira vez ver o causador de todo o sofrimento do seu povo. Pela primeira vez a elfa contemplou o Dragão que chamavam de Razão. Esta havia sido a besta que arrasara com seu povo, esta era aquela criatura que fez com que cada sonho desse lugar a uma teoria e a uma hipótese. Nada que era simplesmente sonhado teria valor ai. A elfa sabia, sabia que quem olhasse para a razão estava condenada a encara-la e eventualmente, assim como todo o resto de seu povo, ela também sumiria.
Foi quando sentada numa clareira em meio ao seu bosque de árvores de troncos prateados e com as folhas vermelhas a cair ao chão que ela avistou uma criança. Uma criança que andava em meio as árvores, cantando e dançando, alegre e serelepe. A elfa prestou mais atenção e viu os olhos brancos da pequena criança saltadora. Uma criança cega, possivelmente perdida no bosque. Ela era uma elfa e elfos não podem falar com humanos de maneira direta, pois assim são as leis do belo povo, porém ela não poderia deixar a criança andando sozinha pela floresta, foi quando ela teve uma ideia. Imitando uma andorinha e fazendo com que o som do riacho pudesse ser ouvido ela tentou conduzir a criança cega para um lugar seguro. Ela não poderia tocar na criança, mas poderia guia-la como fez tantas outras vezes no início dos tempos.
A criança não parecia exatamente ligar para o som do riacho ou para o arrulhar da andorinha. Ela Simplesmente se aproximava da clareira. A elfa por um instante pareceu incerta, pensou no que fazer, e tentou de alguma forma fazer com que a criança seguisse o caminho correto, para então achar seu lugar junto aos seus. Foi quando a criança disse:
-Não se preocupe, estou onde devo estar e caminho por onde devo caminhar.
A elfa não entendeu, como poderia isso, como poderia uma criança humana e cega saber onde ela estava, assim como conhecer seus intentos? Isso não poderia estar certo, mas as leis eram claras ela não poderia falar e assim o fez. Não falou apenas escutou.
-Perguntaria o seu nome, mas sei que não me dirias, perguntaria como você esta, mas também já conheço esta resposta. Pergunto, o que te faz triste e pensativa?
A elfa nada falou, apenas estava abismada em como alguém poderia falar assim com ela, ninguém era nem ao menos capaz de vê-la. Depois de todos esses anos a elfa aprendeu o segredo de como ficar invisível e o segredo de como permanecer em silêncio. Uma criança, mesmo que pudesse ver não seria capaz de olhar para ela. Mas parecia que esta criança encarava o fundo da alma dela, conhecia até o fim de seu último segredo.
-Você sabe que o fim de sua existência chegará em breve, não sabe? Sabe então que o Dragão virá e fará com que o último sonho acabe, não sabe?
Sim, ela sabia, mas nada poderia ser feito, o Dragão Razão se abateria sobre ela, e se os nobres não conseguiram enfrenta-lo quem era ela? O que um pobre Sonho tido numa tarde de primavera sobre um carvalho e selado com uma jura de amor eterno poderia fazer contra aquele que faz com que as coisas sejam como devem ser?
-Tudo. - Disse a criança de modo morno e tranquilo. - Juras de amor tendem a ser os sonhos mais poderosos. Apenas não sabem disso. São sonhos tão fortes que quando feitos em vão propósito podem matar aquele quem ouviu a jura.
A elfa assustou-se ainda mais. Temendo ter sussurrado de alguma forma o que pensou ela recuou, e o medo removeu a concentração e então fez barulho ao pisar numa folha seca de outono. Como uma criança poderia saber do momento no qual a elfa fora concebida? Como isso poderia ser possível e que poder seria esse que pode matar os humanos?
-Uma jura de amor, quando feita, tem o poder de levar vida longa aos homens, revigorar as forças, fazer com que herois se ergam e batalhas sejam vencidas. - A criança tinha um olhar plácido, mas parecia querer dizer algo que deveria ser perguntado para ser dito. - Quando desfeitas podem erguer muros entre pessoas, encher de tristeza infindáveis vidas e acabar com sonhos.
Acabar com sonhos, ponderou a elfa, assim como o Dragão Razão faz... O Dragão Razão incinera cada sonho em seu hálito de retórica e distorção, em suas asas de dor e repúdio mora o desalento dos sonhos. Até o mais perdido dos sonhos, em sua época, não era tão desolador quanto eram as asas do Dragão Razão. Seria o Dragão...
-Uma jura de amor rompida? - Disse a criança como se completando a frase da elfa. - A jura de amor de alguém que uma estrela fez para A Lua. A Jura que uniria para sempre e além os sonhos, mas foi rompida, e então a desolação da Lua fez com que ela acreditasse apenas nas coisas como elas deveriam ser, e não nas palavras das coisas como eram. Sendo então a primeira a deixar de ser com era e ser apenas como deveria. - A criança parecia um tanto entristecida com a história da lua, mesmo assim prosseguiu.- A desolação do amor perdido pode apenas ser salva por uma jura de amantes eternos, pois quando se ama, sonhamos infinitamente infinitas coisas de infinitos modos.
A elfa pensou no que a criança estava querendo dizer com tudo aquilo o que poderia significar tal coisa? E acima de tudo, quem era aquela criança que estava diante dela, falando tão claramente de coisas que ela não deveria saber. Muitas dúvidas começaram a se abater sobre a elfa. Foi quando ela sentiu a dor do desaparecimento, sentiu cada gota do ser dela começar a se dissipar sobre a dura e fria visão do Dragão Razão. As dúvidas traziam as incertezas e estas eram devoradas pela razão, mas os seres dos sonhos são apenas aquilo que são, e se tem dúvidas eles são dúvidas, e ao ter as dúvidas devoradas, eles também são devorados. Isso fez com que a elfa entendesse. O que dissipou os outros foram as dúvidas, estas eram as que deveriam ser combatidas.
-Sim, combatidas, mas dúvidas de amor não devem ser vencidas com a razão, mas com o coração - Disse apressadamente a criança- Entregue ao Dragão Razão a única coisa que ele não pode compreender, e fazendo isso, faça com o que outros sonhos tenham a esperança de nascer. Entregue a Razão aquilo que chamam de Amor.
E a elfa fez o que a criança disse, e ao fazer isso começou a se desfazer, mas sabia que não tinha sido em vão, e agora compreendia quem era a criança. O Fruto do Primeiro Beijo de Uma Jura de Amor Nunca Esquecida. A elfa sabia que não morreria, mas que viveria novamente, talvez como uma elfa, ou quem sabe uma humana, contudo sabia que um dia encontraria alguém que contaria para ela esta pequena história, a história de como o amor salvou os sonhos, e então lembraria de casa e dos tempos como eles eram. Lembraria da criança cega e acima de tudo, lembraria que a promessa feita na tarde de primavera sob a copa dum carvalho e selada com um beijo, foi mantida.

Jornadas e Caminhos

Houve então um momento de silêncio. A princesa havia jurado e juras são coisas sérias. Todos pararam para ouvir o urro de dor que ela proferiu e então o juramento de ser como o gelo, e então ser gelo. Em muito tempo, ninguém nunca ouviu a princesa falar deste modo, em muito tempo, ninguém nunca esperou que o sorriso fácil da pequena princesa escondesse tamanha dor e sofrimento.
Não muito distante dali uma criança cega afinava um violino imaginário que tocava as melodias do coração com perfeição. A criança viu a sorte da princesa e esta se recusou a crer naquilo que lhe havia sido dito. A criança falou que seu pretendente era alguém que de um mundo distante, com costumes diferentes e hábitos diferentes. Disse para a princesa que seu consorte era um plebeu e que este se apoiaria nela sempre que estivesse caindo, mas nenhum plebeu pode suportar o peso de um nobre. Enquanto ela para ele seria uma fonte de luz e renovação, ela teria que trilhar o caminho de forma mais árdua, na escuridão, pois o plebeu possui tochas e não luz própria. A princesa não acreditou nas palavras da criança e seguiu.
A criança afinou então o seu violino imaginário e contemplou a princesa que seguiu o caminho que havia dito que seguiria. Ela seguiu acompanhada e só ao mesmo tempo por um caminho longo que por vezes o mais bravo de todos não consegue percorrer sozinho. Seguiu caminhando descalça, pois teve que dar suas sandálias para o plebeu, num chão de espinhos e lágrimas. A princesa percorreu o caminho ouvindo um réquiem que era tocado por pardais em coro, flores solistas e cascalhos intrometidos.
Depois de muito caminhar, com os pés ensangüentados, a boca seca de palavras de força, o coração rasgado, ao som de uma valsa triste, com rosas ao redor ela proferiu uma jura triste, solene e etérea. Jurou que quando tudo tivesse um fim, o frio tocaria seu coração e então ele seria como gelo.
A criança ouviu tudo isso, mas sabia, no entanto que o coração não é de água para congelar, mas é vento e fogo. Por isso voa sem controle e arrasa todos os lugares por onde passa. Isso não pode ser congelado, não se congela o relâmpago, não se para o vento, não se interrompe a tempestade, e não se apaga o Sol. A criança sabe que é impossível de cumprir este juramento que a princesa fez. Sabe que por mais que tente a chama do coração de um nobre queima mais do que qualquer coisa, sabe que depois que tudo acabasse, e a jornada terminasse, quando a noite chegasse, a princesa seria o que ela sempre foi. Uma gata. Que faz coisas de gata, fala coisas de gata e vive como gata. Neste momento ela voltaria para seu lar, descansaria e então poderia amar novamente, não apenas como princesa, ou apenas como gata, mas como ela mesma.
A criança recolheu seu violino, viu um “pequeno corvo”, abraçou forte sua “espada”, e seguiu a sua própria jornada. Pois assim é a vida, cheia de caminhos e encruzilhadas, quem sabe quando os caminhos se cruzarão novamente, e talvez a criança possa recitar uma história mais feliz sobre princesa na próxima vez que se encontrarem. Sim, histórias felizes as vezes são coisas boas. A criança sorriu e seguiu. Deixando para trás um violino, um coração petrificado, uma adaga e levando apenas um sorriso

A Princesa e o Troll.

Num reino distante, que o outrora principezinho, então rei, costumava ficar no alto duma colina observando as caravanas que chegavam, e que depois de uma conversa com uma criança cega e louca que cantava amar todas as coisas aprendeu a enxergar, ao invés de apenas ver o que estava diante de si. Este mesmo reino que possui como brasão um Arco Verde num Fundo Preto. Residia numa caverna, talvez por bondade do rei outrora príncipe, ou talvez simplesmente por que as coisas são assim e não se explicam demais, um troll. 
Este troll, asqueroso e terrível, devorava todos aqueles que entravam em sua caverna, todos exceto uma única criança, cega e louca e que cantava que amava todas as coisas. Esta criança era alguém que conversava com o Troll e este com a criança. Ela trazia notícias de além da caverna, contava das coisas que aconteciam, falava sobre as coisas da vida e sobre a vida das coisas. E a criança trouxe novidades interessantes certa vez. Falou duma dama com um nome principesco, que residia naquele reino, mas passava tempos suando numa cidade pesqueira. 
A criança, porém disse que tal dama já estava sendo cortejada, e que o troll era um troll, e deveria agir como um. Claro que a criança também sabia que aquele era o Rei dos Trolls, um ser que viveu por centenas de anos e travou duros combates pela honra dos Trolls. O Troll decidiu que observaria a disputa e a dama com o nome de princesa do alto da colina que outrora o principezinho então Rei costumava ficar para observar todo o reino. 
O Troll deparou-se com os três pretendentes conversando entre si. Como Rei dos Trolls, o Troll possuía habilidades únicas como, por exemplo a capacidade de ouvir coisas sendo ditas a muitas léguas de distância. Ouviu a seguinte discussão:
- Eu ganharei a dama, não existe este que seja meu rival. – Disse o primeiro com toda empáfia no olhar e toda a arrogância daquele que nunca conheceu uma única vitória por esforço próprio. – Eu a quero para mim e a conquistarei quando trouxer para ela a pele do Lobo Rei que outrora foi consorte da Rainha das Pumas. – Dizendo isso partiu sem nem ouvir o que os outros dois tinha a dizer.
O Troll teve que rir, pois não se conquista o amor com matanças, ele mesmo já teria um harém do tamanho daquele mísero reino se para cada besta que ele matasse uma mulher o amasse. Não é assim que funciona o amor, não são ameaças vãs, não é apenas a tua vontade, é algo diferente. Pensando e ouvindo, viu o outro mancebo dizendo:
- Tolo é este que crê que conseguirá o amor duma donzela com uma pele. – Este era mais maduro, mas ainda assim um tanto esquivo e de fala maliciosa. – Trarei a Maldita Rosa Eterna, este presente sim fará com que ela me ame. 
Mais uma vez o Troll riu, um riso tão alto que pôde ser ouvido como um trovão por todo o reino. Uma rosa? Ele mesmo já colheu rosas da roseira do tempo. Entregou uma para sua primeira rainha, uma para sua primeira filha e outra para o seu maior inimigo. A rosa é um grande símbolo, mas sozinha é apenas uma flor, uma flor que assim o tempo chegar murchará como todas as outras flores. Uma flor ainda não é aquilo que pode gerar o amor. Ela apenas põe em evidência aquilo que lá estava. Rosas não conquistam pessoas, nem geram amores... gerar amor é algo diferente. Vendo que o segundo ficou para gabar-se de seu feito e ver o terceiro desistir de sua tentativa, a conversa continuou e o troll prosseguiu ouvindo.
- Uma flor? Isto é o que você dará a dama com o nome de princesa? Quantas flores ela já não deve ter visto? Quantas rosas não deve ter ganhado – Zombou o terceiro como se tivesse uma solução brilhante e inovadora. – Eu sou um trovador. Como um bom trovador, cantarei e farei com que ela se encante por mim. 
Ambos se despediram e foram para suas tarefas. O Troll acompanhou a caçada do primeiro e viu quando o Lobo Soberano ficou diante do mortal tolo. Foi ai que o primeiro humano aprendeu que amor não se ganha com bravura, mas com a coragem de se fazer algo que se tem medo. Com a coragem de viver algo que é novo e imprevisível. O Soberano com seus olhos vermelhos fez com que o sangue do primeiro humano enregelasse e quando as gigantescas patas brancas do Lobo Imperador bateram no peito do humano, este entendeu que aquilo ele sentia não era amor, mas a vontade de se provar para a dama.
O Segundo humano entrou no Roseiral Eterno. Lá o espírito da Rosa contou a ele sobre o que é amar, e que não se escolhe amar alguém, simplesmente se ama. Fazendo desta jornada algo que estaria fadado a desgraça, o humano resolveu persistir, pois acreditou que os símbolos diriam tudo e representariam todas as coisas que ele quisesse. Triste o humano que não entende que qualquer símbolo pode representar qualquer coisa, e que a Rosa Eterna não representaria coisa alguma se não houvesse lá algo para ser representado. Em meio aos espinhos, rasgado até a alma pela sebe, ele entende que aquela rosa é uma busca vazia, e não importa o quanto ande, ele nunca vai alcançá-la, pois o sentido da coisa nunca encontra o seu símbolo, e era isso que ele queria fazer, matar o amor transformando-o em algo que uma rosa poderia esgotar todas as possibilidades. 
O terceiro humano pegou sua viola e tocou a mais doce melodia. Algo tão incrível que muitos pararam para ouvir. O Rei dos Trolls já havia escutado algo assim antes, chama-se solidão. Um vazio cantado de forma tão profunda que gerou ainda mais vazio, e que foi preciso ainda mais pessoas para que ouvir o vazio que aumentava e só fazia crescer. Terrível e triste, o trovador tocou o nada para uma platéia extasiada. E na música, pois esta quando se toca com o coração, fala para a alma também, ele entendeu que não amava a dama com nome de princesa, mas amava a idéia de poder amar, pois se sentia tão vazio de si, com tamanha necessidade de algo para completá-lo que só, somente, só a música seria capaz de fazê-lo feliz. 
O Rei Troll parou e pensou, não é a bravura, não é o símbolo, não é a canção. O que gera o amor... A criança cega, louca e que amava todas as coisas parou e como se fosse capaz de ler os pensamentos do troll falou a ele:
- Amor gera o amor. E apenas isso, e nada mais. Não são canções, não são atos heróicos, não são flores, é apenas a lembrança constante da ausência de um alguém. Somado a todas as faltas que não fazem faltas, todas estas pequenas coisas que são apenas uma demonstração de algo que pode vir a ser.
Nisto o Troll lembrou de sua rainha, outrora uma princesa entre os humanos, hoje um troll, e entendeu, ela abriu mão da humanidade para estar junto a ele, pois é assim que funciona essa coisa de amor, é um jogo de trocas e formas. No qual todos cedem e dão uma parte importante de si para o outro, para que possam viver juntos. A Rainha cedeu a humanidade, o Rei, a Coroa.

A Dança da Raposa.

Já era noite naquele bosque. A lua estava alta no céu, reluzente como se fosse feita de prata. Não havia nuvens, nem estrelas, apenas a lua. Era como se um enorme pano preto servisse de moldura para uma brilhante baixela prateada. Sob esta luz, um corpo se movia esquivo e esguio por entre as árvores. Veloz e destro, um vulto ruivo que se perdia ao menor piscar de olhos parecia dirigir-se para algum lugar.
Mesmo sendo primavera ainda havia neve, dizem que é por causa do coração do Soberano Lobo que enregelou toda essa parte da floresta e nada poderia trazer o degelo. Um coração tão frio que trouxe o eterno inverno para seu povo. Por isso a Raposa movia-se tão rápido. Seu intento era trazer alento para o coração do soberano e com isso fazer com que a primavera mais uma vez retornasse.
O inverno da alma é o mais terrível, e precisava ser aplacado. Muitos dependiam do nobre Lobo Rei, e a raposa acreditava que se encantasse o Soberano as coisas iriam voltar a ser como antes, e o Sol finalmente iria raiar depois de tantos dias de noite. Se o Lobo encontrasse a chama do amor novamente dentro de si, ele faria com que o Sol aparecesse, as estrelas voltassem a brilhar, e o verão em fim chegasse.
A Raposa então se empenhou na tarefa de seduzir-Lo, e saiu de seu covil do outro lado do reino e correu para chegar rapidamente ao Grande Imperador Lupino. Chegando numa clareira, exausta, sedenta e faminta, a insone Raposa resolveu descansar um pouco. Precisava descansar as patas cansadas, respirar da viagem longa, para que pudesse dar procedimento a sua sina.
Sina, pois o destino da Raposa, ela pensou era o de sempre ser o amor de todos, mas nunca o de quem ela realmente deseja. A sina da Raposa é tomar para si o coração de todos menos daqueles a quem ela realmente ama, afinal não haveria sentido em roubar algo como o amor verdadeiro, este deveria lhe ser dado de bom grado, e nunca roubado.
Quando estava prestes a mover-se a Raposa percebe alguém em meio às arvores. Uma figura pequena, que se aproximava cantando algo que fugia a mente da Raposa sempre que ela tentava entender o que estava sendo cantado. Uma criança surge em meio a clareira, sob uma bela lua prateada.
A Raposa que estava faminta cogita em como iria comer a criança sorridente que estava diante dela, e os olhos enevoados dela traziam a tona a verdade sobre sua visão. Uma criança cega, descalça, e vestida em andrajos em meio a Floresta Nevada dos Lamentos. A Raposa calculava o quanto sortuda ela era, pois isto é uma das coisas que as Raposas são, seres de sorte, destino e acaso. Resolve se mover silenciosamente para que a criança cega não notasse sua aproximação.
- Dona Raposa, sinto lhe dizer que esta jornada é vã. – Disse a criança encarando a Raposa.
A Raposa encarou-a por algum tempo. Não entendeu como uma criança cega poderia saber que ela estava ali, mas dizem que os cegos enxergam coisas que os videntes não conseguem. Desse modo, ficou parada e decidiu esperar que a criança seguisse o seu caminho. A Raposa sabia que precisava rumar para o alto da mais alta montanha a fim de fazer com que o Rei Lobo a amasse.
- Por isso que sua jornada é vã, minha doce Raposa. – A criança parecia encará-la com seus olhos enevoados e coloridos, um azul e outro vermelho. – Não se pode fazer amar. Não é possível para ninguém fazer com que o outro o ame. Não importa o quanto você se diga sedutora, isso só é relevante para você mesma, pois o outro é quem escolhe se deve ou não te amar.
Uma criança, pensou a Raposa, não deve saber o que fala, afinal é apenas uma criança. Não há a possibilidade de ela saber o que é o amor, ou os rudimentos dos jogos da conquista. Seduzir é uma arte antiga, que leva muito tempo para ser dominada e é fruto de constante empenho e dedicação a abdicar de pequenos pedaços seus para agradar pequenas partes do outro.
Seduzir é como a dança que o mar faz com a praia, o mar cede um pouco de si para a praia, para que este tenha o sabor do mar em seus lábios e queira mais. O avanço do Mar é apenas uma amostra daquilo que ele é capaz, e a sede da praia que bebe cada gota de mar que se derrama por sobre ela, é apenas aumentada pela insistência da dança, até que toda a praia seja devorada pela dança.
- Isso é amor? – Perguntou a criança para a raposa absorta em seus pensamentos.
Claro que é, pensou a Raposa enquanto farejava a criança e tentava descobrir se de fato ela era humana, ou se era algo a mais. Amor é isso, algo que consome todas as coisas e arrebata tudo o que vê pela frente.
- Não, minha cara Raposa... Isso é paixão. Esse fogo intenso que absorve tudo não é como o terno calor do Sol, que mesmo no dia mais fustigante de verão não consome toda a terra a transformando em brasa ardente. Não haveria Mar ou Praia para fazer esta dança se o Sol não amasse a todos. Não haveria simplesmente porque o Sol engoliria todas as coisas que não são ele apenas para aplacar a dor da paixão que sente. A paixão queima tantas coisas tão rapidamente que em pouco tempo não haveria mais nada para queimar. Pequena Raposa, amor não tem a ver com a sua dança, pois não é algo para dois. Amor nunca é algo apenas para duas pessoas, mas para o mundo.
A Raposa não conseguia compreender isso, meneou a cabeça e olhou para a Lua. Ao ver aquela grande e brilhante Dama Prateada no céu pensou: Se amor não é uma Dança a dois, então o que viria a ser esta dança do Sol com a Lua? Como poderia a Lua e Sol não serem os amantes perdidos e separados pela fúria e inveja dos deuses? Como não poderia ser crueldade isto que o Lobo Rei fazia ao impedir que a Lua pudesse ver, mesmo que por poucos instantes seu amado Sol, e que este pudesse vê-la até que tivessem a permissão dos deuses do firmamento para estarem juntos por aqueles parcos instantes que chamam de eclipses solares, ou quando a Lua não mais agüenta estar presente no céu e retira-se causando o eclipse Lunar. Isso era amor, e essa dança não pertencia a mais ninguém, só a eles dois.
- Como poderia pertencer apenas a eles se você conhece tão bem a história? Amor é para todos, não se encarcera a visão dele. Não se prende apenas ao casal. Não amor é partilhado e gera essa sensação boa que você sente em seu coração sempre que olha para essa dança. Uma dança tão gloriosa que o Mar tentou imitar junto a Praia e tudo o que conseguiu foi não ter mais praia. Amor não se trata de ciclo, ou de constância, mas de algo que está para além disso tudo e que só de ver somos capazes de reconhecer. Por este motivo, minha pequena Raposa, não tente nada com o Lobo Rei, ou você se afundará num inverno ainda mais denso, espere o coração Dele abrandar-se e então terás tua primavera de volta.
A Raposa estava cansada, e não conseguia persistir nesta conversa, fraquejou em suas patas dianteiras, e então nas traseiras, e por fim caiu sobre a neve. Seus olhos pesaram, e encontrou o sono. Em seus sonhos encontrou uma Raposa Branca com olhos azuis, e sentiu-se bem, como se o Sol estivesse surgindo, como se o primeiro vento vespertino a tivesse alcançado trazendo um doce cheiro de amoras frescas. Tão boa a sensação de um antigo amigo da infância que a Raposa sorriu. Sorrindo abriu suavemente os olhos para ver a Gloriosa Aurora. O Lobo Rei seguiu seu caminho e o Sol novamente poderia nascer. A primavera chegara. Sua missão era realmente vã, pois do mesmo modo que não se tem como fazer com que alguém te ame, não se pode ocupar espaços de outrem no coração de ninguém. Cada tempo tem que ser respeitado, tanto o de dor, quanto o de alegria.

Pacto Amargo

Naquela noite quente de Verão alguém recitava palavras esquecidas por muitos, recitava numa cadência profana e sacra diante de uma parede repleta de símbolos arcanos. Ele dizia as palavras num tom vociferante e esperava que o nada ouvisse suas preces sombrias. Ele rogou aos caídos que as portas para o outro lado se abrissem e estas se abriram. Um ar gélido passou por todo o salão. Todas as velas se apagaram. Todos os sons cessaram. Todo o tempo parecia parado. Diante dele, no lugar onde deveria estar apenas a parede desenhada com símbolos profanos estava uma porta sombria. Parecia em muitos aspectos a entrada de um túnel, ou talvez de uma caverna.
Ele deu passos vacilantes para dentro do túnel e as sombras o envolveram. Para os que nunca tocaram as sombras, saibam que elas ao toque são frias como uma alcova de meretriz, densas como a espuma do mar à meia-noite, enervantes como um sussurro de um assassino na nuca de sua vítima momentos antes de finalizar o ato. Assim são as sombras e nada de belo reside nelas. E ele caminhou por entre este vale triste até deparar-se com a torpe amostra daquilo que ele procurava. Sentado num trono feito de ossos humanos, um nobre Rei Caído estava diante dele, e ele acreditou que estava pronto para fazer o acordo. A coroa do Rei Caído estava rachada como todas as coisas estavam nele, seu olho esquerdo era vermelho, o direito era azul, e seu sorriso parecia amável, como se ele pudesse amar e salvar todas as coisas. Talvez este seja o maior truque dos Caídos, serem distintos do que todos acreditam, ou talvez este fosse mesmo.
- Estou aqui para fazer um pacto! – Falou alto o homem que atravessou o portal para o outro lado.
- Sério? Não supus que viria tão longe apenas para ter uma conversa cordial, embora preferisse que fosse assim. – Disse o Rei em tom jovial e impressionantemente sedutor.
- Sou um feiticeiro e vim até aqui pelos meus próprios meios, quero então fazer um acordo. – Disse o homem ignorando as zombarias do Rei. – Você me dará o que quero!
- Sim, darei. – Disse o demônio de forma displicente. – Embora receio que aquilo que queres não seja exatamente o que necessitas, mas darei mesmo assim.
- Como assim? – Perguntou o homem ficando com dúvidas.
- Eu vejo o que queres, sei o que te motivou, e vejo para além desta tua pífia vida. – Disse o demônio em meio a um suspiro. – Sei que você vai se arrepender daquilo que pede, e sei ainda mais que há de sofrer mais do que estaria pronto.
- O que você vê? – Perguntou de modo aflitivo o homem diante do Mal Primordial. – Você vê a minha amada me abandonando? Você acha que ficarei pobre? Eu quero ter sucesso na vida, eu quero que minha amada fique comigo para sempre!
- Sim, tola criança, eu vejo que sua amada vai te deixar, não por não te amar, longe disso, mas por você não a amar como ele merece. – Meneando a cabeça de um lado para o outro enquanto de forma fabulosa equilibrava a coroa rachada o Nobre Caído prosseguia. – Não terás sucesso, pois sua cobiça vai te levar a ruína sempre que você começar a prosperar, e tua amada pode ficar ao seu lado, sim claro que pode, afinal eu posso conceder teu desejo, mas será que valerá a pena?
O homem diante do Mal tremia bastante, e em meio a escuridão ele pôde ouvir zumbidos como se milhares de moscas estivessem por perto. Um cheiro de podridão espalhou-se pelo ambiente e gritos puderam ser ouvidos ao longe. Mesmo assim o homem estava decidido.
- Claro que a amo, se não a amasse não atravessaria os portais do abismo para que ela permanecesse ao meu lado. Claro que isso tem que ser amor, eu não seria feliz sem ela e não quero que ela seja feliz sem mim.
- Você veio ter com um Demônio apenas para conseguir subjugar a vontade de alguém a tua, realmente você acredita que isso é amor? – Disse o demônio olhando para o homem com um olhar que não poderia ser pena, posto que demônios não deveriam sentir tal coisa, mas talvez fosse o mais próximo que os Caídos se aproximariam disto. – Eu sei o que acontecerá adiante e sei que você sofre se o acordo for traçado.
- E se eu não traçar este acordo, o que acontece? – Disse o homem no auge da petulância, mas ainda assim tinha algo de tristonho no olhar.
- Você será abandonado por essa dama, vai sofrer e chorar, penar e lamentar. Será abandonado certamente que será e esta dama será feliz sem você. Ainda assim você encontrará um novo amor, uma nova pessoa para ter em seus braços e vai aprender que é assim que as coisas são. Não se pode forçar alguém a te amar, e você só tem o amor que pode ter no momento que tem como ter. Cada dor que a vida nos impõe, meu caro, vem para o nosso crescimento, e não há dor maior que a dor de um coração partido. – O demônio fez uma pausa, como se lembrasse de algo. – Sofra e aprenda, conserve sua alma e se livre da Danação Eterna.
- Eu não quero um amor melhor, eu não quero ser feliz com outra pessoa, eu quero minha amada. – Disse o homem no auge de sua arrogância.
- Vale tanto assim perder a sua alma por alguém que você não ama? – Perguntou o demônio. – Vocês mortais condenam a si mesmos a danações apenas por essas coisas pequenas. Egoísmo disfarçado de amor, orgulho disfarçado de vitimismo, inveja disfarçada de amizade. Essas são as pequenas coisas que vocês fazem e legam a nós a responsabilidade, no fim os torpes são vocês mesmos.
- Não importa, eu quero mesmo assim! – Disse o homem ignorando por completo as palavras do demônio. – Você pode fazer isso?
- Posso muitas coisas, inclusive fazer com que um alguém fique ao teu lado por uma eternidade. – Disse o demônio com pesar. – Não posso entretanto criar amores verdadeiros. Eu só faço tomar, nunca dou. Eu só tiro, nunca coloco. Eu tirarei todo o amor que sua amada tem por si, tirarei toda a vontade de fazer qualquer outra coisa além de estar contigo e deixarei uma casca vazia e com apenas uma vontade, que é a de ter você ao lado. Nada além disso será deixado, e quero ver o quanto você agüenta, o quanto você agüenta ser o estuprador daquela que diz amar, o quanto você agüenta ter uma boneca no lugar de um humano com vontades e desejos. Sim criança tola, eu te darei o que me pede, mas saiba que uma vez dado, nada poderá fazer com que isso seja desfeito.
- Perfeito então. – O homem riu e estava contente. – Você é o meu salvador, eu não quero que nunca ela me traia, que só tenha olhos para mim e que tudo da vida dela seja eu!
- Ouvi da primeira vez aquilo que desejou. – Disse o demônio.
- Eu quero, contudo uma condição, para encerrar isso. – Disse o homem se achando esperto. – Quero que quando eu canse de ter ela ao meu lado eu possa simplesmente dizer para desfazer e ela irá embora.
- Você quer, em resumo, um brinquedo para brincar e descartar quando quiser. – Disse o demônio analisando o homem. – Você quer que ela seja apenas um brinquedo em suas mãos, é isso?
- Sim, e não quero que ela tenha mais nada, que ela dependa de mim para tudo, quero que perca o dinheiro, que não consiga progredir em lugar algum, que não possa fazer nada sem depender totalmente de mim. – O sorriso de satisfação que exibia o homem ao falar tais coisas era aterrador. – Eu quero que ela não consiga coisa alguma sem mim ou minha permissão.
- Feito. – Disse o demônio. – Se você acredita que vale a pena perder tua alma por um brinquedo, então quem sou eu para negar tal solicitação?
Então o homem estava novamente em seu quarto, com as janelas abertas, moscas saindo do quarto e uma sensação de satisfação. Do outro lado do portal, no lugar escuro, uma criança cega e louca que dizia amar todas as coisas estava diante de um Rei Vidente e São que dizia Odiar todas as coisas. Ela veio para aconselhar o Rei, o Rei estava ali para ouvir os conselhos, e questionar sobre a natureza dos homens e das coisas.
- Não consigo entendê-los, disse com todas as palavras o que aconteceria de ruim a ele se ele persistisse no caminho e ele simplesmente me ignorou. – Disse o demônio com ar cansado.
- Não cabe a você fazer as escolhas dos mortais, Nobre Caído. – Disse a criança a cantar. – Você é apenas algo que faz, um agente. Os humanos é que são os livres para escolher o que desejam e escolher onde querem cair.
- Mas ele não entende que o que ele sente não é amor? – Disse o Rei em aflição.
- Não. Ele não entende. Amor é algo implausível de ser determinado, e por tal razão, não se pode dizer exatamente o que vem a ser. Como um rasgo no nada, não se pode dizer que o nada está rasgado, apenas especular que isso é possível ou não. O amor é assim, e por não saber ao certo, alguém que nunca conheceu outra coisa além do amor por si, não pode dizer se o que sente é ou não amor.
- Na tentativa de obter uma felicidade mútua, os humanos acabam caindo nas armadilhas do egoísmo, não é? Compreendo! – O demônio parecia cansado ao levantar-se do seu trono.
- Sim, Nobre Caído, na tentativa de serem felizes, eles buscam desenfreadamente a infelicidade. Mesmo que não saibam, pois no momento, aquela sensação de felicidade é a única coisa que eles são capazes de compreender.

O Mercador de Sonhos.

O Salão estava escuro, como sempre fora, mas desta vez parecia ainda mais sombrio. O piso de mármore branco, refletia as estátuas e os quadros. O candelabro no centro do salão, com suas luzes apagadas pendia de forma triste, apenas para marcar e selar o abandono do lugar. Triste lugar vazio. No fundo do Salão estava o trono do Grande Rei Feiticeiro. O trono não estava vazio entretanto o Rei Feiticeiro estava lá, quieto, silencioso, como se estivesse morto. Alguém poderia até mesmo dizer que ele estava morto, mas tal coisa não seria possível. Foi quando no Salão do Imortal Rei Feiticeiro entrou um homem com um sorriso bobo no rosto.
- Quem é você? – Disse o Rei um tanto desconfiado. – O que lhe traz nesse lugar de abandono?
- Sou um mercador. – Falou o homem com o sorriso bobo, que vestia uma roupa de cetim branco, e possuía um chapéu vermelho. – Estou aqui para vender coisas, e comprar outras.
- Não vejo mercadorias convosco, então o que trazes ao meu salão? – O Rei Feiticeiro já havia visto mercadores de coisas maravilhosas antes, ele poderia estar vendendo algo mágico, ou um segredo antigo, e essas coisas sempre são boas para se ter.
- Sou um mercador de sonhos. – Disse o Mercador com o seu sorriso deixando de ser bobo para ser algo sinistro. – Troco pequenos sonhos quebrados por devaneios novos em folha. Quero apenas um pedaço de coisas perdidas, e um pouco de dor.
- Minhas dores são importantes para mim, sem elas eu não teria chegado até onde cheguei. – Disse o Imortal. – Eu não tenho nada que seja de seu interesse.
- Acredita mesmo nisto? – Disse o Mercador se aproximando. – E se eu dissesse que os sonhos que entrego são sonhos que se realizam? E se eu dissesse que os sonhos que te trago são sonhos sonhados por pessoas de para além das bordas deste lugar, e que ao você ter para si um desses sonhos, você poderia torná-lo em realidade?
O Rei Feiticeiro sabia do que ele estava falando. Ele era um mercador de desejos. Ele pode entregar um desejo que se fará verdade, um sonho que pode se realizar. O Imortal só poderia pedir por duas coisas, e nenhuma destas ele sabia exatamente como conseguir. Uma dessas coisas seria o segredo para encerrar a sua vida, e a outra seria uma companhia para seguir o árduo caminho junto a ele. Apenas isso interessava o Rei, e ele sabia que o Mercador deveria ter uma destas consigo.
- Que seja, Mercador de Fantasias. Diga o que queres e eu te direi o que quero, se você tiver algo que desejo, poderá levar consigo aquilo que pedires. – Disse o Rei de forma resoluta e rápida.
- Quero apenas a face daquela pequena pessoa que te abandonou, mas que ainda reside em seu coração. Quero nada além do nome da Rainha que você perdeu para o Rei Troll, não desejo coisa alguma além do lugar onde você plantou a Roseira de Rosas eternas. – Disse o Mercador rindo-se mais do que qualquer outra coisa, então fechou. – Em troca te concedo uma companhia duradoura.
O Rei calou-se por um instante. Todas estas coisas eram coisas que ele guardou no seu íntimo. Eram coisas que ele tinha como importantes e insubstituíveis. A Roseira de rosas eternas foi criada pelo feiticeiro para presentear seu primeiro amor. As rosas nunca morreriam enquanto o amor continuasse vivo. As rosas seriam eternas enquanto o amor as alimentasse. Ele nunca chegou a presentear a sua amada. Ela o repudiou e fugiu para longe antes de receber a primeira rosa. Ela correu para longe quando soube que um imortal a amava, e que este imortal era o mesmo que a abandonara por quase quatro mil anos e milhares de reencarnações.
Ele também não poderia esquecer o nome daquela que ele perdeu para o Rei Troll. Pois o nome era tudo o que ele tinha. Uma Brilhante rainha, que o Feiticeiro fez com que o Troll Rei casasse, simplesmente para fazer valer um velho pacto, um antigo tratado. O nome da Rainha que numa língua antiga era o nome de uma flor que honra os que já se foram. Uma flor tão bela quanto a Rainha, que possuía um cheiro que ele sempre lembraria. Não era um perfume doce, ou algo mais acre, era um cheiro que lembrava a imensidão, lembrava o mar e lembrava a tranqüilidade. Um cheiro de uma pessoa amada, que agora estava com o Rei Troll, apenas por que acredita que se ela encontrar-se com o Feiticeiro, este morreria finalmente.
E por último, o rosto de mais uma das que deixaram o pobre Feiticeiro, mas que ainda reside em seu coração. Ele não poderia fazer tal coisa, ele não poderia viver sem lembranças. Afinal, se ele tem que viver para sempre, então ao menos que seja com recordações de tudo o que já viveu. Esta dama brincou com o coração imortal do feiticeiro, e foi para longe, mas o imortal que aprendeu a viver com as sobras de carinho que lhe eram jogadas ao longo das eras, se apegava nos breves momentos de felicidade que ambos viveram. Um momento fugaz por vezes é o bastante para fazer valer um século de dor. Livrar-se disto seria difícil.
- Então, Imortal Rei Feiticeiro, aguardo vossa resposta, pois ao contrário de vossa alteza, a imortalidade não me sorriu e temo que não tenha como passar séculos aqui enquanto o senhor pondera a decisão.
- São coisas importantes. – Disse o Rei finalmente, deixando passar um suspiro de cansaço. – Mas uma Raposa de olhos bonitos uma vez me disse que para começar novas histórias antes eu deveria deixar as antigas passarem. Farei isso. Tome para ti aquilo que pedes, e deixe-me o que prometeu.
O mercador riu, e removeu o chapéu, virou de costas e foi para longe. Sua roupa de cetim agora era negra como a noite, e seu chapéu um capuz. Ele atravessou o salão, enquanto se fundia com as sombras desaparecendo até nada restar. Quando atravessou todo o caminho funesto. Nada restou no salão além das coisas que já estavam lá, e o Rei. O rei riu depois que ele foi para longe. Entendeu o que o Mercador deixara para ele. Ele mesmo. Uma companhia que duraria para sempre, e não seria fácil passar toda a eternidade se odiando, tanto pelas escolhas que fez, quanto pelas coisas que teve de fazer. Sabia que a Rainha que possuía um nome de flor foi para longe por escolha. Que a dama do roseiral decidiu não se ferir com os espinhos que todo amor possui. Sabia que a dama que brincou com seu coração não fez por mal, mas apenas por que não conseguia ver o Rei sem pesar por sobre ela mesma a idéia de que alguém como o Rei nunca admiraria uma pessoa como ela. Sabia que agora que todas essas coisas foram para longe ele poderia começar uma vida nova. Sem alguém que ele chamava de suave veneno, sem alguém que ele chamava de minha criança, sem alguém que ele chamava de minha princesa. Nada disso, e talvez uma vez mais tudo isso, mas isso é algo que ele teria que descobrir com o tempo. Neste Salão agora Negro. 

O Feiticeiro, a Criança e a Palhaça.

Os pés dela tocavam aquela areia fofa e fria. O vento fazia com que pequenos fios de areia dançassem por entre os dedos dos pés descalços daquela menina. Não era dia, tão pouco noite. Tanto um quanto o outro estavam misturados no céu, ali havia noite no dia e dia na noite. O Sol e a Lua estavam abraçados no que deveria ser o centro do céu, e as estrelas podiam ser vistas brincando por sobre um tapete azul celeste. Na terra, entretanto, só havia areia. Areia e nada além de areia, dunas desenhavam aquele ambiente que parecia cada vez mais onírico.
Ela não sabia quanto havia andado, se é que havia andado. Não sabia, pois o tempo não parecia fazer diferença. Tudo parecia parado e movente ao mesmo instante. Foi quando ela percebeu a figura que estava à sua esquerda. Um vulto negro que sempre que ela tentava olhar diretamente esquivava-se e permanecia à esquerda.
- Quem é você? Onde estou? – Perguntou a mulher, que espantou-se ao ouvir a sua própria voz ecoando no vazio do deserto.
- Este é o lugar no qual os sonhos são criados. Assim como também é aqui que os sonhos se realizam. – A fala que a figura sombria proferia vinha sem voz nenhuma, era algo que era apenas sentido no fundo da alma, mas que não poderia ser ouvido por ouvidos humanos.
- Então isto é um sonho? – Perguntou a moça.
- Sim, e não... – Disse a figura funesta. – Este é realmente o reino dos sonhos, e você está certamente dormindo, mas isto não é um sonho é uma conversa e uma declaração.
- Como assim... Você não poderia ter falado comigo noutro lugar? – A confusão era evidente no olhar da mulher.
- Sim e não. – A figura persistiu. – Poderia ter feito isso doutra maneira, mas ai não seria eu, mas outro. Isto, digamos, faz parte do meu show. Vim até aqui, te seqüestrei do teu sonho pois queria falar contigo, mas não queria que soubestes que sou, tão pouco que lembrastes de nossa conversa.
- E o que você quer? – A mulher parecia impaciente. – Fale logo, não tenho tempo para perder com essas enroladas.
- Primeiro, pequena palhaça, eu queria te ouvir cantar uma última vez. – Ao falar isso o rosto da mulher foi tomado por uma maquiagem burlesca e lúgubre. Como se fosse uma palhaça se preparando para um funeral de infinitas pessoas. A areia moldou-se em diversas figuras igualmente sombrias, só que estas poderiam ser focadas, eram humanóides, esquálidos, jogados ao relento e a dor, pessoas que nunca tiveram chance. E uma lágrima furtiva rolou do olho esquerdo da palhaça, como se fosse apenas para finalizar esta doentia maquiagem. – Cante para mim, e para todos os que sofrem...
- Eu vou cantar o que? – Disse a triste palhaça. – Por que você faz isso? Para quê me mostrar todas essas coisas?
- Por que é isso o que faço, faz parte do meu show passar para você essa imagem cruel e profana. – Disse a figura sombria. – Preciso que me odeie, ou que ao menos tenha repulsa a mim. Preciso que fique longe, preciso do fundo da minha alma que esteja longe de mim.
- Por quê? O que te fiz? Eu nem ao menos sei quem é você, como eu poderia ter repulsa por alguém assim? – Disse a palhaça procurando alguma explicação para o que acontecia nos sonhos.
- Porque eu prometi que ficaria longe. – Disse a figura sombria, que agora poderia perceber que possuía olhos vermelhos e brilhantes. – Disse que ficaria longe, e manterei minha promessa a todo custo. De uma forma ou doutra, se não consigo me distanciar, farei que você me tenha ojeriza completa.
A figura então parou e por um instante era como se o próprio inferno estivesse presente. Crueldade e fúria estavam em todos os lugares. As figuras esquálidas se retorceram, e como se fossem feitas de areia, e eram, foram carregadas pelo vento. Só estava ali aquele ser furtivo, que fazia de tudo para não ser encarado.
- Vim de muito longe, mas é tudo o que consigo fazer. – A fala parecia um lamento, uma lamúria sem fim que a alma escuta e o corpo nega. – Trouxe-te aqui com um propósito. Vim fazer uma declaração que nunca poderia fazer enquanto teus olhos estivessem abertos. Não por covardia, ou talvez seja por isso, mas não posso estar diante de ti para isso. Mostrei-te muito de um show que nunca foi meu. Envolvi-te demais em histórias que nunca foram minhas. Apenas por que tive medo de trair meus princípios e meu nome. Renunciei a um sonho apenas por que outro disse que o sonho já era dele.
- Não entendo, do que fala? – Disse a palhaça. – Quem sonhou comigo?
- Alguém que depois de algum tempo simplesmente desistiu. Deixou passar e foi para outro lugar. Alguém que é tão inconstante quanto o tempo e que o nome é tão mutável quanto essas areias. Alguém que você conheceu e desconheceu, alguém que você simplesmente ignorou ao longo da sua vida, mas que reclamou você como o sonho dele. – A voz da figura funesta era de um compasso rápido. – Não tenho o direito de tomar os sonhos dos mortais. Isso não é algo que me cabe, então tive que dar passos para trás e deixar que você fluísse livre e solta.
- Por quê? – Pergunta simples de ser feita, difícil de ser respondida, mas a palhaça demandava isso.
- Porque é isso que sou. Sou imutável à passagem do tempo, mas por causa disto também tenho que me prender a coisas antigas. Não pude te jurar amores fora daqui, não pude falar o quanto você significava a mim enquanto seus olhos estivessem abertos. Nunca poderia te dizer como tua voz me arrebata sempre que canta, nunca poderia dizer que quando me aproximo a única vontade que tenho é a de te tomar em meus braços. Nunca poderei fazer nada disto, e graças ao meu show, mesmo que eu fale, você não mais poderá acreditar. Não mais será possível para você crer nas palavras deste que está ao seu lado, simplesmente por que eu fiz isso a mim mesmo. – Algo tão antigo quanto a tristeza ecoava da voz da figura sombria. – Sinto muito, mas este é o motivo pelo qual você não pode me ver de frente. Nem mesmo em seus sonhos sou permitido, e nem num sonho tu pode realmente me ver.
- Você tomou de mim a possibilidade de escolher não te amar? – Disse a palhaça indignada. – Como pôde ser tão cruel? Como pôde roubar de mim o direito que tenho de escolher amar ou não amar qualquer coisa?
- Faz parte do meu show. – Disse a figura de olhos vermelhos.
- O que você quer que eu faça agora? – A palhaça começava a gritar. – Será que já posso enlouquecer, ou devo apenas achar graça em tua fala?
- Faça como queira, nunca consegui fazer isso da maneira certa mesmo, sempre no fim das contas, todos me odeiam. Estou condenado a viver para sempre neste mundo de solidão e tristeza.
- Condenado apenas por que você mesmo se encerra neste mundo. – Disse a palhaça triste. – Você se jogou neste mundo de livre e espontânea vontade, e ninguém nem mesmo um deus pode obrigar ninguém a fazer coisa alguma.
- Eu te obriguei a me odiar. – Disse a Sombra.
- Não, você me pediu para te odiar, mas nada senti por você, nunca senti e agora tudo o que sinto é pena. Você é triste, sombra de olhos vermelhos, mas eu conheci a solidão muito bem. Sei que é de escolha própria se jogar neste mundo de sombras. Embora as vezes seja deveras atrativo permanecer nele.
A figura sombria com estas palavras começou a esvanecer. A palhaça via o céu sendo separado entre dia e noite novamente, e por fim, viu-se acordada. As luzes entravam pela cortina do quarto dela, o som seco do ar-condicionado era a única coisa que se ouvia para além da própria respiração da palhaça.
No outro lado da cidade. Um feiticeiro olhava para uma taça cheia de vinho. Diante dele, uma criança cega e louca, que dizia amar todas as coisas sorria. Ele se ajeitou na cadeira, olhou para a criança cega, que possuía um olho vermelho e outro azul, e por fim perguntou:
- Gostou do espetáculo?
- Sim, e não. Você escolheu isso para si, tomou para si o direito de viver, e quando se fez vivo, acabou por se legar eternamente a prisão da liberdade. – Disse calmamente a criança. – Você tentou fugir disto, tentou estar para além da mortalidade, mas a dor é inescapável...
- Sim. – Disse o feiticeiro. – Estar vivo é sofrer.
-Não. – Disse a criança. – Estar vivo é escolher. O sofrimento nada mais é do que o peso de todas as vidas a quais você abdicou ao fazer as suas escolhas.
- O que posso fazer agora? - Disse o feiticeiro olhando nervoso para a criança. - Como lido com isso?
- As incertezas do amor, esse calor e essa dor... Faça o que quiser, feiticeiro... a vida é sua, escolha...
- Sim... - Disse o feiticeiro rindo-se.- Talvez apenas para rimar, eu escreva uma furtiva sonata...