sábado, 16 de abril de 2016

A Fada, o Mercador, e as Coisas que Se Quer Esquecer.

O Sol se punha no Leste, era um espetáculo magnífico ver aquela esfera flamejante caindo onde deveria ser o seu nascedouro, mas as coisas são assim em lugares que obedecem poucas leis naturais. Talvez, na verdade, seja assim em lugares que possuem sua própria Natureza. A areia branca por sobre os pés dela não parecia incomodar. Apesar do calor escaldante, a areia parecia ser uma dor que reconfortava. Um momento de tristeza e solidão que trazia a ela pedaços de cruel sanidade naquele mundo onírico.

Escolhemos sofrer para nos mantermos sãos, assim como escolhemos o ódio para nos resguardarmos do amor. Nada disso dá certo. Sofrer em demasia leva a loucura, e o ódio é uma forma de atar perenemente alguém a si. Mesmo assim essas coisas funcionam como paliativos. Funcionam enquanto as coisas definitivas não são feitas. Ela ainda caminhava naquele deserto de areias brancas. Não sabia ao certo quem procurava, mas tinha certeza do que queria. Queria esquecer.

Esquecer por vezes é uma das tarefas mais complexas que alguém pode tomar para si, pois envolve sempre um assassinato e um nascimento. Para que algo seja deixado para trás, alguém tem que morrer e algo deve nascer. Embora raramente saibamos o que deve nascer e sempre acreditamos que sabemos quem devemos matar. Ainda assim ela estava decidida. Ela queria fazer isso, ela queria esquecer.

Um Mercador que passava por aquele deserto avistou-a de longe. Ele havia acabado de fazer um proveitoso acordo com o Rei Feiticeiro que habitava um Castelo naquele Deserto, e queria outro negócio, pois é isso que mercadores fazem, negociam coisas com as pessoas. Ele se aproximou sorrateiro como uma serpente e a moça mal pôde reagir quando o ofídico homem chegou. Ele a olhou de cima a baixo e sorriu. Sabia que ela buscava algo, pois apenas aqueles que buscam coisas chegam naquele Deserto.

- O que desejas, pequena Dama? – Perguntou com sorriso cruel e olhar nefando o Mercador. – Posso ofertar diversas coisas, desde sonhos engarrafados, até amores despedaçados.

A moça observou com espanto o homem que oferecia tanto, e parecia possuir tanta confiança que chegava realmente a convencer que ele tinha mesmo aquilo que se propunha a vender. Sonhos e amores, nada exatamente físico, mas naquele lugar isso poderia até mesmo ser tocado. A moça, entretanto não parecia se impressionar com o que o homem viajante oferecia, ela queria ver para além das palavras, queria tocar naquilo que foi prometido, e para além disso, ela não queria sonhos, queria esquecer.
-Desejo esquecer alguém que um dia me feriu muito. – A moça parecia decidida ao falar, mas vacilava no coração. – Desejo que eu não lembre nunca que um dia eu possa ter conhecido essa pessoa.

O Mercador sorriu, e isso poderia ser feito. Ele tomaria duas coisas e não precisaria deixar nada. Negócios como este raramente são encontrados. Então o Mercador não titubeou quando aceitou.
- Claro que posso fazer isso, por um preço, é claro. – O Sorriso no Rosto dele era diabólico. – Eu quero as cores do seu mundo, e em troca levo essa memória comigo.

A moça não pensou duas vezes, deixou com o Mercador as cores do mundo dela, assim como a lembrança daquele que a feriu... Mesmo assim algo permanecia estranho na moça. Algo estava diferente, mas ainda o mesmo. Algo a perturbava e ela nem sabia o que era ao certo. Dito isto a moça voltou a caminhar pelo deserto. Deixou para trás o mercador, e seguiu caminho para achar algo. Achar uma coisa que ela mesma havia esquecido, e o caminho agora era ainda mais confuso, pois tudo estava preto e branco.

Passaram-se dias, talvez anos, séculos, ou alguns minutos, era complicado definir isso naquele lugar. Difícil definir para onde iria. Mais difícil ainda procurar o que havia esquecido que buscava, mas que se sentia precisar encontrar. Ela apenas vagou pelo lugar. Quando não se podia ver as cores do mundo, o Sol Que Se Põe No Leste perde toda a sua mística, as areias brancas tornam-se indistintas, e o caminho árduo pelo calor fica cansativo pela mesmice. Ainda assim ela não desiste. Caminha até chegar num Oásis em meio ao Deserto.

Um pouso, um lugar para descansar, isso era aquilo que ela precisava, precisava mais que outras coisas, mais até do que encontrar aquilo que ela não fazia idéia do que procurava. A pequena Dama olhou seu reflexo na poça d’água que ali estava e não pôde evitar de sussurrar para si, ou talvez para alguma lembrança esquecida:
- Pequena e Feia.
- Sim, como as fadas devem ser. – Disse uma voz que vinha de algum lugar escuro no meio do Oásis.
- Obrigada por concordar comigo, mas não acho que precise de mais pessoas para me porem para baixo.
- Não, certamente não precisa, mas farei mesmo assim. – Disse a voz que vinha do lugar escuro. – Talvez eu deva torturar um pouco mais, apenas pelo prazer de torturar, ou apenas porque dessa forma você sairá desse meu Oásis.
- Por que quer tanto assim que eu saia? Apenas estou cansada, e estou procurando alguma coisa.
- O que seria tal coisa? Conheço todas as coisas neste Deserto.
- Não sei... Esqueci...

Por um instante a pequena Fada se encheu de tristeza, e tudo que era Cinza ficou ainda mais escuro, como se toda a luz também estivesse sendo retirada dela...  Lágrimas caíram, talvez fosse a primeira vez que a Fada derramou lágrimas naquele lugar, e não sabia o que isso significava, mas continuou derramando e repetiu as palavras que repetia para si mesma quase que de forma constante:
- Pequena e Feia, como as Fadas devem ser.
- Devem ser apenas para aqueles que não conseguem ver a luz delas. – A Voz que Vinha do Lugar Sombrio disse rapidamente.

A Fada não pôde evitar se surpreender com aquilo, não era comum as vozes sombrias serem gentis, mesmo num lugar onde o Sol se Põe no Leste, estas coisas costumam ser tidas como certas. A Voz ainda assim falou dessa forma.

- Você está tão perdida que lega às sombras uma gentileza que elas não possuem. – Disse a Voz. – Você está tão perdida que quer atar em qualquer um aquilo que guarda no peito apenas para manter vivas por mais algum tempo as chamas que outrora te incendiaram.

A pequena Fada sentiu um Aperto no Peito. Algo estava dentro dela, e ela não sabia o que era, não sabia o que estava fazendo ali, mas sabia que estava, e se revolvia e doía bastante. Doía como se fosse o próprio Inferno querendo abrir passagem através do peito.

- O que é isso?
- São os sentimentos buscando alguma coisa para se prenderem.
- Sentimentos?
- Sim, você tirou uma imagem, mas não matou a pessoa dentro de você, e quando não se mata a pessoa, os sentimentos ficam confusos...
- Eu só queria esquecê-lo...  – Ao falar isso as lembranças daquele que Feriu a Fada voltaram todas à mente, e voltaram com força total. – Por quê eu não consigo?
- Isso é simples de se responder, porque você não pode simplesmente pegar um pedaço da sua própria história e jogá-la ao vento.
- Não era tão forte antes...
- Não, não era, mas agora há todo o afeto daquela figura que você perdeu, somado a todo o afeto da figura que você idealiza em si.
- Como acabar com isso?
- Mate-o...  Mate um pedaço da lembrança e do afeto dele que habita em você. A lembrança sempre estará viva, mas o afeto não precisa estar. Você nunca pode matar alguém por completo, apenas por pedaços, a idéia da pessoa é imortal, mas aquilo que essa idéia significa para você pode ser minguado até à Insignificância.
- Só Isso?
- Claro que não, depois de matar esse afeto, você deve fazer a parte mais difícil, deixar nascer algo em você... Algo que deve te preencher e te mover, algo que deve ser importante o bastante para que você consiga dar um passo adiante e erguer a cabeça.

A Fada respirou fundo. Na primeira vez que ela puxou o ar para seus pulmões, ela pôde sentir dentro dela uma navalha que retalhava aquilo que ela sentia. Um corte fino, afiado, impreciso. Deixando restos vivos onde ela não queria, e mortos onde ela não esperava.
- Malditos olhos que permanecem vivos. – Ela falou enquanto ainda puxava ar e mantinha os olhos fechados.

Então ela soltou o ar, e quanto mais soltava mais via as coisas se afastando dela e saindo dela, mais via as coisas do mundo e suas cores. A primeira cor que ela lembra de ver foi a vermelha. A cor do Sangue e da Paixão. Coisas próximas, agora que a raiva já estava fora dela, ela poderia deixar algo nascer nela, embora não soubesse o que é, essa é a beleza da vida e dos nascimentos, nunca se sabe exatamente o que é até que a coisa nasça de vez. 

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