quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Anjo Retornando.

Ele então observava perto do leito de sua amada uma doença que consumia o corpo e açoitava a alma. Ainda sem entender o que estava acontecendo, ele que até menos de um ano atrás nem sabia o que eram os sentimentos humanos sentia uma forte dor no peito. Uma dor impossível de ser descrita e que mesmo que se tentasse por mil anos nunca seria capaz de falar tudo aquilo que estava sentindo. Daí ele olhou para a criança cega e louca que cantarolava alguma canção insana ao seu lado e esperou por uma resposta. Ainda atônito por ele, que outrora fora o Anjo responsável pelo Cair das Gotas de Chuva das Manhãs de Outono, e desde o primeiro outono observou a terra e viu os humanos, não conhecer uma resposta que tinha quase certeza que a criança cega misteriosamente sabia. 

- A dor que você sente, meu amigo, é a dor de um coração amargurado pela perda. - Respondeu a criança com um sorriso no rosto - Você sente que ela vai partir e isso faz com que teu pequeno e humano coração se encha de dor e tristeza. 

- Então nunca mais voltarei a encontrar com ela? Ela irá assim, agora que comecei a amá-la? -- Disse o Anjo com dor no olhar e deixando uma lágrima furtiva escorrer pelos seus olhos. 

- Nunca? Não eras tu um anjo? Como poderia não acreditar numa possibilidade de vida para além desta? E mais, mesmo que o corpo se despedace, ela ainda possui uma memória forte e viva no coração de todos os que a amaram. Então, seja feliz, pois agora ela estará num lugar melhor do que este. 

A dama deitada na cama estava magra, pálida, com pele ressequida, apenas uma sombra do que foi um dia. Nada além de pequenos movimentos que o peito fazia ao respirar indicavam vida naquele corpo destroçado. Ela parecia frágil, como se o vento a qualquer embalo maior pudesse dissipá-la, como se um simples toque fosse o suficiente para rachá-la e então quebrá-la. Ela parecia algo que não estava ali, mas estava. Ela parecia o maior medo de todos os humanos, ela parecia mortal, ela parecia humana.

O Anjo só havia começado a ser um ser humano a pouco, então isso o fascinava, o que frustrava em realidade era o fato de perder um amor que ele havia acabado de entender que estava amando. Ela queria viver, ele sabia disto, mas ele não aguentaria, e também compreendia isto. 

- Volte a ser um anjo, e então cure-a. -- Disse a criança com um tom de voz despreocupado, mas como se estivesse lendo a mente do anjo.

- Voltar a ser uma anjo? Isso é impossível, nunca aconteceu, não tem como acontecer! 

- Um pouco de fé, meu caro amigo, um pouco de fé, e tudo é possível. - A criança parecia tranquila. 

- Ela se lembrará de mim? Ela ainda terá a memória dos momentos que vivemos? - Disse o anjo em desespero. 

- Quem pode ver anjos?

- Apenas crianças, cegos e loucos. - Disse o Anjo pensativo. - E mesmo depois que eles nos vêem, ao partirmos somos apenas lembranças de uma presença maior, um sonho bom, uma coisa boa. Ninguém lembra dos anjos, apenas de momentos felizes que viveram ao lado dos mortais que estavam junto. 

- Será a mesma coisa. Você tornar-se-á aquilo que sempre foi, e então será nada além daquilo que é. Ela não se lembrará de você, não saberá o seu nome ou mesmo que um dia você existiu, e assim será com todos os outros humanos. 

- Não quero deixar a vida dela, não quero que a minha lembrança se perca! 

- Então você pretende ser egoísta o suficiente para atar a pobre moça a uma lembrança de alguém que morreu por ela? Que crueldade é a de ligar a vida de alguém ao seu sacrifício. Um egoísmo sem tamanho tornar o outro responsável por um fim que foi você mesmo quem escolheu. 

- Mas eu a amo. - O Anjo não sabia mais o que falar.

- Então por que torturá-la com uma lembrança de algo que ela nem mesmo pediu, ou sabia que poderia pedir? Por que causar uma dor sem tamanho numa pessoa que você diz que ama, apenas para povoar a memória desta pessoa e então fazer com que este alguém esteja eternamente presa a ti? - Apesar das palavras o tom da criança parecia divertido e jovial, como se ela estivesse se divertindo ao ensinar um alguém mais novo algo que ela dominara. - O que poderia você querer mais? Querer que ela te adore e preste homenagens? 

- O que eu devo fazer então, me ilumine! 

- Pergunto-me quem seria mais iluminado que um anjo. 

Então ele entendeu o que a criança quis dizer, ela estava ali e partiria, mas se o anjo quisesse evitar tal coisa, ele simplesmente precisava deixar a humanidade de lado e então transformar-se no anjo dela. Transformar-se no protetor que ela merece ter. Não importa que ela não lembre mais dele, o que importa é o amor que ele sente por ela. Se ele não poderia viver esse amor, então que protegesse a sua amada. Que ele fosse aquilo que tem que ser. Porque no fim das contas amar esta para além de suas próprias vontades, esta em aceitar a felicidade do outro seja como esta vier, mesmo que o outro nem mesmo saiba da existência daquele que o ama. Amar esta para além de si.

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