O Conto do Senhor dos Lobos e da Rainha dos Pumas. Parte 1.
Nos tempos antigos, quando os animais ainda passavam sua sabedoria aos homens, e estes não eram arrogantes para ignorar a sabedoria dos animais. Havia um Senhor dos Lobos, o Lobo Rei, que tomava conta de todos de sua alcateia, que protegia todos os que estavam em seus domínios, que reinava calmo e pacífico. Para além dos domínios do Lobo vivia os Pumas, leões do montanha, com uma Rainha para comada-los. Ela era bela como o verão, poderosa como a tempestade, temível como o inverno, afável como a primavera e cruel como o outono. Ela era tudo isto, pois ela podia ser tudo isto.
Desde o inicio dos tempos, os Pumas e os Lobos travaram combates por território, as vezes os lobos venciam, as vezes os pumas, e assim uma terrível guerra era travada entre os dois povos... Então para parar com esta insensatez o Senhor dos Lobos propôs conversar com a Rainha dos Pumas, assim eles chegariam num consenso e todos ficariam felizes. O Senhor dos Lobos era mais velho e experiente, a Rainha jovem e ousada, o debate não teria fim, nunca chegariam num consenso... Nunca...
Mas a Rainha dos Pumas lembrou ao Senhor dos Lobos que nunca é pouco tempo e tempo demais, um tempo indeterminado e que as coisas poderiam se encerrar neste instante, ou talvez depois de muito tempo. O Senhor dos Lobos estava cansado para tamanha discussão, e resolveu prorrogar para outro momento a fatídica reunião. O Destino dos Lobos e Pumas estavam nas mãos deles, e uma inimizade de tanto tempo poderia por fim as duas raças se o acordo não fosse bem trabalhado.
E muitas reuniões foram marcadas, com os Corvos para mediar, e uma Gralha para infernizar, as assembleias terminavam sempre num impasse... Sempre um fazia um movimento que fazia o outro recuar e então pedir para um encontro subsequente. Todas as vezes isto acontecia, sempre se repetia. A cada mudança de lua pois era assim que os que eram antigos entendiam o passar do tempo, o Lobo e a Puma se encontravam, discutiam e conversavam, e então retornavam.
Com o passar do tempo, o Lobo Soberano começou a gostar dos encontros, da presença da Majestade Felina e temeu. Temeu não mais encontrá-la, pois suas raças, inimigas por gerações, não teriam motivos para se cruzarem nunca mais, afinal era para isto que o tal acordo estava sendo firmado. Então o Lobo teve que ser cada vez mais habilidoso, pois, talvez, a convivência fez com que a Rainha dos Pumas agir de modo cada vez mais arrojado, com argumentos cada vez mais difíceis de se vencer, e o Senhor dos Lobos gostava disto.
O que o Lobo Governante não sabia era que a Puma Rainha ao passar do tempo começou a apreciar também a companhia do Lobo, e isto, que era impensável, começou a fazer parte de um dia a dia para ela, e ela sentia falta, e esperava até que a lua fosse mudar novamente para que eles pudessem novamente debater, novamente se ver. Foi ai que a Rainha temeu, temeu que o Lobo vencesse e ela nuca mais pudesse falar com ele, pois não haveria motivos para isto depois, e então teve que ser mais habilidosa e experiente, pois o Senhor dos Lobos se mostrava a cada dia mais arrojado e sagaz, cada vez mais o Lobo estava ficando mais difícil de se vencer.
A Gralha enquanto isto, tentava manipular um e outro, pois é isto que as gralhas fazem, contam bravatas e fazem pilherias. Esta Gralha de olhos castanhos fez tudo o que estava ao seu alcance para sempre estar presente aos debates dos Nobres Animais, sempre estar próxima com gorjeios altos e atitudes mansas. A Gralha então tinha um plano, mas um plano de Gralha não pode ser feito por Gralhas, mas por um Nobre, e então começou aquilo que pretendia. Esta Gralha pretendia muito, pretendia fazer um ninho dentro dos domínios da Puma, mas para isto, a Puma antes precisava ser domada, a Puma precisava ser derrotada, e a Gralha via apenas no Lobo Soberano um alguém que pudesse derrotar a Puma para que então a Gralha pudesse fazer aquilo que ela mais sabe, que é entrar de fininho, quando todos estão fracos e só ai criar morada.
Pobre Gralha, o Senhor dos Lobos já conhecia este truque e a Rainha já imaginava este movimento. Pobre Gralha que tomou para si a atenção dos Animais Nobres, Pobre Gralha que acreditou poder morar sem permissão na Toca da Puma, Pobre Gralha que achou que uma Rainha Pudesse ser Derrotada, Aprisionada e Domada. Pobre, pobre Gralha.