sábado, 16 de abril de 2016

A Fada, o Mercador, e as Coisas que Se Quer Esquecer.

O Sol se punha no Leste, era um espetáculo magnífico ver aquela esfera flamejante caindo onde deveria ser o seu nascedouro, mas as coisas são assim em lugares que obedecem poucas leis naturais. Talvez, na verdade, seja assim em lugares que possuem sua própria Natureza. A areia branca por sobre os pés dela não parecia incomodar. Apesar do calor escaldante, a areia parecia ser uma dor que reconfortava. Um momento de tristeza e solidão que trazia a ela pedaços de cruel sanidade naquele mundo onírico.

Escolhemos sofrer para nos mantermos sãos, assim como escolhemos o ódio para nos resguardarmos do amor. Nada disso dá certo. Sofrer em demasia leva a loucura, e o ódio é uma forma de atar perenemente alguém a si. Mesmo assim essas coisas funcionam como paliativos. Funcionam enquanto as coisas definitivas não são feitas. Ela ainda caminhava naquele deserto de areias brancas. Não sabia ao certo quem procurava, mas tinha certeza do que queria. Queria esquecer.

Esquecer por vezes é uma das tarefas mais complexas que alguém pode tomar para si, pois envolve sempre um assassinato e um nascimento. Para que algo seja deixado para trás, alguém tem que morrer e algo deve nascer. Embora raramente saibamos o que deve nascer e sempre acreditamos que sabemos quem devemos matar. Ainda assim ela estava decidida. Ela queria fazer isso, ela queria esquecer.

Um Mercador que passava por aquele deserto avistou-a de longe. Ele havia acabado de fazer um proveitoso acordo com o Rei Feiticeiro que habitava um Castelo naquele Deserto, e queria outro negócio, pois é isso que mercadores fazem, negociam coisas com as pessoas. Ele se aproximou sorrateiro como uma serpente e a moça mal pôde reagir quando o ofídico homem chegou. Ele a olhou de cima a baixo e sorriu. Sabia que ela buscava algo, pois apenas aqueles que buscam coisas chegam naquele Deserto.

- O que desejas, pequena Dama? – Perguntou com sorriso cruel e olhar nefando o Mercador. – Posso ofertar diversas coisas, desde sonhos engarrafados, até amores despedaçados.

A moça observou com espanto o homem que oferecia tanto, e parecia possuir tanta confiança que chegava realmente a convencer que ele tinha mesmo aquilo que se propunha a vender. Sonhos e amores, nada exatamente físico, mas naquele lugar isso poderia até mesmo ser tocado. A moça, entretanto não parecia se impressionar com o que o homem viajante oferecia, ela queria ver para além das palavras, queria tocar naquilo que foi prometido, e para além disso, ela não queria sonhos, queria esquecer.
-Desejo esquecer alguém que um dia me feriu muito. – A moça parecia decidida ao falar, mas vacilava no coração. – Desejo que eu não lembre nunca que um dia eu possa ter conhecido essa pessoa.

O Mercador sorriu, e isso poderia ser feito. Ele tomaria duas coisas e não precisaria deixar nada. Negócios como este raramente são encontrados. Então o Mercador não titubeou quando aceitou.
- Claro que posso fazer isso, por um preço, é claro. – O Sorriso no Rosto dele era diabólico. – Eu quero as cores do seu mundo, e em troca levo essa memória comigo.

A moça não pensou duas vezes, deixou com o Mercador as cores do mundo dela, assim como a lembrança daquele que a feriu... Mesmo assim algo permanecia estranho na moça. Algo estava diferente, mas ainda o mesmo. Algo a perturbava e ela nem sabia o que era ao certo. Dito isto a moça voltou a caminhar pelo deserto. Deixou para trás o mercador, e seguiu caminho para achar algo. Achar uma coisa que ela mesma havia esquecido, e o caminho agora era ainda mais confuso, pois tudo estava preto e branco.

Passaram-se dias, talvez anos, séculos, ou alguns minutos, era complicado definir isso naquele lugar. Difícil definir para onde iria. Mais difícil ainda procurar o que havia esquecido que buscava, mas que se sentia precisar encontrar. Ela apenas vagou pelo lugar. Quando não se podia ver as cores do mundo, o Sol Que Se Põe No Leste perde toda a sua mística, as areias brancas tornam-se indistintas, e o caminho árduo pelo calor fica cansativo pela mesmice. Ainda assim ela não desiste. Caminha até chegar num Oásis em meio ao Deserto.

Um pouso, um lugar para descansar, isso era aquilo que ela precisava, precisava mais que outras coisas, mais até do que encontrar aquilo que ela não fazia idéia do que procurava. A pequena Dama olhou seu reflexo na poça d’água que ali estava e não pôde evitar de sussurrar para si, ou talvez para alguma lembrança esquecida:
- Pequena e Feia.
- Sim, como as fadas devem ser. – Disse uma voz que vinha de algum lugar escuro no meio do Oásis.
- Obrigada por concordar comigo, mas não acho que precise de mais pessoas para me porem para baixo.
- Não, certamente não precisa, mas farei mesmo assim. – Disse a voz que vinha do lugar escuro. – Talvez eu deva torturar um pouco mais, apenas pelo prazer de torturar, ou apenas porque dessa forma você sairá desse meu Oásis.
- Por que quer tanto assim que eu saia? Apenas estou cansada, e estou procurando alguma coisa.
- O que seria tal coisa? Conheço todas as coisas neste Deserto.
- Não sei... Esqueci...

Por um instante a pequena Fada se encheu de tristeza, e tudo que era Cinza ficou ainda mais escuro, como se toda a luz também estivesse sendo retirada dela...  Lágrimas caíram, talvez fosse a primeira vez que a Fada derramou lágrimas naquele lugar, e não sabia o que isso significava, mas continuou derramando e repetiu as palavras que repetia para si mesma quase que de forma constante:
- Pequena e Feia, como as Fadas devem ser.
- Devem ser apenas para aqueles que não conseguem ver a luz delas. – A Voz que Vinha do Lugar Sombrio disse rapidamente.

A Fada não pôde evitar se surpreender com aquilo, não era comum as vozes sombrias serem gentis, mesmo num lugar onde o Sol se Põe no Leste, estas coisas costumam ser tidas como certas. A Voz ainda assim falou dessa forma.

- Você está tão perdida que lega às sombras uma gentileza que elas não possuem. – Disse a Voz. – Você está tão perdida que quer atar em qualquer um aquilo que guarda no peito apenas para manter vivas por mais algum tempo as chamas que outrora te incendiaram.

A pequena Fada sentiu um Aperto no Peito. Algo estava dentro dela, e ela não sabia o que era, não sabia o que estava fazendo ali, mas sabia que estava, e se revolvia e doía bastante. Doía como se fosse o próprio Inferno querendo abrir passagem através do peito.

- O que é isso?
- São os sentimentos buscando alguma coisa para se prenderem.
- Sentimentos?
- Sim, você tirou uma imagem, mas não matou a pessoa dentro de você, e quando não se mata a pessoa, os sentimentos ficam confusos...
- Eu só queria esquecê-lo...  – Ao falar isso as lembranças daquele que Feriu a Fada voltaram todas à mente, e voltaram com força total. – Por quê eu não consigo?
- Isso é simples de se responder, porque você não pode simplesmente pegar um pedaço da sua própria história e jogá-la ao vento.
- Não era tão forte antes...
- Não, não era, mas agora há todo o afeto daquela figura que você perdeu, somado a todo o afeto da figura que você idealiza em si.
- Como acabar com isso?
- Mate-o...  Mate um pedaço da lembrança e do afeto dele que habita em você. A lembrança sempre estará viva, mas o afeto não precisa estar. Você nunca pode matar alguém por completo, apenas por pedaços, a idéia da pessoa é imortal, mas aquilo que essa idéia significa para você pode ser minguado até à Insignificância.
- Só Isso?
- Claro que não, depois de matar esse afeto, você deve fazer a parte mais difícil, deixar nascer algo em você... Algo que deve te preencher e te mover, algo que deve ser importante o bastante para que você consiga dar um passo adiante e erguer a cabeça.

A Fada respirou fundo. Na primeira vez que ela puxou o ar para seus pulmões, ela pôde sentir dentro dela uma navalha que retalhava aquilo que ela sentia. Um corte fino, afiado, impreciso. Deixando restos vivos onde ela não queria, e mortos onde ela não esperava.
- Malditos olhos que permanecem vivos. – Ela falou enquanto ainda puxava ar e mantinha os olhos fechados.

Então ela soltou o ar, e quanto mais soltava mais via as coisas se afastando dela e saindo dela, mais via as coisas do mundo e suas cores. A primeira cor que ela lembra de ver foi a vermelha. A cor do Sangue e da Paixão. Coisas próximas, agora que a raiva já estava fora dela, ela poderia deixar algo nascer nela, embora não soubesse o que é, essa é a beleza da vida e dos nascimentos, nunca se sabe exatamente o que é até que a coisa nasça de vez. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Todas as Histórias Merecem ser Contadas.

O Trono de Diamante de Sangue estava vazio. As paredes da Sala do Trono estavam tão polidas que qualquer um que adentrasse poderia ver seu reflexo naquele espelho negro. Não há janelas naquele castelo, e apenas podia-se entrar pela porta da frente. Toda aquela grandiosidade abandonada ao tempo e ao vento. O Castelo quando vazio parecia ainda mais lúgubre, seus desenhos sombrios lembravam coisas que todos querem esquecer, e buscam lembrar. O Rei estava ausente. Havia partido numa jornada para se entender. As paredes do castelo, apesar de serem de um cristal negro extremamente polido não conseguiam refletir o monarca quando esse adentrou os salões reais.

O Rei adentrou em grande velocidade no seu salão principal, era tão rápido que nem parecia que ele tinha ao menos saído de lá, a velocidade dos sonhos, como alguns dizem, chega a ser mais rápida que o pensamento. Num instante o Rei estava lá novamente, como se nunca tivesse saído. Ornado com sua coroa negra, e com seus olhos fixos na entrada do Salão. As paredes do salão ainda estavam captando a passagem do Rei, como um movimento em câmera lenta. Passo a passo, e o Rei podia admirar seu trajeto pelo salão através do reflexo das paredes.  Aquelas paredes refletem muito mais que apenas as imagens dos objetos, elas refletem almas e lembranças. Sonhos partidos, e memórias esquecidas.  Contemplar a si mesmo através dos reflexos da parede as vezes era a única forma de se entender, mas o Rei não tinha tempo para tal, ele precisava ser um Rei, e atender os súditos que chegam ao castelo.

Um pequeno homem de olhos avermelhados de tanto choro andava por sobre o tapete rubro que levava até o trono do Rei Feiticeiro. Ele entrava de cabeça baixa, e era tímido. Um ar de sombras tomava o ambiente, ele usava esse aspecto de solidão como se fosse um manto. O que no castelo do Rei isso se tornava real. O pequeno homem de olhos vermelhos e usando um manto de solidão se prostrou diante do Rei e disse depois de uma longa pausa:

- Vós que sois o Rei que tudo pode, em nome do tempo e do vento, atenda o meu humilde pedido se for de vossa vontade. – O pequeno homem falava quase como se estivesse chorando.

- Fale.

- Eu quero pertencer a algum mundo. – Disse o homem erguendo a cabeça para encontrar os olhos do Rei, um azul e outro vermelho.  – Quero por fim a essa maldita solidão que me assola por não fazer parte de mundo algum.

Pertencer à algum lugar era algo importante para as pessoas, e todas sempre queriam fazer parte de algo, todas as pessoas sempre querem ser amadas, e todas sempre querem que alguém diga que elas pertencem a um lugar ou outro. Aquele homem estava lá, só, mas ele simplesmente ignorava que a natureza da humanidade é essa, a solidão partilhada. Todos possuem seus próprios mundos particulares, e ninguém pode ansiar por entrar no mundo de ninguém. Nunca poderia ser feito tal coisa.

- Sinto muito por sua solidão, mas ainda não tenho um motivo para fazer com que você pertença a qualquer mundo que não o teu. – Disse o Rei, que poderia burlar as Leis da Natureza dos humanos naquele lugar de sonho e fantasia.

- Pois lhe contarei minha história, meu caro Rei, e após ela, decida-se se vale ou não a pena fazer com que eu me integre a algo, se vale ou não a pena me por em outro mundo, me fazer parte de mais algum mundo além do meu.

- Prossiga, conte a sua história. – O Rei se aborrecia facilmente com aquele homenzinho lento e de fala floreada. Mesmo assim era o dever dele ouvi-lo.

- Um dia, meu Rei, eu amei alguém. – Começou o homenzinho. – Não que todos não já tenham amado alguém, ou irão amar alguém, mas eu amei. Amei com todas as ínfimas forças de meu ser, amei como poucas coisas poderiam amar. E não fui retribuído. Pois àquela que eu amei dizia que éramos de mundos diferentes.

- Certa vez, pequeno homem, eu amei a Morte. – Começou o Rei. – E ela era o fim de todas as coisas, roubou-me de mim mesmo, e levou para nunca mais devolver algo que nem sei mais o que foi. Ela disse que pertencíamos a mundos distintos. Eu era Sonho, e ela Realidade. Não podíamos nos tocar, e não nos tocamos. E assim ela seguiu com os afazeres dela e eu os meus. – O Rei em meio a um suspiro terminou. – Sua história é comum, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu caro Rei, tempos depois eu abdiquei de um grande amor apenas para fazer as vontades de uma pequena amiga que me virou as costas quando precisei.

- Após a morte, eu tornei-me escravo de uma mortal que me usou por anos como um brinquedo, tomando tudo o que era meu, do início ao fim. E quando certa vez amei alguém, tal mortal simplesmente fez-me distanciar e ferir essa amada para que ela pudesse tentar algo... Sua história é como a de tantos outros, homenzinho.

- Ainda não acabou, meu Rei, num dada época de minha vida, amei uma mulher que viajava e falava bem, alguém que estava tão perto que por um momento acreditei que poderia ter achado um lugar no qual pertencia, mas o mundo dela era um mundo peregrino, e o meu um mundo de pobre alma presa num lugar.

- Outra história comum, pois eu mesmo conheci alguém que eu fui amaldiçoado a esperar que percorresse mil vezes mil caminhos distintos para que eu pudesse ter o tempo de apenas ver uma única flor desabrochar perto dela, para que então ela voltasse a sumir na neblina e viajar mais mil vezes por mil caminhos.

O homem começou a desesperar, a tremer, a soluçar.Todas as histórias que ele contava para o Rei pareciam tão pequenas, e ele as via tão grandiosas, e o Rei apenas fazia pouco delas. Como se seus sentimentos não valessem a pena. Como se ele não valesse nada. Triste ele estava, mas mais ainda indignado por ter suas histórias e seus sentimentos tão ignorados por aquele cruel Rei. Ele então ficou de pé prosseguiu de forma altiva:

- Eu sou um poeta que pediu para a própria morte ensinar-me a amar. – Uma lágrima furtiva começou a nascer nos olhos do homem. – Então no desespero me fiz escravo de uma mortal para que minha existência que não sabia amar fizesse sentido. Disse que era livre para uma pessoa que tentou fazer com que eu acreditasse em mim mesmo. Vivi como pude nas sombras de pessoas que achei ter amado, simplesmente por não saber mais como é sentir-me amado. Busquei emoções numa princesa de terras distantes. Fiquei envolvido numa ilusão que eu mesmo criei e a chamei de diversos nomes enquanto ela simplesmente temeu por não ser aquilo que eu sonhei, e eu a envolvi em tudo aquilo que não era ela. Sou um farsante que mentiu para alguém que fingiu me amar.

O Rei se empertigou no seu trono e observou o homem falar, ele parecia surpreso pelas falas agora. Talvez uma história interessante pudesse surgir disto, afinal.

- Vossa Majestade fala que todas as minhas histórias são comuns, mas não há uma só história que não seja comum e especial ao mesmo tempo. Não há uma só pessoa que não seja o centro de sua própria história e não a veja com olhos diferentes dos demais. – O Homem agora parecia irritado com o Rei. – Cada pessoa é tecelã de seu próprio sonho e de sua própria vida. Todas as histórias são igualmente comuns e fantásticas. Tudo o que basta é o ponto de vista, a forma de como olhar para estas histórias.

O Rei estava ouvindo estas palavras e sentiu que estava sendo desafiado, que alguém em seus salões questionava sua autoridade e sabedoria magnânima. Ele não estava para isso e resolveu falar, mas antes que pudesse proferir uma só palavra foi interrompido pelo homem:

- Não há uma só história que não mereça ser ouvida. E não há um só desejo que não mereça atenção.  Todas as histórias são dignas e se adequadamente pintadas por um artista experiente, todas as histórias dariam belos quadros. Minha história é trivial, como a tantos homens que amaram. Meu nome é comum como a grama que cresce em qualquer jardim. Minha vida é como a de qualquer outro. Mas para mim, ela é tudo o que tenho. E eu serei ouvido.

Enquanto falava isso, o homem começava a sentar num trono de Diamante Sanguíneo que surgiu atrás dele, enquanto se acomodava no trono, suas roupas foram ficando negras como a noite, e uma coroa surgiu em sua cabeça. Enquanto olhava para frente, tudo o que o homem via eram as portas da Sala do Trono, com suas paredes lustradas e seu tapete vermelho.


- Todas as histórias merecem ser contadas e ouvidas. 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Conversa do Rei Feiticeiro e o Pescador de Ilusões.

As areias eram negras na margem daquele Rio. O céu também, escuro, com nuvens cinza de uma eterna tempestade vindoura. A água era branca, e brilhava. Era o contraste daquele lugar desolado, sem aparente vida. Não havia vegetação, ou animais por perto. Nem mesmo um único mosquito para incomodar algum transeunte fortuito, mas também não havia transeuntes. Havia apenas ele, o pescador.

O Pescador estava tranqüilo naquelas margens sombrias. Não tinha certeza do tempo que passou ali, mas sabia que estava lá para pegar algumas coisas do Rio. Ele jogava sua linha e esperava, as vezes ficava por horas, dias, anos esperando, até que apanhava algo. Ele calmamente puxava a linha de volta, pegava o que tinha que pegar e jogava novamente a linha. Talvez seja desnecessário dizer que não existem peixes num Rio branco e fluorescente que tem como margem praias de areia negra, mas digo que não eram peixes que ele pescava, eram desejos e ilusões.  Ele usava essa pequena linha feita de alma para que os desejos se fixassem nela. Quando queria ilusões, ele jogava uma corda feita de esperança. Desejos perdidos procuram restos de almas para se agarrar, e ilusões se fixam bem na esperança.

Foi enquanto estava prestes a pegar mais um Desejo que o Pescador viu um homem em vestes tão negras que se destacava do ambiente. Era como se fosse uma sombra que absorvesse toda a luz que havia na escuridão e nada deixasse. As vestes deste homem eram de uma costura invejável, como se fossem as próprias Sombras envolvendo-o. Sua cabeça era encimada com uma coroa de diamante-sangue. Um diamante raro que normalmente não é visto em lugar nenhum do mundo que não seja em campos celestes. O pescador suspirou, e em meio ao suspiro falou:

- O que o Nobre Rei Feiticeiro faz tão longe de seus escuros domínios?

- Apenas divagando...  – Disse o Rei Feiticeiro ao se aproximar do pescador. – E minhas divagações me trouxeram até esta margem que não há como cruzar.

- Sempre há um barqueiro.

- Não há barcos para idéias. Elas são persistentes, insistem em existir na cabeça de diversas pessoas e isto as mantém.

O Rei parecia um tanto interessado naquilo que o Pescador estava pescando. Ele sabia que naquele Rio não havia peixes. Não poderia haver. Também sabia que ali era um lugar que era de acesso muito difícil, ir até ali deveria ter um motivo importante, e o que quer que se esteja pescando ali, deve ser algo interessante.

- Diga-me, pescador, o que você pega com essa linha tão fina.

- Esta, Rei, é uma linha de alma, serve para pegar Desejos.

- Desejos?

- Sim, desejos legados ao esquecimento. – O Pescador parecia ter um olhar distante enquanto falava isso. – Desejos que ficam impedidos de serem satisfeitos pela vida. Eles acabam por serem trazidos para cá.

O Rei pensou por um instante. Alguns desejos suficientemente poderosos podem criar deuses, como algo tão magnífico pode acabar aqui? Como um desejo pode acabar parando num lugar de esquecimento? O pescador observando o olhar pensativo do Rei meio que adivinhou o que ele pensava. Então respondeu:

- Nobre Rei, a Majestade não conhece as limitações da vida humana. – Em meio a um suspiro o Pescador prosseguiu. – Os humanos devem fazer o que têm que fazer, e as vezes isso quer dizer que eles devem abdicar de seus desejos. Chamamos isso de Realidade.

O Rei era de um mundo de Sonho. Aquilo de Realidade era novidade para ele, pois nunca ele pensou que algo pudesse não ser Real.  O Pescador ali diante dele não era distinguível de qualquer sonho que ele já teve, e isso para ele era o que era, e não havia diferença entre os mundos.

- E há uma diferença entre aquilo que você julga ser real, e aquilo que não?

- Sim, há! Aquilo que é da Realidade, é a rotina e convivência. Ela tolhe muitos sonhos e desejos, e deixa apenas algumas parcas possibilidades. Todos podem viver através disso, é claro, mas apenas dessa maneira.

- E sua liberdade para escolher é legada simplesmente ao fato de escolher ir para esse caminho que o convívio lhe impõe, ao contrário daquilo que os seus anseios lhe guiam?

- Nem sempre é ao contrário, Nobre Rei, mas sempre é algo que limita mais do que dá liberdade. Ao contrário de Vossa Majestade, nós não fazemos as leis, apenas nos submetemos a elas.

- E no processo perdem grande parte da liberdade. O que ganham com isso.

- Tudo.

- Tudo?

- Sim, estar preso é ansiar fugir da prisão, e com o anseio há desejo, e com o desejo há mudança. Sem a prisão não haveria desejos.

O Rei refletiu sobre tal afirmação. Ser preso tolhe, e liberta ao mesmo tempo. Ser um escravo das próprias normas é a única forma de ser livre.

-  Ainda assim qual é o real custo desta liberdade?

- O Medo. – O Pescador apenas olhava para o Rio. – O medo de falhar, de não conseguir ir adiante, o medo de ser menos do que aquilo que se espera. O Medo é o preço a ser pago. Principalmente o medo de sofrer.

- E como vocês fazem para não ficarem presos no medo.

- Criamos Ilusões.  Fantasias que sustentam nossas realidades frágeis, e afugentam nossos medos.  Ao criar ilusões, nós forjamos fantasias para os fantasmas que tememos, e vestimo-los com tais roupas. As fantasias são presas de forma muito precária, entretanto, e as vezes ela não se sustenta por muito tempo. Então temos que forjar uma nova fantasia, uma nova forma de ver alguma coisa que não é em algo que é.

- Se são tão necessárias assim, como tantas acabam aqui?

- Ás vezes elas não são o bastante, outras vezes nos rasgam muito então resolvemos jogá-las para cá.

- Machucam? A intenção não era que a fantasia fizesse com que o medo sumisse, ou ficasse mais agradável?

- Tente imaginar então o que aconteceria conosco sem ela... – O pescador puxava a linha de prata feita de esperanças de volta, nela algo iridescente se contorcia, uma ilusão perfeita. – Sem essas coisas, os nossos medos simplesmente acabariam conosco. Precisamos delas. Precisamos destas coisas para que todos sonhem com dias melhores, sem que os pesadelos apareçam para nos lembrar que os dias sempre são os mesmos e quem deve mudar somos nós.

- E não seria mais fácil vocês mudarem por si só, no lugar de depender das fantasias?

- Dói muito o esforço de tentar mudar por si. Uma dor que rasga os ossos e quebra a pele.  Tamanha é a dor que uma pessoa sente ao começar a tocar os seus medos que ela acaba por acreditar que vai se despedaçar. O mundo é um lugar hostil, e imaginar que ele pode ser bom é uma forma de não termos medo dele.

- Por mais que o mundo não seja bom ou ruim, o mundo é apenas o mundo, não há valores nele, há 
nos humanos, mas o mundo é apenas isso, o mundo.

- Essa é outra característica dos humanos, eles dão a todas as coisas as suas características. Tudo é um pouco humano sob os olhos dos humanos, pois eles impregnam todas as coisas com suas ilusões, e essas ilusões, transformam um pouco essas coisas.

- Como se o observador fizesse com que aquilo que está sendo observado mude pela simples intencionalidade da observação causal...  Quer dizer que apenas....

- Sim, apenas pelo fato de você está diante de mim, Vossa Alteza, algo em você é meu, e você é mais parecido comigo. Tornando-se um pouco de mim a medida que eu me torno um pouco de você, e assim todas as coisas são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

- Compreendo, e agradeço.


Ao terminar estas palavras o Rei deixou aquelas praias desertas, e nada mais podia ser visto lá. Nada salvo uma linha prateada feita de esperança, e uma linha branca feita de alma, um pequeno balde com algumas ilusões e uns desejos pequenos, apenas isso e nada mais. O Rei teria muito o que pensar até chegar em seu castelo, embora nunca tivesse saído de lá, e agora ele  entendia o que chamavam de ilusão. A Ilusão, o Sonho, o Delírio, a Fantasia... Tudo não passa de pontos de vistas de uma realidade.