sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Conversa do Rei Feiticeiro e o Pescador de Ilusões.

As areias eram negras na margem daquele Rio. O céu também, escuro, com nuvens cinza de uma eterna tempestade vindoura. A água era branca, e brilhava. Era o contraste daquele lugar desolado, sem aparente vida. Não havia vegetação, ou animais por perto. Nem mesmo um único mosquito para incomodar algum transeunte fortuito, mas também não havia transeuntes. Havia apenas ele, o pescador.

O Pescador estava tranqüilo naquelas margens sombrias. Não tinha certeza do tempo que passou ali, mas sabia que estava lá para pegar algumas coisas do Rio. Ele jogava sua linha e esperava, as vezes ficava por horas, dias, anos esperando, até que apanhava algo. Ele calmamente puxava a linha de volta, pegava o que tinha que pegar e jogava novamente a linha. Talvez seja desnecessário dizer que não existem peixes num Rio branco e fluorescente que tem como margem praias de areia negra, mas digo que não eram peixes que ele pescava, eram desejos e ilusões.  Ele usava essa pequena linha feita de alma para que os desejos se fixassem nela. Quando queria ilusões, ele jogava uma corda feita de esperança. Desejos perdidos procuram restos de almas para se agarrar, e ilusões se fixam bem na esperança.

Foi enquanto estava prestes a pegar mais um Desejo que o Pescador viu um homem em vestes tão negras que se destacava do ambiente. Era como se fosse uma sombra que absorvesse toda a luz que havia na escuridão e nada deixasse. As vestes deste homem eram de uma costura invejável, como se fossem as próprias Sombras envolvendo-o. Sua cabeça era encimada com uma coroa de diamante-sangue. Um diamante raro que normalmente não é visto em lugar nenhum do mundo que não seja em campos celestes. O pescador suspirou, e em meio ao suspiro falou:

- O que o Nobre Rei Feiticeiro faz tão longe de seus escuros domínios?

- Apenas divagando...  – Disse o Rei Feiticeiro ao se aproximar do pescador. – E minhas divagações me trouxeram até esta margem que não há como cruzar.

- Sempre há um barqueiro.

- Não há barcos para idéias. Elas são persistentes, insistem em existir na cabeça de diversas pessoas e isto as mantém.

O Rei parecia um tanto interessado naquilo que o Pescador estava pescando. Ele sabia que naquele Rio não havia peixes. Não poderia haver. Também sabia que ali era um lugar que era de acesso muito difícil, ir até ali deveria ter um motivo importante, e o que quer que se esteja pescando ali, deve ser algo interessante.

- Diga-me, pescador, o que você pega com essa linha tão fina.

- Esta, Rei, é uma linha de alma, serve para pegar Desejos.

- Desejos?

- Sim, desejos legados ao esquecimento. – O Pescador parecia ter um olhar distante enquanto falava isso. – Desejos que ficam impedidos de serem satisfeitos pela vida. Eles acabam por serem trazidos para cá.

O Rei pensou por um instante. Alguns desejos suficientemente poderosos podem criar deuses, como algo tão magnífico pode acabar aqui? Como um desejo pode acabar parando num lugar de esquecimento? O pescador observando o olhar pensativo do Rei meio que adivinhou o que ele pensava. Então respondeu:

- Nobre Rei, a Majestade não conhece as limitações da vida humana. – Em meio a um suspiro o Pescador prosseguiu. – Os humanos devem fazer o que têm que fazer, e as vezes isso quer dizer que eles devem abdicar de seus desejos. Chamamos isso de Realidade.

O Rei era de um mundo de Sonho. Aquilo de Realidade era novidade para ele, pois nunca ele pensou que algo pudesse não ser Real.  O Pescador ali diante dele não era distinguível de qualquer sonho que ele já teve, e isso para ele era o que era, e não havia diferença entre os mundos.

- E há uma diferença entre aquilo que você julga ser real, e aquilo que não?

- Sim, há! Aquilo que é da Realidade, é a rotina e convivência. Ela tolhe muitos sonhos e desejos, e deixa apenas algumas parcas possibilidades. Todos podem viver através disso, é claro, mas apenas dessa maneira.

- E sua liberdade para escolher é legada simplesmente ao fato de escolher ir para esse caminho que o convívio lhe impõe, ao contrário daquilo que os seus anseios lhe guiam?

- Nem sempre é ao contrário, Nobre Rei, mas sempre é algo que limita mais do que dá liberdade. Ao contrário de Vossa Majestade, nós não fazemos as leis, apenas nos submetemos a elas.

- E no processo perdem grande parte da liberdade. O que ganham com isso.

- Tudo.

- Tudo?

- Sim, estar preso é ansiar fugir da prisão, e com o anseio há desejo, e com o desejo há mudança. Sem a prisão não haveria desejos.

O Rei refletiu sobre tal afirmação. Ser preso tolhe, e liberta ao mesmo tempo. Ser um escravo das próprias normas é a única forma de ser livre.

-  Ainda assim qual é o real custo desta liberdade?

- O Medo. – O Pescador apenas olhava para o Rio. – O medo de falhar, de não conseguir ir adiante, o medo de ser menos do que aquilo que se espera. O Medo é o preço a ser pago. Principalmente o medo de sofrer.

- E como vocês fazem para não ficarem presos no medo.

- Criamos Ilusões.  Fantasias que sustentam nossas realidades frágeis, e afugentam nossos medos.  Ao criar ilusões, nós forjamos fantasias para os fantasmas que tememos, e vestimo-los com tais roupas. As fantasias são presas de forma muito precária, entretanto, e as vezes ela não se sustenta por muito tempo. Então temos que forjar uma nova fantasia, uma nova forma de ver alguma coisa que não é em algo que é.

- Se são tão necessárias assim, como tantas acabam aqui?

- Ás vezes elas não são o bastante, outras vezes nos rasgam muito então resolvemos jogá-las para cá.

- Machucam? A intenção não era que a fantasia fizesse com que o medo sumisse, ou ficasse mais agradável?

- Tente imaginar então o que aconteceria conosco sem ela... – O pescador puxava a linha de prata feita de esperanças de volta, nela algo iridescente se contorcia, uma ilusão perfeita. – Sem essas coisas, os nossos medos simplesmente acabariam conosco. Precisamos delas. Precisamos destas coisas para que todos sonhem com dias melhores, sem que os pesadelos apareçam para nos lembrar que os dias sempre são os mesmos e quem deve mudar somos nós.

- E não seria mais fácil vocês mudarem por si só, no lugar de depender das fantasias?

- Dói muito o esforço de tentar mudar por si. Uma dor que rasga os ossos e quebra a pele.  Tamanha é a dor que uma pessoa sente ao começar a tocar os seus medos que ela acaba por acreditar que vai se despedaçar. O mundo é um lugar hostil, e imaginar que ele pode ser bom é uma forma de não termos medo dele.

- Por mais que o mundo não seja bom ou ruim, o mundo é apenas o mundo, não há valores nele, há 
nos humanos, mas o mundo é apenas isso, o mundo.

- Essa é outra característica dos humanos, eles dão a todas as coisas as suas características. Tudo é um pouco humano sob os olhos dos humanos, pois eles impregnam todas as coisas com suas ilusões, e essas ilusões, transformam um pouco essas coisas.

- Como se o observador fizesse com que aquilo que está sendo observado mude pela simples intencionalidade da observação causal...  Quer dizer que apenas....

- Sim, apenas pelo fato de você está diante de mim, Vossa Alteza, algo em você é meu, e você é mais parecido comigo. Tornando-se um pouco de mim a medida que eu me torno um pouco de você, e assim todas as coisas são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

- Compreendo, e agradeço.


Ao terminar estas palavras o Rei deixou aquelas praias desertas, e nada mais podia ser visto lá. Nada salvo uma linha prateada feita de esperança, e uma linha branca feita de alma, um pequeno balde com algumas ilusões e uns desejos pequenos, apenas isso e nada mais. O Rei teria muito o que pensar até chegar em seu castelo, embora nunca tivesse saído de lá, e agora ele  entendia o que chamavam de ilusão. A Ilusão, o Sonho, o Delírio, a Fantasia... Tudo não passa de pontos de vistas de uma realidade. 

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