Era noite no deserto. O vento soprava suavemente a areia das dunas. Mudando-as um pouco de lugar a cada sopro. Para os que conseguem ver, os que possuem tempo o bastante para acompanhar o trajeto das dunas do deserto, nada está parado, tudo se move. Assim também se movia a mulher que cruzava todo o deserto. Coberta por um grosso manto negro, só os olhos verde-mar podiam ser vistos. A noite do deserto era fria, mas ela precisava andar naquela hora, pois, segundo as lendas, só naquela hora o Castelo do Rei Feiticeiro surgia em meio às areias do deserto.
Ninguém caminha até o Rei sem propósito, e ela não era exceção. Havia algo que ela queria perguntar, algo que a afligia e talvez apenas o Monarca Bruxo soubesse a resposta. Enquanto devaneava ela viu o Castelo. Não havia como nunca tê-lo visto antes, pois o castelo era imenso e ficava apenas a poucas horas da vila que ela morava. Um Magnífico castelo, feito de pedras vermelhas como Sangue, iluminado pela luz prateada da Lua. As portas estavam abertas, como se esperasse por alguém, ou talvez sempre fosse assim ali. Ela entrou e rapidamente chegou à sala do trono. O Rei feiticeiro estava lá, parado, sentado no seu trono como se ele o trono fossem um só. Olhos fixos, um vermelho outro azul, fitavam a moça. Ela demorou um pouco para falar, não mais que alguns instantes, mas para ela, passou-se uma eternidade.
- Rei Feiticeiro, vim de muito longe te perguntar algo. – Parecia que ela teve que reunir toda a coragem do mundo para falar estas palavras.
O Rei não pronunciou uma única palavra. Quieto. A moça com olhos verde-mar continuou sua fala:
- Eu quero saber por que tenho medo de todas as coisas?
O rei meneou a cabeça, olhou para a pequena dama, esboçou um falso sorriso, e disse:
- Medo... O que temes perder?
- Tudo. – Ela respondeu rapidamente, quase nervosa.
- Tens realmente tantas coisas assim? Admira-me muito uma mortal que tenha tantas coisas a perder.
- Nobre Rei, não tenho muito, mas o que tenho consegui com esforço, e essas coisas me são caras.
- Talvez você tenha mais medo de perder a si mesma do que perder as coisas, mas não consegue se observar em si, e só se vê naquilo que acredita que possui.
- Como assim acredito?
- Você acha mesmo que possui alguma coisa? A casa na qual mora é tua? E a cama onde dormes, ou quem sabe o teu prato onde come? Você acreditou, mesmo que por um instante que essas coisas eram suas? Você acha que seus amigos são seus? E os amores que você vem coletando ao longo do tempo, acreditas mesmo que tudo isso é teu?
- Claro que estas coisas são minhas. Eu moro na minha casa, durmo na minha cama e como no meu prato. Meus caros amigos me são próximos e queridos, e todos os amores que vim coletando ao longo do tempo ficaram marcados em mim.
- E se você não estiver na casa ela deixará de ser casa? A cama não servirá mais para dormir, ou o prato para comer? Teus amigos sem ti deixam de existir, e o único sentido da vida deles é você? E os amores, se não fosse tu, não seria mais ninguém?
- Não, mas não é esse o ponto... – A Dama estava hesitante. O manto, que cobria o rosto e deixava apenas parte de sua tez branca e os olhos verde-mar expostos, começava a cair, e isso revelava ainda mais de suas feições nervosas.
- Esse manto que você veste deixa pouco exposto, e com isso você acredita que pode enganar seus próprios sentimentos. Como uma criança que acha que ao fechar os olhos os outros também não poderão vê-la. Tolice.
O véu caiu no chão feito de pedra negra e extremamente polida. Ela podia ver seu reflexo no chão da Sala do Trono, e o reflexo mostrava uma pessoa assustada.
- Você veio aqui para não sentir mais medo, mas isso não pode acontecer, todos tememos algo, todos em algum momento sentimos medo, pois cremos na ilusão que algo é nosso para ser perdido.
- Não há nada que seja meu? Eu sou apenas um colcha de retalhos jogada ao sabor do tempo e vento? – Perguntou a Dama enquanto suas madeixas douradas e finas como fios de ouro balançavam sutilmente por causa de um vento espectral que fluía do trono do Rei.
- Sim, há coisas que são suas.
- O quê? O que é meu? – A aflição começava a ser visível, enquanto o Rei permanecia impassível.
- Seu ponto de vista. Aquilo que estes olhos verde-mar observam e como eles observam o mundo é algo único e exclusivo seu. Ninguém pode te tolher disto, e sem você tal coisa não existe. Apenas você pode dar sentido as coisas que você observa, e apenas seu sentido diz o que você será capaz de absorver de cada coisa do mundo.
- Cada coisa?
- Cada coisa, inclusive nossa conversa. Apenas você pode dizer o que isso quis dizer para você, e ninguém poderá fazer isso por você, assim como as outras coisas que te pertencem. Suas escolhas, e o peso da responsabilidade de todas as coisas que você não-escolheu. Todas as coisas que nunca mais poderão ser suas, ou vistas por você, apenas por causa do caminho que trilhaste.
- Escolhas.