Ela estava lá. Numa sala vazia, repleta de coisa alguma. Uma total inércia, solidão e, por alguns instantes, paz. A quietude é relaxante. Não havia nada, e ela ainda estava lá. Quando as luzes se apagam, legando ao esquecimento todas as coisas que outrora a iluminação vivificava, ela pode ficar num canto e esperar. Ela espera por algo que ela mesma não sabe o que é, apenas espera, pois é para isso que nasceu. Se todos os seres nascem para morrer, então não seria diferente no caso dela, ela está lá, esperando para morrer novamente.
Ela é como uma visão torpe de um lamento. Sombria o bastante para não sobreviver à luz, e ainda assim estava lá. Onde não há mais nada, ela está. Ninguém sabe porque ela existe, e poucos conseguem nomeá-la, que não após sua morte, e chamam como poderiam chamar um cão morto de cão, mas nunca pelo nome cujo qual ele se reconhece, ou o dono de forma feliz entregou a ele. As pessoas falam um nome para ela que habita o quarto vazio apenas por falta de termo melhor para falar. E ela está lá, esperando. Sozinha, num quarto que não tem ninguém.
As pessoas tendem sempre a evitar o quarto aonde ela reside, sempre tentam, sempre esquivam, mas a fuga só torna ainda mais forte a evidência do quarto vazio. E uma angústia crescente sempre que alguém passa na frente do quarto dela consome tudo em todas as almas. E ela ainda está lá. No quarto vazio.
Quarto este que nem sempre foi vazio, mas antes haviam coisas lá, vida, formas, cor, e felicidade, todavia tão certo quanto o fato que até os deuses serão postos para fora de seus domínios, as coisas que haviam antes no quarto não mais estão lá, tudo foi removido. Amores, sabores, alegrias e fantasias. Tudo. Não há mais nada no quarto vazio. E ela ainda espera neste quarto, que alguém ascenda a luz para findar com tão terrível existência.
No fim das contas, toda Saudade deseja ser morta.
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