Ele então observava
perto do leito de sua amada uma doença que consumia o corpo e açoitava a alma.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, ele que até menos de um ano atrás
nem sabia o que eram os sentimentos humanos sentia uma forte dor no peito. Uma
dor impossível de ser descrita e que mesmo que se tentasse por mil anos nunca
seria capaz de falar tudo aquilo que estava sentindo. Daí ele olhou para a criança cega e louca que cantarolava alguma
canção insana ao seu lado e esperou por uma resposta. Ainda atônito por ele,
que outrora fora o Anjo responsável pelo Cair das Gotas de Chuva das Manhãs de
Outono, e desde o primeiro outono observou a terra e viu os humanos, não
conhecer uma resposta que tinha quase certeza que a criança cega
misteriosamente sabia.
- A dor que você sente, meu amigo, é a dor de um
coração amargurado pela perda. - Respondeu a criança com um sorriso no rosto -
Você sente que ela vai partir e isso faz com que teu pequeno e humano coração
se encha de dor e tristeza.
- Então nunca mais voltarei a encontrar com ela?
Ela irá assim, agora que comecei a amá-la? -- Disse o Anjo com dor no olhar e
deixando uma lágrima furtiva escorrer pelos seus olhos.
- Nunca? Não eras tu um anjo? Como poderia não
acreditar numa possibilidade de vida para além desta? E mais, mesmo que o corpo
se despedace, ela ainda possui uma memória forte e viva no coração de todos os
que a amaram. Então, seja feliz, pois agora ela estará num lugar melhor do que
este.
A dama deitada na cama estava magra, pálida, com
pele ressequida, apenas uma sombra do que foi um dia. Nada além de pequenos
movimentos que o peito fazia ao respirar indicavam vida naquele corpo
destroçado. Ela parecia frágil, como se o vento a qualquer embalo maior pudesse
dissipá-la, como se um simples toque fosse o suficiente para rachá-la e então quebrá-la.
Ela parecia algo que não estava ali, mas estava. Ela parecia o maior medo de
todos os humanos, ela parecia mortal, ela parecia humana.
O Anjo só havia começado a ser um ser humano a
pouco, então isso o fascinava, o que frustrava em realidade era o fato de
perder um amor que ele havia acabado de entender que estava amando. Ela queria
viver, ele sabia disto, mas ele não aguentaria, e também compreendia isto.
- Volte a ser um anjo, e então cure-a. -- Disse a
criança com um tom de voz despreocupado, mas como se estivesse lendo a mente do
anjo.
- Voltar a ser uma anjo? Isso é impossível, nunca
aconteceu, não tem como acontecer!
- Um pouco de fé, meu caro amigo, um pouco de fé, e
tudo é possível. - A criança parecia tranquila.
- Ela se lembrará de mim? Ela ainda terá a memória
dos momentos que vivemos? - Disse o anjo em desespero.
- Quem pode ver anjos?
- Apenas crianças, cegos e loucos. - Disse o Anjo
pensativo. - E mesmo depois que eles nos vêem, ao partirmos somos apenas
lembranças de uma presença maior, um sonho bom, uma coisa boa. Ninguém lembra
dos anjos, apenas de momentos felizes que viveram ao lado dos mortais que
estavam junto.
- Será a mesma coisa. Você tornar-se-á aquilo que
sempre foi, e então será nada além daquilo que é. Ela não se lembrará de você,
não saberá o seu nome ou mesmo que um dia você existiu, e assim será com todos
os outros humanos.
- Não quero deixar a vida dela, não quero que a
minha lembrança se perca!
- Então você pretende ser egoísta o suficiente para
atar a pobre moça a uma lembrança de alguém que morreu por ela? Que crueldade é
a de ligar a vida de alguém ao seu sacrifício. Um egoísmo sem tamanho tornar o
outro responsável por um fim que foi você mesmo quem escolheu.
- Mas eu a amo. - O Anjo não sabia mais o que
falar.
- Então por que torturá-la com uma lembrança de
algo que ela nem mesmo pediu, ou sabia que poderia pedir? Por que causar uma
dor sem tamanho numa pessoa que você diz que ama, apenas para povoar a memória
desta pessoa e então fazer com que este alguém esteja eternamente presa a ti? -
Apesar das palavras o tom da criança parecia divertido e jovial, como se ela
estivesse se divertindo ao ensinar um alguém mais novo algo que ela dominara. -
O que poderia você querer mais? Querer que ela te adore e preste homenagens?
- O que eu devo fazer então, me ilumine!
- Pergunto-me quem seria mais iluminado que um
anjo.
Então ele entendeu o que a criança quis dizer, ela
estava ali e partiria, mas se o anjo quisesse evitar tal coisa, ele
simplesmente precisava deixar a humanidade de lado e então transformar-se no
anjo dela. Transformar-se no protetor que ela merece ter. Não importa que ela
não lembre mais dele, o que importa é o amor que ele sente por ela. Se ele não
poderia viver esse amor, então que protegesse a sua amada. Que ele fosse aquilo
que tem que ser. Porque no fim das contas amar esta para além de suas próprias
vontades, esta em aceitar a felicidade do outro seja como esta vier, mesmo que
o outro nem mesmo saiba da existência daquele que o ama. Amar esta para além de
si.
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