quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Abraços

Lá estavam eles, abraçados. Entrelaçados como se forçassem para ser um só. Ele, mais alto e largo, com feições brutas e selvagens. Ela, menor. Não se tinha muito o que dizer da cena, era apenas um casal se abraçando. Diversas vezes isso já fora visto por diversas pessoas. Algo tão banal, por vezes tão trivial que as pessoas esquecem o real significado do abraço. Unir. Apenas os que estão entregues em meio a ele são capazes de ver o verdadeiro sentido do ato, e apenas quando o ato é verdadeiramente feito. Não como os abraços que hoje as pessoas fingem que dão uns nos outros. Um abraço forte, um abraço sincero, um abraço de verdade.
Crac
Ela que estava em meio ao abraço ouviu este som. Como se alguma coisa estivesse sendo encaixada em algo. Como se algo estivesse se movendo dentro dela. Alguma coisa estivesse saindo de onde estava e indo para o lugar certo. Foi neste momento que ela lembrou de algo. Lembrou de um dia que estava só, e que todos viraram as costas para ela, como se ela não existisse, lembrou dos tempos que todos riam dela por ela ser diferente, apenas por ela ser diferente dos demais. Lembrou do tempo que ela não disfarçava que se importava com a zombaria dos outros. Então ela chorou. Chorou lembrando que as pessoas que ela julgava próximas a ela nunca estavam realmente próximas, e chorou ainda mais por que pela primeira vez pôde sentir uma real proximidade de alguém. Pela primeira vez pôde sentir que aquele homem grande e selvagem que a abraçava estava fazendo isso de bom grado, apenas por que gostava dela, e nada mais. Sentiu como se aquele que a abraçava fosse realmente alguém que estivesse perto dela, e ela sentiu calor.
Crac.
Outra vez esse mesmo som. Ela já conseguia discernir que este som estava perto, algo das redondezas, algo que a circundava, mas ainda não sabia ao certo o lado de onde vinha este ruído. Então ela sentiu novamente algo estranho dentro dela. Como se o peso do mundo estivesse sendo removido de suas costas, como se as preocupações pequenas estivessem se extinguindo. Todo o peso estava sendo diminuído, como se alguém estivesse ali para dividir com ela tal fardo. Então ela lembrou de todos os fardos que nunca dividiram com ela. Todo o peso que ninguém nunca compartilhou. Lembrou de quando deixaram o peso de toda uma casa por cima dos frágeis ombros dela, e ela bravamente suportou. Lembrou de como ela foi posta de lado por um homem que fez solenes juras de amor e companhia eternas. Lembrou de como este homem a deixou só e se foi, enquanto ela sustentava todo o peso da vida. Lembrou e chorou. Lembrou e sentiu que aquele que estava abraçando-a oferecia apenas um abraço, mas era sincero, um abraço que não a deixaria e que não se importaria em dividir um pouco mais de peso consigo.
Crac.
Este som parecia algo muito próximo, como se viesse de dentro dela. Como se fosse algo nela que estivesse estalando ao passo que o homem grande e selvagem a abraçava. Não era um abraço esmagador, era apertado, mas era terno. Era algo que parecia que um cobertor numa manhã chuvosa, ou um animal fazendo afagos. Ela sentia esse abraço como sendo algo verdadeiro e sincero, e sentia como se outra coisa estivesse saindo do lugar que estava e indo para outro, como se encaixando. Ela lembrou de todos os amores da vida dela. Lembrou que nenhum realmente valeu a pena, sempre a traída, sempre a que sofre, não importa o quão gentil e amável ela fosse, sempre ela é quem terminava só, e sofria. Sempre ela era quem acabava amargurada num canto escuro e sombrio, remoendo as dores amargas de ser ela mesma. Mais lágrimas escorreram, desta vem poucas, apenas algumas furtivas. Então ela sorriu, pois aquele a quem estava abraçada estava ali para protegê-la do mundo. Ele seria alguém que ela podia acreditar que estava para segurar todo o mundo se este se abatesse contra ela.
Então o som que ela ouviu não foi mais um Crac, mas parecia que diversos pássaros resolveram cantar ao mesmo tempo, uma sinfonia estranhamente desconexa e bela.
- Que som é esse? – Ela finalmente conseguiu perguntar.
- O Som de um coração partido se unindo novamente. – Ele responde de forma displicente.
- Corações partidos não se unem. – Falou ela rapidamente. – Estão partidos e nada pode restaurá-los.
- As vezes, minha dama, tudo o que precisamos é de um abraço apertado para unir todas as partes quebradas dentro de nós.
- Mas só colocar no lugar não adianta, depois de um tempo vai tudo desabar. – Ela retrucava ferozmente.
- Sim, por isso o abraço também precisa ser caloroso, pois só com o calor do abraço que os pedaços quebrados poderiam derreter e se fundir novamente...

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