Ela estava naquele lugar escuro e sombrio. Poucas coisas chegavam ali, e as que chegavam, iam para ficar nos cantos escuros e sombrios. Apenas silêncio imperava ali, talvez não total, mas aquele silêncio constrangedor dos que choram baixinho. Um tipo de silêncio que você nunca quer quebrar simplesmente por não fazer idéia o que diria para quebrá-lo.
Nada acontecia ali, sem pássaros a gorjear, sem gatos a miar, cães a ladrar. Não tinha nada, apenas um monte de cantos escuros, cada qual ocupado por um único e solitário ser, aquele que resolvesse sair deste canto escuro, sabia mais por instinto do que por ter sido avisado, que não poderia falar com outros habitantes, talvez mesmo que não soubesse não falaria, o que dizer para alguém que estava ali. Foi quando uma criança cega e louca, com um olho azul e outro vermelho, apareceu cantando e dançando por sobre o chão escuro daquele lugar esquecido. A criança parecia feliz, e isto destoava do lugar. Lá não era um lugar para felicidades, e ela tinha que fazer com que aquela criança conhecesse a miséria tal como ela conheceu.
- Ei, criança que canta como se amasse todas as coisas do mundo. – Disse ela em tom pesado.
- Oi, senhorita que chora como se a vida não te amasse. – Respondeu leve e rapidamente a criança.
- Oi, senhorita que chora como se a vida não te amasse. – Respondeu leve e rapidamente a criança.
Ela teria contraído o rosto se houvesse alguma carne para contrair, teria franzido o cenho também se pudesse, mas como não podia apenas continuou a falar:
- Tola criança cega, você está nos domínios da morte e da melancolia. Nada vem aqui que não seja para morrer, e só sai quando a vida chama novamente para um novo e torturante passeio.
- Não é torturante, senhorita, é apenas um passeio, que todos fazemos, o tempo todos.
- Eu não. Não é de mim caminhar pelo lado de lá.
- Claro que é, apenas acontece que você não se reconhece quando anda do outro lado. Do lado de lá, te chamamos de Escolhas.
- Não é torturante, senhorita, é apenas um passeio, que todos fazemos, o tempo todos.
- Eu não. Não é de mim caminhar pelo lado de lá.
- Claro que é, apenas acontece que você não se reconhece quando anda do outro lado. Do lado de lá, te chamamos de Escolhas.
Ela parou por um instante e pôs-se a pensar no que houve, pôs-se a pensar no que era que estava sendo feito. Como ela não teria ciência dela mesma? Como seria tal coisa possível? Os pensamentos vinham como um turbilhão, mas ela refreou e decidiu manter-se firme na tentativa de mostrar a miséria da vida para a criança.
- Ainda não entendo como você pode sorrir. Você vive num mundo que apenas a dor e a tristeza habita o coração dos homens, e nada além disto você poderá ter. Nem lá, nem cá. Não há motivos para sorrir, nem aqui, nem lá.
- Não, minha cara, você está enganada. – Disse a criança com um riso fácil no rosto. – Você apenas não entende, você deve ter passado tempo demais com os humanos e acabou por não ser mais capaz de observar o mundo como um todo. Venha, ande comigo.
- Não, minha cara, você está enganada. – Disse a criança com um riso fácil no rosto. – Você apenas não entende, você deve ter passado tempo demais com os humanos e acabou por não ser mais capaz de observar o mundo como um todo. Venha, ande comigo.
A criança começou a andar por aquele lugar que não havia nada e que nada acontecia, e para grande surpresa da moradora perene daquele lugar, ali aconteceu algo. Uma árvore podia ser vista. Uma Cerejeira. Toda florida.
- Esta. – Começou a criança apontando para a cerejeira. – É uma das melhores representações de como a felicidade funciona.
- Uma árvore que perde flores? – Ela riu de forma amarga. – Eu poderia dizer que é isso mesmo, flores que caem. Apenas isso e nada mais.
- Você não entendeu mesmo, não é? Esta é uma Sakura perene, e suas flores cairão para sempre. E isso é como a felicidade. Todas as vezes que uma flor toca o chão, é como se um momento feliz pudesse ser alcançado, pois os humanos só podem pegar a felicidade assim, aos pouquinhos. Há momentos que flor alguma toca o chão, principalmente porque as flores de Cerejeira caem apenas a cinco centímetros por segundo. Muito pouco, muito devagar, mas é o bastante para apreciar todo o trajeto e ao cair no chão, cada instante ser saboreado, até que nova flor caia.
- Entendo, mas isso só onde há beleza, se a vida não tiver uma destas árvores então ela será fadada a derrota, uma vida de podridão gera apenas isso, e os humanos estão lotados destas coisas.
- Sim, lotada... – A criança parecia pensativa, até que os seus olhos cegos brilharam, como se ela tivesse tido uma grande idéia. – Venha, senhorita, venha comigo.
A criança saiu dançando em meio ao pântano que era ali. Apenas lixo e podridão, apenas lama. E a criança dançando. Até chegar num corpo de um homem que jazia ali. Ela ficou lá, parada, com um sorriso no rosto.
- Uma árvore que perde flores? – Ela riu de forma amarga. – Eu poderia dizer que é isso mesmo, flores que caem. Apenas isso e nada mais.
- Você não entendeu mesmo, não é? Esta é uma Sakura perene, e suas flores cairão para sempre. E isso é como a felicidade. Todas as vezes que uma flor toca o chão, é como se um momento feliz pudesse ser alcançado, pois os humanos só podem pegar a felicidade assim, aos pouquinhos. Há momentos que flor alguma toca o chão, principalmente porque as flores de Cerejeira caem apenas a cinco centímetros por segundo. Muito pouco, muito devagar, mas é o bastante para apreciar todo o trajeto e ao cair no chão, cada instante ser saboreado, até que nova flor caia.
- Entendo, mas isso só onde há beleza, se a vida não tiver uma destas árvores então ela será fadada a derrota, uma vida de podridão gera apenas isso, e os humanos estão lotados destas coisas.
- Sim, lotada... – A criança parecia pensativa, até que os seus olhos cegos brilharam, como se ela tivesse tido uma grande idéia. – Venha, senhorita, venha comigo.
A criança saiu dançando em meio ao pântano que era ali. Apenas lixo e podridão, apenas lama. E a criança dançando. Até chegar num corpo de um homem que jazia ali. Ela ficou lá, parada, com um sorriso no rosto.
- Você alcançou apenas uma carcaça, criança que ri.
- Olhe para a carcaça, dama que chora.
- Apenas um corpo morto. – Disse ela calmamente.
- Olhe atentamente.
Neste instante ela percebeu algo como uma pequena flor nascendo no peito do corpo do homem morto. Uma Lótus.
- A Lótus é uma flor que cresce nestas situações adversas. Cresce na sujeira, e na imundice. Até mesmo um corpo morto serve de nutriente para a renovação. – A Criança olhou no fundo das órbitas Vazias da Senhora que Mora do Lado de Lá. – Cada coisa se renova ao passar do tempo, e por mais que as coisas pareçam perdidas, e podres, só ter um pouco de fé, que você consegue observar a felicidade nascente.
- Olhe para a carcaça, dama que chora.
- Apenas um corpo morto. – Disse ela calmamente.
- Olhe atentamente.
Neste instante ela percebeu algo como uma pequena flor nascendo no peito do corpo do homem morto. Uma Lótus.
- A Lótus é uma flor que cresce nestas situações adversas. Cresce na sujeira, e na imundice. Até mesmo um corpo morto serve de nutriente para a renovação. – A Criança olhou no fundo das órbitas Vazias da Senhora que Mora do Lado de Lá. – Cada coisa se renova ao passar do tempo, e por mais que as coisas pareçam perdidas, e podres, só ter um pouco de fé, que você consegue observar a felicidade nascente.
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