O Sol se punha no Leste, era um espetáculo magnífico ver
aquela esfera flamejante caindo onde deveria ser o seu nascedouro, mas as
coisas são assim em lugares que obedecem poucas leis naturais. Talvez, na
verdade, seja assim em lugares que possuem sua própria Natureza. A areia branca
por sobre os pés dela não parecia incomodar. Apesar do calor escaldante, a
areia parecia ser uma dor que reconfortava. Um momento de tristeza e solidão
que trazia a ela pedaços de cruel sanidade naquele mundo onírico.
Escolhemos sofrer para nos mantermos sãos, assim como
escolhemos o ódio para nos resguardarmos do amor. Nada disso dá certo. Sofrer
em demasia leva a loucura, e o ódio é uma forma de atar perenemente alguém a
si. Mesmo assim essas coisas funcionam como paliativos. Funcionam enquanto as
coisas definitivas não são feitas. Ela ainda caminhava naquele deserto de
areias brancas. Não sabia ao certo quem procurava, mas tinha certeza do que
queria. Queria esquecer.
Esquecer por vezes é uma das tarefas mais complexas que
alguém pode tomar para si, pois envolve sempre um assassinato e um nascimento.
Para que algo seja deixado para trás, alguém tem que morrer e algo deve nascer.
Embora raramente saibamos o que deve nascer e sempre acreditamos que sabemos
quem devemos matar. Ainda assim ela estava decidida. Ela queria fazer isso, ela
queria esquecer.
Um Mercador que passava por aquele deserto avistou-a de
longe. Ele havia acabado de fazer um proveitoso acordo com o Rei Feiticeiro que
habitava um Castelo naquele Deserto, e queria outro negócio, pois é isso que
mercadores fazem, negociam coisas com as pessoas. Ele se aproximou sorrateiro
como uma serpente e a moça mal pôde reagir quando o ofídico homem chegou. Ele a
olhou de cima a baixo e sorriu. Sabia que ela buscava algo, pois apenas aqueles
que buscam coisas chegam naquele Deserto.
- O que desejas, pequena Dama? – Perguntou com sorriso cruel
e olhar nefando o Mercador. – Posso ofertar diversas coisas, desde sonhos
engarrafados, até amores despedaçados.
A moça observou com espanto o homem que oferecia tanto, e
parecia possuir tanta confiança que chegava realmente a convencer que ele tinha
mesmo aquilo que se propunha a vender. Sonhos e amores, nada exatamente físico,
mas naquele lugar isso poderia até mesmo ser tocado. A moça, entretanto não
parecia se impressionar com o que o homem viajante oferecia, ela queria ver
para além das palavras, queria tocar naquilo que foi prometido, e para além
disso, ela não queria sonhos, queria esquecer.
-Desejo esquecer alguém que um dia me feriu muito. – A moça
parecia decidida ao falar, mas vacilava no coração. – Desejo que eu não lembre
nunca que um dia eu possa ter conhecido essa pessoa.
O Mercador sorriu, e isso poderia ser feito. Ele tomaria
duas coisas e não precisaria deixar nada. Negócios como este raramente são
encontrados. Então o Mercador não titubeou quando aceitou.
- Claro que posso fazer isso, por um preço, é claro. – O Sorriso
no Rosto dele era diabólico. – Eu quero as cores do seu mundo, e em troca levo
essa memória comigo.
A moça não pensou duas vezes, deixou com o Mercador as cores
do mundo dela, assim como a lembrança daquele que a feriu... Mesmo assim algo
permanecia estranho na moça. Algo estava diferente, mas ainda o mesmo. Algo a
perturbava e ela nem sabia o que era ao certo. Dito isto a moça voltou a
caminhar pelo deserto. Deixou para trás o mercador, e seguiu caminho para achar
algo. Achar uma coisa que ela mesma havia esquecido, e o caminho agora era
ainda mais confuso, pois tudo estava preto e branco.
Passaram-se dias, talvez anos, séculos, ou alguns minutos,
era complicado definir isso naquele lugar. Difícil definir para onde iria. Mais
difícil ainda procurar o que havia esquecido que buscava, mas que se sentia
precisar encontrar. Ela apenas vagou pelo lugar. Quando não se podia ver as
cores do mundo, o Sol Que Se Põe No Leste perde toda a sua mística, as areias
brancas tornam-se indistintas, e o caminho árduo pelo calor fica cansativo pela
mesmice. Ainda assim ela não desiste. Caminha até chegar num Oásis em meio ao
Deserto.
Um pouso, um lugar para descansar, isso era aquilo que ela
precisava, precisava mais que outras coisas, mais até do que encontrar aquilo
que ela não fazia idéia do que procurava. A pequena Dama olhou seu reflexo na
poça d’água que ali estava e não pôde evitar de sussurrar para si, ou talvez
para alguma lembrança esquecida:
- Pequena e Feia.
- Sim, como as fadas devem ser. – Disse uma voz que vinha de
algum lugar escuro no meio do Oásis.
- Obrigada por concordar comigo, mas não acho que precise de
mais pessoas para me porem para baixo.
- Não, certamente não precisa, mas farei mesmo assim. –
Disse a voz que vinha do lugar escuro. – Talvez eu deva torturar um pouco mais,
apenas pelo prazer de torturar, ou apenas porque dessa forma você sairá desse
meu Oásis.
- Por que quer tanto assim que eu saia? Apenas estou
cansada, e estou procurando alguma coisa.
- O que seria tal coisa? Conheço todas as coisas neste
Deserto.
- Não sei... Esqueci...
Por um instante a pequena Fada se encheu de tristeza, e tudo
que era Cinza ficou ainda mais escuro, como se toda a luz também estivesse
sendo retirada dela... Lágrimas caíram,
talvez fosse a primeira vez que a Fada derramou lágrimas naquele lugar, e não
sabia o que isso significava, mas continuou derramando e repetiu as palavras
que repetia para si mesma quase que de forma constante:
- Pequena e Feia, como as Fadas devem ser.
- Devem ser apenas para aqueles que não conseguem ver a luz
delas. – A Voz que Vinha do Lugar Sombrio disse rapidamente.
A Fada não pôde evitar se surpreender com aquilo, não era
comum as vozes sombrias serem gentis, mesmo num lugar onde o Sol se Põe no
Leste, estas coisas costumam ser tidas como certas. A Voz ainda assim falou
dessa forma.
- Você está tão perdida que lega às sombras uma gentileza
que elas não possuem. – Disse a Voz. – Você está tão perdida que quer atar em
qualquer um aquilo que guarda no peito apenas para manter vivas por mais algum
tempo as chamas que outrora te incendiaram.
A pequena Fada sentiu um Aperto no Peito. Algo estava dentro
dela, e ela não sabia o que era, não sabia o que estava fazendo ali, mas sabia
que estava, e se revolvia e doía bastante. Doía como se fosse o próprio Inferno
querendo abrir passagem através do peito.
- O que é isso?
- São os sentimentos buscando alguma coisa para se
prenderem.
- Sentimentos?
- Sim, você tirou uma imagem, mas não matou a pessoa dentro
de você, e quando não se mata a pessoa, os sentimentos ficam confusos...
- Eu só queria esquecê-lo...
– Ao falar isso as lembranças daquele que Feriu a Fada voltaram todas à
mente, e voltaram com força total. – Por quê eu não consigo?
- Isso é simples de se responder, porque você não pode
simplesmente pegar um pedaço da sua própria história e jogá-la ao vento.
- Não era tão forte antes...
- Não, não era, mas agora há todo o afeto daquela figura que
você perdeu, somado a todo o afeto da figura que você idealiza em si.
- Como acabar com isso?
- Mate-o... Mate um
pedaço da lembrança e do afeto dele que habita em você. A lembrança sempre
estará viva, mas o afeto não precisa estar. Você nunca pode matar alguém por
completo, apenas por pedaços, a idéia da pessoa é imortal, mas aquilo que essa idéia
significa para você pode ser minguado até à Insignificância.
- Só Isso?
- Claro que não, depois de matar esse afeto, você deve fazer
a parte mais difícil, deixar nascer algo em você... Algo que deve te preencher
e te mover, algo que deve ser importante o bastante para que você consiga dar
um passo adiante e erguer a cabeça.
A Fada respirou fundo. Na primeira vez que ela puxou o ar
para seus pulmões, ela pôde sentir dentro dela uma navalha que retalhava aquilo
que ela sentia. Um corte fino, afiado, impreciso. Deixando restos vivos onde ela
não queria, e mortos onde ela não esperava.
- Malditos olhos que permanecem vivos. – Ela falou enquanto
ainda puxava ar e mantinha os olhos fechados.
Então ela soltou o ar, e quanto mais soltava mais via as
coisas se afastando dela e saindo dela, mais via as coisas do mundo e suas
cores. A primeira cor que ela lembra de ver foi a vermelha. A cor do Sangue e
da Paixão. Coisas próximas, agora que a raiva já estava fora dela, ela poderia
deixar algo nascer nela, embora não soubesse o que é, essa é a beleza da vida e
dos nascimentos, nunca se sabe exatamente o que é até que a coisa nasça de vez.
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