segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Fala para a Saudade.

Ela estava lá. Numa sala vazia, repleta de coisa alguma. Uma total inércia, solidão e, por alguns instantes, paz. A quietude é relaxante. Não havia nada, e ela ainda estava lá. Quando as luzes se apagam, legando ao esquecimento todas as coisas que outrora a iluminação vivificava, ela pode ficar num canto e esperar. Ela espera por algo que ela mesma não sabe o que é, apenas espera, pois é para isso que nasceu. Se todos os seres nascem para morrer, então não seria diferente no caso dela, ela está lá, esperando para morrer novamente.
Ela é como uma visão torpe de um lamento. Sombria o bastante para não sobreviver à luz, e ainda assim estava lá. Onde não há mais nada, ela está. Ninguém sabe porque ela existe, e poucos conseguem nomeá-la, que não após sua morte, e chamam como poderiam chamar um cão morto de cão, mas nunca pelo nome cujo qual ele se reconhece, ou o dono de forma feliz entregou a ele. As pessoas falam um nome para ela que habita o quarto vazio apenas por falta de termo melhor para falar. E ela está lá, esperando. Sozinha, num quarto que não tem ninguém.
As pessoas tendem sempre a evitar o quarto aonde ela reside, sempre tentam, sempre esquivam, mas a fuga só torna ainda mais forte a evidência do quarto vazio. E uma angústia crescente sempre que alguém passa na frente do quarto dela consome tudo em todas as almas. E ela ainda está lá. No quarto vazio.
Quarto este que nem sempre foi vazio, mas antes haviam coisas lá, vida, formas, cor, e felicidade, todavia tão certo quanto o fato que até os deuses serão postos para fora de seus domínios, as coisas que haviam antes no quarto não mais estão lá, tudo foi removido. Amores, sabores, alegrias e fantasias. Tudo. Não há mais nada no quarto vazio. E ela ainda espera neste quarto, que alguém ascenda a luz para findar com tão terrível existência.
No fim das contas, toda Saudade deseja ser morta.

A Criança e a Senhorita.

Ela estava naquele lugar escuro e sombrio. Poucas coisas chegavam ali, e as que chegavam, iam para ficar nos cantos escuros e sombrios. Apenas silêncio imperava ali, talvez não total, mas aquele silêncio constrangedor dos que choram baixinho. Um tipo de silêncio que você nunca quer quebrar simplesmente por não fazer idéia o que diria para quebrá-lo.
Nada acontecia ali, sem pássaros a gorjear, sem gatos a miar, cães a ladrar. Não tinha nada, apenas um monte de cantos escuros, cada qual ocupado por um único e solitário ser, aquele que resolvesse sair deste canto escuro, sabia mais por instinto do que por ter sido avisado, que não poderia falar com outros habitantes, talvez mesmo que não soubesse não falaria, o que dizer para alguém que estava ali. Foi quando uma criança cega e louca, com um olho azul e outro vermelho, apareceu cantando e dançando por sobre o chão escuro daquele lugar esquecido. A criança parecia feliz, e isto destoava do lugar. Lá não era um lugar para felicidades, e ela tinha que fazer com que aquela criança conhecesse a miséria tal como ela conheceu.
- Ei, criança que canta como se amasse todas as coisas do mundo. – Disse ela em tom pesado.
- Oi, senhorita que chora como se a vida não te amasse. – Respondeu leve e rapidamente a criança.
Ela teria contraído o rosto se houvesse alguma carne para contrair, teria franzido o cenho também se pudesse, mas como não podia apenas continuou a falar:
- Tola criança cega, você está nos domínios da morte e da melancolia. Nada vem aqui que não seja para morrer, e só sai quando a vida chama novamente para um novo e torturante passeio.
- Não é torturante, senhorita, é apenas um passeio, que todos fazemos, o tempo todos.
- Eu não. Não é de mim caminhar pelo lado de lá.
- Claro que é, apenas acontece que você não se reconhece quando anda do outro lado. Do lado de lá, te chamamos de Escolhas.
Ela parou por um instante e pôs-se a pensar no que houve, pôs-se a pensar no que era que estava sendo feito. Como ela não teria ciência dela mesma? Como seria tal coisa possível? Os pensamentos vinham como um turbilhão, mas ela refreou e decidiu manter-se firme na tentativa de mostrar a miséria da vida para a criança.
- Ainda não entendo como você pode sorrir. Você vive num mundo que apenas a dor e a tristeza habita o coração dos homens, e nada além disto você poderá ter. Nem lá, nem cá. Não há motivos para sorrir, nem aqui, nem lá.
- Não, minha cara, você está enganada. – Disse a criança com um riso fácil no rosto. – Você apenas não entende, você deve ter passado tempo demais com os humanos e acabou por não ser mais capaz de observar o mundo como um todo. Venha, ande comigo.
A criança começou a andar por aquele lugar que não havia nada e que nada acontecia, e para grande surpresa da moradora perene daquele lugar, ali aconteceu algo. Uma árvore podia ser vista. Uma Cerejeira. Toda florida.
- Esta. – Começou a criança apontando para a cerejeira. – É uma das melhores representações de como a felicidade funciona.
- Uma árvore que perde flores? – Ela riu de forma amarga. – Eu poderia dizer que é isso mesmo, flores que caem. Apenas isso e nada mais.
- Você não entendeu mesmo, não é? Esta é uma Sakura perene, e suas flores cairão para sempre. E isso é como a felicidade. Todas as vezes que uma flor toca o chão, é como se um momento feliz pudesse ser alcançado, pois os humanos só podem pegar a felicidade assim, aos pouquinhos. Há momentos que flor alguma toca o chão, principalmente porque as flores de Cerejeira caem apenas a cinco centímetros por segundo. Muito pouco, muito devagar, mas é o bastante para apreciar todo o trajeto e ao cair no chão, cada instante ser saboreado, até que nova flor caia.
- Entendo, mas isso só onde há beleza, se a vida não tiver uma destas árvores então ela será fadada a derrota, uma vida de podridão gera apenas isso, e os humanos estão lotados destas coisas.
- Sim, lotada... – A criança parecia pensativa, até que os seus olhos cegos brilharam, como se ela tivesse tido uma grande idéia. – Venha, senhorita, venha comigo.
A criança saiu dançando em meio ao pântano que era ali. Apenas lixo e podridão, apenas lama. E a criança dançando. Até chegar num corpo de um homem que jazia ali. Ela ficou lá, parada, com um sorriso no rosto.
- Você alcançou apenas uma carcaça, criança que ri.
- Olhe para a carcaça, dama que chora.
- Apenas um corpo morto. – Disse ela calmamente.
- Olhe atentamente.
Neste instante ela percebeu algo como uma pequena flor nascendo no peito do corpo do homem morto. Uma Lótus.
- A Lótus é uma flor que cresce nestas situações adversas. Cresce na sujeira, e na imundice. Até mesmo um corpo morto serve de nutriente para a renovação. – A Criança olhou no fundo das órbitas Vazias da Senhora que Mora do Lado de Lá. – Cada coisa se renova ao passar do tempo, e por mais que as coisas pareçam perdidas, e podres, só ter um pouco de fé, que você consegue observar a felicidade nascente.

O Rei e o Abraço de Iku.

Num tempo ancestral, quando as coisas eram diferentes das coisas que são, num palácio feito de uma Pedra Negra e polida até que as paredes fossem como espelhos. Neste palácio vivia um Rei Feiticeiro que sabia de diversos segredos, e conhecia diversas histórias. Ele sentava sobre um trono feito de Diamante Sangue e aguardava a passagem do tempo. Certo dia um visitante chegou a ele, requisitando uma audiência. Este visitante queria algo que ele sabia que o Rei saberia. Ele queria um jeito de escapar de Iku.
- Rei Feiticeiro, sei que você sabe os segredos de escapar de Iku, então peço humildemente que me ensine.
O feiticeiro conhecia esse segredo, ele foi o homem que deu a Ifá os Búzios e ensinou a ouvir os Passos de Iku para que ele escapasse sempre que precisasse. Também ensinou a Taiwo e Kehinde uma música que faria com que quem quer que não saiba tocá-la dance sem parar. Isso fez com que Iku não conseguisse alcançar nem um, nem outro.
- Sim, sei segredos para se fugir de Iku, mas cada segredo só pode ser usado uma vez, então não vou te ensinar a tocar flauta, ou jogar búzios, ou ouvir os passos silenciosos. Vou te ensinar algo terrível, mas se você quiser se esconder isso é o que terá que fazer. Vou te ensinar o Obayfó, que é um ritual que bebe da vida dos outros e enquanto você viver assim você poderá ficar longe de Iku durante a noite, e durante o dia você poderá se esconder dentro de um Baobá oco. Agora lembre. – O Rei aumentou a voz. – Quando terminar o Obayfó, você não estará nem morto nem vivo, e nem será humano, ou egun, será algo que está fora disso.
Após ter entendido como o ritual funcionava, o Visitante foi visitar uma vila para assombrar. Partiu para uma não-vida eterna, mas era isso que ele queria, então foi isso que o Rei deu. O Rei passou tempos refletindo sobre dar coisas, e foi quando depois de três dias sem sair do trono para nada, nem comer, nem beber, um visitante chega na Sala do Trono. Um visitante nefasto e que todos fogem quando ele se aproxima.
- Há quanto tempo, Iku, o que desejas em meu castelo? – Perguntou o Rei com um sorriso no Rosto.
Iku olhou o rei de cima a baixo, viu uma figura negra como obsidiana, com um sorriso largo no rosto e olhos de cores diferentes. Um era da cor do mar de Yemonja, o outro era vermelho como o fogo de Esù nas forjas de Ogun. Ali estava alguém que era mais velho que ele mesmo, pensou Iku, alguém que tem um Odu que ele mesmo desconhece, mas que Olorum certamente deu com um propósito.
- Salve Rei que tem um nome que não devo pronunciar, vim reclamar contigo pelas coisas que tens feito.
O Rei apenas observou e nada falou. Vendo que ele ficaria assim por muito tempo, então Iku resolveu prosseguir:
- Você faz com que as pessoas escapem de meu abraço, e com isso fiquem na terra por mais tempo. Você sabe do meu Odu, e sabe que eu tenho que tomar todas as cabeças. Então por que você faz isso? – Iku parecia com raiva, e falar desse modo com o Feiticeiro Rei era algo que mesmo ele deveria fazer com cuidado.
- Sinto, meu nobre Iku. – Disse o Rei enquanto, para o espanto de Iku, se abaixava e punha a cabeça no chão. – Mas é isso que faço, se alguém vem em minha casa e pede algo, é porque Olorum permitiu e guiou os pés dos desesperados até chegar a mim. Sei que a morte é necessária para o ciclo, e sei que as pessoas fogem dela, e sei mais ainda que aquele que vive na morte vive só.
O Rei respirou fundo, e pensou sobre as coisas que ele falava, muito do que ele dizia para Iku podia ser aplicado a ele mesmo, lembrou que a morte é sobre ciclos. Todas as coisas morrem, morremos a cada momento, e ainda permanecemos. Morremos a cada nova escolha que tomamos, morremos sempre que decidimos algo, morremos sempre alguém nos esquece. Morremos um pouco quando os dias nascem e quando as noites caem. Estamos aqui para isso, mas sempre buscamos modos de viver para sempre. Por isso alguns mortais chegam ao castelo do Rei Feiticeiro, para pedir um meio de viver para sempre. Então o Rei ensina da forma mais difícil possível a necessidade de Iku no mundo, a necessidade que as coisas partam para que o novo surja. Ele ensina isso dando vida para os que pedem. Assim, eles poderão ver tudo passar e eles permanecendo, estagnados, presos numa não escolha. Ser impedido de morrer, é ser impedido de viver.
- Nobre Iku, faço apenas o que tenho que fazer e caminho apenas por onde posso caminhar. Sinto se lhe desagradei, mas fiz isso porque era isso que tinha que fazer. Não se preocupe, as cabeças que te impedir de pegar hoje, um dia se arrastarão por sobre os seus pés e implorarão que você as leve, e nesse momento, elas poderão voltar a viver, para enfim morrer.
Nisso o Rei levantou do seu trono, caminhou até o seu visitante, e abraçou de forma terna. Iku não pode evitar as lágrimas, mesmo sendo um guerreiro, ele não era invulnerável. O Rei por outro lado sabia que esse era o meio mais seguro de permanecer vivo para sempre. Cativar alguém com gentileza e viver num coração e na memória é o melhor jeito de ficar vivo. Pois assim ele poderia continuar fazendo escolhas, e continuar morrendo, mas para cada morte que ele vivia, o Rei que cativou o coração da Morte, sempre poderia viver em suas lembranças, e nas histórias contadas ao redor da fogueira.

A Dama do Deserto, o Rei Feiticeiro, e os Medos.

Era noite no deserto. O vento soprava suavemente a areia das dunas. Mudando-as um pouco de lugar a cada sopro. Para os que conseguem ver, os que possuem tempo o bastante para acompanhar o trajeto das dunas do deserto, nada está parado, tudo se move. Assim também se movia a mulher que cruzava todo o deserto. Coberta por um grosso manto negro, só os olhos verde-mar podiam ser vistos. A noite do deserto era fria, mas ela precisava andar naquela hora, pois, segundo as lendas, só naquela hora o Castelo do Rei Feiticeiro surgia em meio às areias do deserto.
Ninguém caminha até o Rei sem propósito, e ela não era exceção. Havia algo que ela queria perguntar, algo que a afligia e talvez apenas o Monarca Bruxo soubesse a resposta. Enquanto devaneava ela viu o Castelo. Não havia como nunca tê-lo visto antes, pois o castelo era imenso e ficava apenas a poucas horas da vila que ela morava. Um Magnífico castelo, feito de pedras vermelhas como Sangue, iluminado pela luz prateada da Lua. As portas estavam abertas, como se esperasse por alguém, ou talvez sempre fosse assim ali. Ela entrou e rapidamente chegou à sala do trono. O Rei feiticeiro estava lá, parado, sentado no seu trono como se ele o trono fossem um só. Olhos fixos, um vermelho outro azul, fitavam a moça. Ela demorou um pouco para falar, não mais que alguns instantes, mas para ela, passou-se uma eternidade.
- Rei Feiticeiro, vim de muito longe te perguntar algo. – Parecia que ela teve que reunir toda a coragem do mundo para falar estas palavras.
O Rei não pronunciou uma única palavra. Quieto. A moça com olhos verde-mar continuou sua fala:
- Eu quero saber por que tenho medo de todas as coisas?
O rei meneou a cabeça, olhou para a pequena dama, esboçou um falso sorriso, e disse:
- Medo... O que temes perder?
- Tudo. – Ela respondeu rapidamente, quase nervosa.
- Tens realmente tantas coisas assim? Admira-me muito uma mortal que tenha tantas coisas a perder.
- Nobre Rei, não tenho muito, mas o que tenho consegui com esforço, e essas coisas me são caras.
- Talvez você tenha mais medo de perder a si mesma do que perder as coisas, mas não consegue se observar em si, e só se vê naquilo que acredita que possui.
- Como assim acredito?
- Você acha mesmo que possui alguma coisa? A casa na qual mora é tua? E a cama onde dormes, ou quem sabe o teu prato onde come? Você acreditou, mesmo que por um instante que essas coisas eram suas? Você acha que seus amigos são seus? E os amores que você vem coletando ao longo do tempo, acreditas mesmo que tudo isso é teu?
- Claro que estas coisas são minhas. Eu moro na minha casa, durmo na minha cama e como no meu prato. Meus caros amigos me são próximos e queridos, e todos os amores que vim coletando ao longo do tempo ficaram marcados em mim.
- E se você não estiver na casa ela deixará de ser casa? A cama não servirá mais para dormir, ou o prato para comer? Teus amigos sem ti deixam de existir, e o único sentido da vida deles é você? E os amores, se não fosse tu, não seria mais ninguém?
- Não, mas não é esse o ponto... – A Dama estava hesitante. O manto, que cobria o rosto e deixava apenas parte de sua tez branca e os olhos verde-mar expostos, começava a cair, e isso revelava ainda mais de suas feições nervosas.
- Esse manto que você veste deixa pouco exposto, e com isso você acredita que pode enganar seus próprios sentimentos. Como uma criança que acha que ao fechar os olhos os outros também não poderão vê-la. Tolice.
O véu caiu no chão feito de pedra negra e extremamente polida. Ela podia ver seu reflexo no chão da Sala do Trono, e o reflexo mostrava uma pessoa assustada.
- Você veio aqui para não sentir mais medo, mas isso não pode acontecer, todos tememos algo, todos em algum momento sentimos medo, pois cremos na ilusão que algo é nosso para ser perdido.
- Não há nada que seja meu? Eu sou apenas um colcha de retalhos jogada ao sabor do tempo e vento? – Perguntou a Dama enquanto suas madeixas douradas e finas como fios de ouro balançavam sutilmente por causa de um vento espectral que fluía do trono do Rei.
- Sim, há coisas que são suas.
- O quê? O que é meu? – A aflição começava a ser visível, enquanto o Rei permanecia impassível.
- Seu ponto de vista. Aquilo que estes olhos verde-mar observam e como eles observam o mundo é algo único e exclusivo seu. Ninguém pode te tolher disto, e sem você tal coisa não existe. Apenas você pode dar sentido as coisas que você observa, e apenas seu sentido diz o que você será capaz de absorver de cada coisa do mundo.
- Cada coisa?
- Cada coisa, inclusive nossa conversa. Apenas você pode dizer o que isso quis dizer para você, e ninguém poderá fazer isso por você, assim como as outras coisas que te pertencem. Suas escolhas, e o peso da responsabilidade de todas as coisas que você não-escolheu. Todas as coisas que nunca mais poderão ser suas, ou vistas por você, apenas por causa do caminho que trilhaste.
- Escolhas.