segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Jornada das Três Damas Flamejantes. Pt 2

A Dama seguinte foi aquela que trazia consigo o brilho escarlate do sangue. A criança sentia um cheiro que lembrava relva fresca, algo que parecia uma manhã de verão logo cedo antes de ficar demasiadamente quente para se sair para brincar. Essa Dama trazia consigo um olhar doce e terno e com um meio sorriso no rosto estava a dançar.

Dançava algo frenético num ritmo veloz. Com um olhar de menina faceira estampado em meio a um sorriso cigano e furtivo a Dama Escarlate encarava a criança. Encarava como se fosse arrancar até o último fio de inocência da pobre criança que ali estava a observar, e a criança encarava de volta. Com aquele olhar que só os que a muito perderam a visão são capazes de não realizar. A pobre criança cega não tinha olhos para o que estava por vir.

E o que estava por vir era luxurioso, lascivo e malicioso. A criança sentia um cheiro cortante e vermelho, e em sua boca jazia algo ácido e doce, com uma ou talvez duas notas florais, de flores que não existem por aqui. Dizem que o sabor apimentado é o sabor das coisas luxuriosas, quem disse isto certamente nunca provara de uma trufa de licor de limão. Um doce suave que te faz querer mais e um ácido pungente que te faz recuar e sofrer sempre que se prova. Este é o sabor da lascívia.

Então uma dança hipnótica, de movimentos serpentinos e circulares começou a ser feita. A criança a tudo observava, e seus olhos não desviavam dos olhos da Dama. Aquilo que estava sendo feito poderia ser facilmente confundido com um ritual de acasalamento, embora ao que parece não estava exatamente surtindo efeito com a criança. Esse é o mal de ser Louca, Cega, Criança e Poetisa, algumas coisas acabam não funcionando mesmo. Algumas coisas nem mesmo são entendidas. A Dama então dançou até que as noites e os dias pudessem ser confundidos como se sendo a mesma coisa e nisto ela parou e disse a Criança:

- Não sabias que fitar os olhos do pecado pode ser mortal?

- Sim – Disse calmamente a Criança. – Acontece que sou cego, então posso tranquilamente observar tua dança e olhar em teus olhos.

- Ora, como podeis ver se és cego? – Disse a Dama ficando impaciente.

- Observo cada coisa que vive com meu coração, este me revela cada coisa que preciso saber para seguir em frente e cada coisa que preciso saber sobre todas as pessoas.

- Então – Começou em tom desafiador a Dama Escarlate – o que estes olhos cegos enxergam em mim? Beleza? Formosura? Lascívia? Malícia? Ou tudo isso junto?

- Solidão. – Disse calmamente a criança.

- Como posso eu ser sozinha se tenho tantos ao meu lado? – Falou em tom zombeteiro a Dama – De nada servem estes seus olhos do coração. De nada adiantam.

- Não confunda as coisas, estar cercada de pessoas, as vezes nada quer dizer. Não importa o quão alto você ri, o quanto você dança, ou com quem você sai. Se no fim da noite você ainda não se sente acompanhada, nada disso vale â pena – Disse a criança com um olhar plácido e calmo.

Apenas silêncio pôde ser ouvido através da boca da Dama Escarlate, e uma sensação de que algo parecia inquietá-la. Seus olhos ficaram duros sua expressão séria e seus movimentos não mais pareciam fluidos, era como se algo tivesse removido parte da graça de sua dança. Como se as palavras da criança tivessem reverberado na Dama. A Dama fez seu movimento, dizendo para a criança:

- Se me acreditas só, faça-me então companhia, ficarias tu ao meu lado até que os tempos acabem, e depois para além disso? – Disse de forma triunfante a Dama.

A resposta porém veio rápida, algo que a Dama não esperava, pois sempre que fizera tal proposta a outras pessoas estas prontamente aceitavam, apenas para depois partirem e seguirem seus rumos, mostrando que palavras de nada valem, nada além de vento e grãos de areia. A criança de forma rápida e quase de forma automática disse:

- Não. Não faz sentido prometer tal coisa, pois mesmo que eu diga isso eu só poderia estar realmente ao teu lado se me permitires estar, mas como poderia eu fazer isto se nem mesmo você esta ao seu lado? – Vendo a expressão atordoada e atônita da Dama a criança prosseguiu. – Antes que qualquer um possa estar ao teu lado você precisa permitir-se estar consigo. Você sempre esta por ai, dançando e cantando, mas não esta no lugar mais importante. – A criança aponta para entre os fartos seios da Dama – Ai, em seu coração. E nem toda a volúpia do mundo pode manter alguém ao seu lado se você não permitir isto originalmente. Ame primeiro a si.

- Falar é mais difícil do que fazer. – Disse a Dama de forma grave.

- Não se preocupe, eu sou aquele que te abraçará forte e removerá da perdição, te darei os caminhos para que com teus próprios pés possa trilhar para aquilo que desejardes, e ter sempre em mente que não importa o quanto as coisas pareçam sombrias, sua jornada não é uma jornada de uma pessoa só...

- Não?


- Não, no seu caso em particular, é uma jornada partilhada por outras três.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Jornada das Três Damas Flamejantes. Pt. 1

Dizem que apenas cegos, loucos e crianças são capazes de ver os anjos, assim como também falam que apenas trovadores, loucos e apaixonados podem visitar Faery. Por conta disto esta história não é de forma alguma fiável, pois quem me contou foi uma criança cega, louca e que cantava estar apaixonada por todas as coisas do mundo. Certamente que há noutras paragens alguém que venha contar alguma história mais crível, mas eu acreditei na criança e deste modo repasso esta história, a história das Três Damas Flamejantes.
A criança disse que numa tarde de verão passeava por uma selva de pedra polida, com árvores tão altas quanto se pode ver e que dentro destas árvores, pessoas viviam e estudavam coisas da vida, como aquelas que se aprende na rua, ou ouvindo os mais velhos, apenas para dizer que sabiam das coisas. Foi nesta Selva que a criança pela primeira vez avistou as Três Donzelas Flamejantes, e elas dançavam e sorriam,  falavam e cantavam, e o mundo em torno delas era apenas festa. A criança vira aquilo que todos viram, mas por ser cega ela poderia ver mais além. Pôde então ver aquilo que esta por trás das chamas e os segredos que cada uma guarda em seu coração. Viu também que as tonalidades que o fogo assumia eram diferentes para cada uma.

Uma possuía um tom mais vibrante e próximo do dourado, outra algo intenso e quase vermelho, e então uma cálida e quase como um revigorante Sol Amarelo. A criança riu e saboreou o cheiro que cada uma trazia consigo. Uma lembrava Vodka com Cravo e Mel, um aroma Rico e pungente, e que trazia o amargor de todas as decepções que tentaram afogar. Outra possuía um cheiro do frescor da primavera, algo que parecia neve derretendo, um cheiro próximo da felicidade, algo tão pesado e forçado que não se sustentava, era um cheiro que lembrava as ilusões da primavera. A terceira que ficou por último apenas no meu conto, pois a criança falou das três de uma vez e ao mesmo tempo, possuía, segundo a criança o cheiro da noite, das estrelas e da lua, o cheiro que sobra quando todas as coisas deixam de ser e agora não são mais, ela possuía o cheiro das estepes..
.
As Donzelas então decidiram caminhar, decidiram partir, decidiram...e foram. A criança, que é louca e apaixonada por todas as coisas decidiu ir junto. Acompanhou as três Damas Flamejantes para longe da Selva, mas ainda muito perto e dentro de uma Selva. A criança que seguia corajosamente decidiu parar e ver o que as Donzelas fariam. Elas continuaram a fazer exatamente as mesmas coisas que faziam antes. Dançar, Cantar e Conversar. Contudo a criança apenas as viu, Chorar, Lamentar e Gritar.

O Choro de uma das Donzelas chamou atenção. Era uma tentativa desenfreada de afogar peixes num grande oceano... As lágrimas vertiam de seus olhos secos e ao invés de irem para foram afundavam cada vez mais em seu coração, como se fossem estacas ou quem sabe adagas.

Foi essa a primeira Donzela com a qual a criança falou. A criança olhou para a Dama que ficou surpresa por tê-la encontrado, e ainda mais surpresa por ser alguém tão dócil. Então a criança afagou a brasa que a Dama tinha como cabelos e mesmo subindo um forte cheiro de carne queimando e a despeito do chiado característico de gordura sendo colocada na brasa, a criança disse:

- Por que tu choras Linda Senhora? Por qual razão mesmo eu que sou cego posso ver essas lágrimas sendo fincadas em teu seio?

- Não choro, pequena e tola criança, não há motivos para tal! Nunca derramei uma só gota de lágrima e tão pouco estaria eu abalada por coisa alguma.

Enquanto a Dama Incandescente falava isto a criança removia as gotas furtivas que fluíam dos olhos incendiados da Dama. Esta dama que tomou isto como espanto, não soube o que dizer a princípio. Não soube o que falar no inicio. Mas a criança que era mais velha que o tempo sabia, sabia e disse:

- Não tenha medo, chore o quanto precisar, mas lembre, você é feita de fogo. Não há lágrima que você possa produzir que irá apagar este fogo que vive em você... Seus olhos viram muita tristeza, mas isso apenas por que só podem ver o que esta fora... Seus olhos não enxergam o que esta atrás deles, não podem ver que o fogo não pode ser retalhado. Não importa a faca que se use, não interessa a chuva que caia.

- Tola criança, fala aquilo que não sabe... aprenda pequena criatura meus olhos não podem ver beleza onde não há, no entanto podem tranquilamente vislumbrar as traições que me foram feitas, cada dor e cada desprezo, cada pessoa que veio e foi, e isso meus olhos acompanharam...

- O Fogo é o Fogo, não pode ser domado e queimará certamente todos os que não souberem lidar com ele. – a Criança abriu um terno sorriso, sorriso que era dono de um calor que alentava, e não fustigava. – Ora...acredita realmente que alguém pode cortar o fogo? Acredita realmente que o fogo que vem de dentro de você pode ser apagado?

- Claro, todas as chamas podem...

- Não as da Alma.

A Dama ficou um tanto atordoada com o que foi dito, e a criança riu, e saiu. A criança sabia, que bastava isso para que a Dama Das Chamas Douradas pudesse começar a caminhar, e assim ver uma canção de verdade, não apenas uma imitação, mas a canção maravilhosa que fazia o Fogo da sua alma brilhar com um Dourado tão majestoso. Agora começa a jornada da Dama Dourada, mas ainda falta as outras duas se unirem na viajem dela. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Conto do Senhor dos Lobos e da Rainha dos Pumas Pt. 4

É chegada a hora, o dia do banquete estaria ali, carne para ser servida e uma caçada bem planejada. Chegada a hora do banquete, a Gralha pensa que vai se refestelar com os restos que a Puma deixará, a Gralha grasna e crocita e sua consorte a Garça vem para o banquete e todo o circo esta armado. O Lobo Imperador fez aquilo que costumeiramente fazia, preparou o campo, cercou a presa e a deixou indefesa. A Puma Rainha, aquilo que sabia, correu e saltou, mordeu a jugular e soltou. Isso teria sido o bastante, mas a Rainha queria mais, e muito mais, ela esperou a Garça mordiscar as feridas da Gralha para que pudesse se aproximar sem ser notada, então feriu como poderia e rasgou ainda mais... Uma Gralha estilhaçada. 

O Senhor dos Lobos era um Soberano de respeito e fez apenas o corte que era necessário, para que a Gralha pudesse voar e lembrar. Não mais do que isto, não menos também. A Rainha feliz como estava riu, cantou e dançou, e planejava rir, cantar e dançar ainda mais. Então a Rainha e o Lobo Soberano foram para o local onde ela encontrou o Lince e o Lobo uivou pela primeira vez. O Lince, um bom Lince, Gentil Lince, mas um Lince e Nada Mais e o Lobo viu isto, e viu mais.

Então o Lince deu seu nome e daria seu selo, se o tivesse, para o Lobo, e o Lobo tomou o nome e a Lembrança do Lince para consigo, e o Lince não era seu inimigo, não era motivos para se preocupar, pois além de tudo o Soberano dos Lobos via o Lince, para além das barreiras dos dias o Lobo via o Lince e olhou para a Puma Imperatriz e nada viu, apenas ela ali diante dele e nada mais. Então, num afago tenro o Lince toma a Puma nos braços e a beija e o Lobo Uiva pela segunda vez, e o Uivo é ouvido nas Terras dos Homens e os Homens Leais e Fieis ao Lobo Imperador ouviram seu clamor. E vieram ao seu encontro. 

Então os Nobres senhores dos Homens, os que aprenderam a falar com os Animais e tinham no Lobo Nobre um amigo e um irmão foram com ele para tavernas e mais tavernas e ele riu e refestelou e então desafiou muitos e muitos outros. Qualquer um acreditaria que o Lobo estava cometendo um suicídio enquanto a Puma Imperatriz estava com o Lince, mas o Lobo dentre os Lobos estava apenas se divertindo, fazendo aquilo que mais sabe fazer, causando dor e bebendo e assim ele pode clarear a mente, e pensar mais a frente e dar mais um passo. 

No dia após o banquete, a Puma sofreu, um Seta de caçador feriu um alguém pelo qual ela tinha apreço e por ter apreço e ser nobre a Puma Sofreu e por sofrer o Lobo também sentiu e o Lobo que era um Soberano de Muitos Mundos se ofereceu para cuidar dos ferimentos e tratar o espírito, mas a Puma se negou, o Ciclo era forte nela e ela queria que apenas aquilo que tivesse que ser fosse. 

A Puma ainda sofreria, e o Lobo sabia, não poderia ver a Puma, mas via que a dor viria. E isso angustiava o Lobo, que ainda amava a Puma e enquanto ele ainda não pudesse ver a passagem do tempo não iria desistir, enquanto ela não desse a Ordem ele persistiria...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Conto do Senhor dos Lobos e da Rainha dos Pumas. Pt. 3

Quando as coisas ficaram ainda mais acirradas entre o Lobo e a Puma, houve um dia em que eles não se viram. Uma Mudança de Lua na qual a Puma não mostrou seu belo sorriso ao Lobo e este não pode ouvir o som de sua voz. O Senhor dos Lobos precisava de tempo para pensar, precisava de um momento para respirar. Os estratagemas da Gralha já chegaram até onde poderiam chegar, agora cada movimento cabia unicamente aos Animais Nobres e estes se posicionavam para o Banquete.

Foi quando então, depois de tanto tempo o Lobo Rei se viu envolto numa névoa de cheiro doce e lascívo. Uma Raposa, que a muito cortejara o Senhor, chega para fazer um convite. A Raposa sabe ser persuasiva e o Imperador dos Lobos observa com calma. Chega a ser engraçado como uma Raposa de Cabelos Vermelhos e Olhos verdes é capaz de fazer até o mais acre dos odores ter notas de mel e lembrança de cravo. Apenas uma Raposa era capaz de fazer isto, e estava diante do Lobo, bela e sinuosa, como sempre fora, e como sempre seria. Mas o Lobo não mais a via como uma presa, ou uma parceira, pois sempre que se aproximava, que a cheirava, lembrava que uma Raposa em nada se comparava a Rainha dos Pumas, que nem ao menos existia parâmetros para a comparação. E o Lobo então deixou a Raposa com sua lascívia e voltou para sua toca, em seus escuros domínios.

Nos domínios do Lobo ele, assim como a Fênix aconselhou, usou seu dom de ver a distância, de ver além e encontrar coisas que ninguém mais poderia encontrar. Mas não poderia ver a Puma, a Puma deveria ser encontrada e conquistada sem auxílio de seus Dons... Nada de visões do futuro, nada de premonições, nada de controle temporal, se a Puma seria sua consorte ou não, apenas ela e o Tempo poderiam dizer, e o Tempo Guarda Muitas Surpresas. Numa destas surpresas do Tempo o Lobo viu um Lince das Planícies que estava próximo a Puma. Um Lince e nada mais, apenas para conversar, apenas um amigo, mas um amigo que a Puma gostava da companhia, um amigo que estava com a Puma enquanto ele, o Senhor dos Lobos, não estava. E isto perturbou o sono do Grande Senhor. O Senhor era velho e experiente e não deveria temer nada. A Puma era leal e honrada e não dava motivos para ele nada temer. Mas ainda assim, um sentimento revolvia dentro do Lobo.

Sentiu ciumes, pela primeira vez em muito tempo, sentiu ciumes, e isto o perturbou, pois ele nada tinha com a Puma, e esta era livre para fazer o que bem quisesse, ir e vir, e isto era o direito dela. Então em seus escuros domínios, resolveu planejar seu banquete. Armou o prato, preparou o lugar, escolheu o dia de Saturno, pois neste dia as coisas que são colhidas são colhidas com mais dor, e as vinganças tem mais sabor. Escolheu tudo e preparou cada momento, ele pretendia surpreender sua Puma, neste dia, com uma jogada de mestre, digna de um verdadeiro Nobre. Ele preparou, e ele sorriu.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Conto do Senhor dos Lobos e da Rainha dos Pumas Part. 2

O Tempo passava e os debates entre a Rainha e o Soberano sempre empatavam. Nenhum dos dois queria ceder, nenhum dos dois queria recuar, e a derrota os impediram  de se ver, de uma vez e para sempre. Nenhum dos dois Nobres poderia aceitar esta ideia, ambos apreciavam a presença um do outro e ambos travavam combates para estarem perto um do outro.

Depois de cada grande embate a Puma Rainha voltava para a sua toca, onde planejava para o dia seguinte, onde pensava sobre o dia que se passara, onde podia comandar seu reino e ser feliz ao lado de seu consorte. Um Leopardo que vivia aos arredores, não tão nobre quanto a Rainha, mas o bastante para tê-la cativado, e quando a Rainha queria descanso podia encontra-lo junto ao Leopardo. Neste instante que a Gralha atacou, neste instante que a Gralha fez seu primeiro movimento, junto a Rainha, a Gralha gritou e gritou e fez a Rainha duvidar, e ao duvidar seu coração ficou dividido e partido. Nenhum Soberano pode manter consortes com corações divididos, mas a Gralha não queria um coração inteiro, para ela apenas meio coração bastaria, ou ao menos era assim que ela imaginava.

A Puma Rainha deixou seu consorte, pelo plano da Gralha, pela presença do Lobo, pela dúvida em si, a Senhora dos Pumas não mais podia sustentar tudo isto, a Rainha dos Pumas precisava pensar e reagir. E foi isto que ela fez. Juntou seu conselho e fez seus conselheiros trabalharem, uma Rainha não pode ser dividida, uma Rainha precisa ser mais forte que todos para poder governar a todos. Então no seu conselho a Outrora Rainha dos Pumas pode falar à sua filha as palavras de Sabedoria que apenas os que viveram mais são capazes. A Outrora Rainha dos Pumas não falou do Lobo ou do Leopardo, mas dela e da Gralha, e mandou ter mais cuidado. E assim foi feito.

No outro lado do Grande Território, o Lobo estava em seus escuros domínios. Em sua caverna, onde nenhum som se propaga e poderia ouvir o seu pensamento ecoando pelas paredes. O Lobo também estava confuso, não sabia por que ou como chegara até onde estava. O Lobo Soberano era de longe mais velho que todos os outros animais a quem comandava, mas ainda assim sempre haveriam coisas novas a serem vistas, coisas que mesmo um Nobre ainda não vira. A Rainha dos Pumas foi uma destas surpresas. Em seus escuros domínios viu que a Puma estava com coração partido, e um Nobre não pode firmar morada em corações estilhaçados, devia esperar, e talvez não existisse espaço para o Senhor dos Lobos quando o coração da Rainha estivesse no lugar novamente, a Rainha deixou seu consorte, mas não a memória dele. Foi neste momento de digressões que a Gralha chega ao lobo, e fala da imaturidade da Puma, que é passional e jovem e que isto pode machucar tanto ela mesma quanto ao Nobre Lobo.

O Lobo ouviu as palavras da Gralha, o Lobo sempre ouvia aqueles que não eram nobres, pois é isto que um Nobre faz, mas disse então que não seria necessário que a Gralha se preocupasse. O Lobo era velho e antigo, e sabia o que fazia, não sairia machucado se era esta a preocupação da Gralha e se não fosse, não deixaria que a Puma saísse ferida. Então o Lobo Soberano dispensou a Gralha e convocou seus conselheiros. Foi quando veio a Fênix o mais antigo dos conselheiros do Soberano Lobo o mais confiável de todos e a Fênix o aconselhou.

Nos Domínios da Puma esta descansava e era ela mesma, e pensava no que a Gralha fez com ela, e isto a enfurecia, e enfurecia ainda mais por ter confiado na Gralha, e então começava a salivar com o sabor da vingança e sua saliva era veneno, e suas palavras eram fel e estas seriam usadas contra a Gralha, para tortura-la, devagar, tortura-la sempre, tortura-la cruelmente. A Puma Rainha não suportava Gralhas que faziam as vezes de Coruja, ou tentavam tomar o lugar de Corvos, A Rainha não conseguia admitir a ideia que alguém se fizesse de algo que não era e tentasse se aproximar para manipula-la. A Rainha estava sedenta, e apenas Sangue aplaca a sede dos Animais Nobres.

Até mesmo o Soberano Lobo surpreendeu-se com as atitudes da Rainha, e esta o ameaçou, mandou o Lobo Alpha ter cuidado para que não sobrasse veneno para ele também. O Lobo que fora anteriormente amante de uma Serpente nunca temeu veneno, mas poderia viver sem essa intoxicação, ao menos por hora, era necessário, ao menos por hora, A Rainha não amava nada além da vingança e quando uma Puma entra em caçada o melhor a ser feito, e deixa-la caçar.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O Conto do Senhor dos Lobos e da Rainha dos Pumas. Parte 1.

Nos tempos antigos, quando os animais ainda passavam sua sabedoria aos homens, e estes não eram arrogantes para ignorar a sabedoria dos animais. Havia um Senhor dos Lobos, o Lobo Rei, que tomava conta de todos de sua alcateia, que protegia todos os que estavam em seus domínios, que reinava calmo e pacífico. Para além dos domínios do Lobo vivia os Pumas, leões do montanha, com uma Rainha para comada-los. Ela era bela como o verão, poderosa como a tempestade, temível como o inverno, afável como a primavera e cruel como o outono. Ela era tudo isto, pois ela podia ser tudo isto.

Desde o inicio dos tempos, os Pumas e os Lobos travaram combates por território, as vezes os lobos venciam, as vezes os pumas, e assim uma terrível guerra era travada entre os dois povos... Então para parar com esta insensatez o Senhor dos Lobos propôs conversar com a Rainha dos Pumas, assim eles chegariam num consenso e todos ficariam felizes. O Senhor dos Lobos era mais velho e experiente, a Rainha jovem e ousada, o debate não teria fim, nunca chegariam num consenso... Nunca...

Mas a Rainha dos Pumas lembrou ao Senhor dos Lobos que nunca é pouco tempo e tempo demais, um tempo indeterminado e que as coisas poderiam se encerrar neste instante, ou talvez depois de muito tempo. O Senhor dos Lobos estava cansado para tamanha discussão, e resolveu prorrogar para outro momento a fatídica reunião. O Destino dos Lobos e Pumas estavam nas mãos deles, e uma inimizade de tanto tempo poderia por fim as duas raças se o acordo não fosse bem trabalhado.

E muitas reuniões foram marcadas, com os Corvos para mediar, e uma Gralha para infernizar, as assembleias terminavam sempre num impasse... Sempre um fazia um movimento que fazia o outro recuar e então pedir para um encontro subsequente. Todas as vezes isto acontecia, sempre se repetia. A cada mudança de lua pois era assim que os que eram antigos entendiam o passar do tempo, o Lobo e a Puma se encontravam, discutiam e conversavam, e então retornavam.

Com o passar do tempo, o Lobo Soberano começou a gostar dos encontros, da presença da Majestade Felina e temeu. Temeu não mais encontrá-la, pois suas raças, inimigas por gerações, não teriam motivos para se cruzarem nunca mais, afinal era para isto que o tal acordo estava sendo firmado. Então o Lobo teve que ser cada vez mais habilidoso, pois, talvez, a convivência fez com que a Rainha dos Pumas agir de modo cada vez mais arrojado, com argumentos cada vez mais difíceis de se vencer, e o Senhor dos Lobos gostava disto.

O que o Lobo Governante não sabia era que a Puma Rainha ao passar do tempo começou a apreciar também a companhia do Lobo, e isto, que era impensável, começou a fazer parte de um dia a dia para ela, e ela sentia falta, e esperava até que a lua fosse mudar novamente para que eles pudessem novamente debater, novamente se ver. Foi ai que a Rainha temeu, temeu que o Lobo vencesse e ela nuca mais pudesse falar com ele, pois não haveria motivos para isto depois, e então teve que ser mais habilidosa e experiente, pois o Senhor dos Lobos se mostrava a cada dia mais arrojado e sagaz, cada vez mais o Lobo estava ficando mais difícil de se vencer.

A Gralha enquanto isto, tentava manipular um e outro, pois é isto que as gralhas fazem, contam bravatas e fazem pilherias. Esta Gralha de olhos castanhos fez tudo o que estava ao seu alcance para sempre estar presente aos debates dos Nobres Animais, sempre estar próxima com gorjeios altos e atitudes mansas. A Gralha então tinha um plano, mas um plano de Gralha não pode ser feito por Gralhas, mas por um Nobre, e então começou aquilo que pretendia. Esta Gralha pretendia muito, pretendia fazer um ninho dentro dos domínios da Puma, mas para isto, a Puma antes precisava ser domada, a Puma precisava ser derrotada, e a Gralha via apenas no Lobo Soberano um alguém que pudesse derrotar a Puma para que então a Gralha pudesse fazer aquilo que ela mais sabe, que é entrar de fininho, quando todos estão fracos e só ai criar morada.

Pobre Gralha, o Senhor dos Lobos já conhecia este truque e a Rainha já imaginava este movimento. Pobre Gralha que tomou para si a atenção dos Animais Nobres, Pobre Gralha que acreditou poder morar sem permissão na Toca da Puma, Pobre Gralha que achou que uma Rainha Pudesse ser Derrotada, Aprisionada e Domada. Pobre, pobre Gralha.