segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Rei e o Abraço de Iku.

Num tempo ancestral, quando as coisas eram diferentes das coisas que são, num palácio feito de uma Pedra Negra e polida até que as paredes fossem como espelhos. Neste palácio vivia um Rei Feiticeiro que sabia de diversos segredos, e conhecia diversas histórias. Ele sentava sobre um trono feito de Diamante Sangue e aguardava a passagem do tempo. Certo dia um visitante chegou a ele, requisitando uma audiência. Este visitante queria algo que ele sabia que o Rei saberia. Ele queria um jeito de escapar de Iku.
- Rei Feiticeiro, sei que você sabe os segredos de escapar de Iku, então peço humildemente que me ensine.
O feiticeiro conhecia esse segredo, ele foi o homem que deu a Ifá os Búzios e ensinou a ouvir os Passos de Iku para que ele escapasse sempre que precisasse. Também ensinou a Taiwo e Kehinde uma música que faria com que quem quer que não saiba tocá-la dance sem parar. Isso fez com que Iku não conseguisse alcançar nem um, nem outro.
- Sim, sei segredos para se fugir de Iku, mas cada segredo só pode ser usado uma vez, então não vou te ensinar a tocar flauta, ou jogar búzios, ou ouvir os passos silenciosos. Vou te ensinar algo terrível, mas se você quiser se esconder isso é o que terá que fazer. Vou te ensinar o Obayfó, que é um ritual que bebe da vida dos outros e enquanto você viver assim você poderá ficar longe de Iku durante a noite, e durante o dia você poderá se esconder dentro de um Baobá oco. Agora lembre. – O Rei aumentou a voz. – Quando terminar o Obayfó, você não estará nem morto nem vivo, e nem será humano, ou egun, será algo que está fora disso.
Após ter entendido como o ritual funcionava, o Visitante foi visitar uma vila para assombrar. Partiu para uma não-vida eterna, mas era isso que ele queria, então foi isso que o Rei deu. O Rei passou tempos refletindo sobre dar coisas, e foi quando depois de três dias sem sair do trono para nada, nem comer, nem beber, um visitante chega na Sala do Trono. Um visitante nefasto e que todos fogem quando ele se aproxima.
- Há quanto tempo, Iku, o que desejas em meu castelo? – Perguntou o Rei com um sorriso no Rosto.
Iku olhou o rei de cima a baixo, viu uma figura negra como obsidiana, com um sorriso largo no rosto e olhos de cores diferentes. Um era da cor do mar de Yemonja, o outro era vermelho como o fogo de Esù nas forjas de Ogun. Ali estava alguém que era mais velho que ele mesmo, pensou Iku, alguém que tem um Odu que ele mesmo desconhece, mas que Olorum certamente deu com um propósito.
- Salve Rei que tem um nome que não devo pronunciar, vim reclamar contigo pelas coisas que tens feito.
O Rei apenas observou e nada falou. Vendo que ele ficaria assim por muito tempo, então Iku resolveu prosseguir:
- Você faz com que as pessoas escapem de meu abraço, e com isso fiquem na terra por mais tempo. Você sabe do meu Odu, e sabe que eu tenho que tomar todas as cabeças. Então por que você faz isso? – Iku parecia com raiva, e falar desse modo com o Feiticeiro Rei era algo que mesmo ele deveria fazer com cuidado.
- Sinto, meu nobre Iku. – Disse o Rei enquanto, para o espanto de Iku, se abaixava e punha a cabeça no chão. – Mas é isso que faço, se alguém vem em minha casa e pede algo, é porque Olorum permitiu e guiou os pés dos desesperados até chegar a mim. Sei que a morte é necessária para o ciclo, e sei que as pessoas fogem dela, e sei mais ainda que aquele que vive na morte vive só.
O Rei respirou fundo, e pensou sobre as coisas que ele falava, muito do que ele dizia para Iku podia ser aplicado a ele mesmo, lembrou que a morte é sobre ciclos. Todas as coisas morrem, morremos a cada momento, e ainda permanecemos. Morremos a cada nova escolha que tomamos, morremos sempre que decidimos algo, morremos sempre alguém nos esquece. Morremos um pouco quando os dias nascem e quando as noites caem. Estamos aqui para isso, mas sempre buscamos modos de viver para sempre. Por isso alguns mortais chegam ao castelo do Rei Feiticeiro, para pedir um meio de viver para sempre. Então o Rei ensina da forma mais difícil possível a necessidade de Iku no mundo, a necessidade que as coisas partam para que o novo surja. Ele ensina isso dando vida para os que pedem. Assim, eles poderão ver tudo passar e eles permanecendo, estagnados, presos numa não escolha. Ser impedido de morrer, é ser impedido de viver.
- Nobre Iku, faço apenas o que tenho que fazer e caminho apenas por onde posso caminhar. Sinto se lhe desagradei, mas fiz isso porque era isso que tinha que fazer. Não se preocupe, as cabeças que te impedir de pegar hoje, um dia se arrastarão por sobre os seus pés e implorarão que você as leve, e nesse momento, elas poderão voltar a viver, para enfim morrer.
Nisso o Rei levantou do seu trono, caminhou até o seu visitante, e abraçou de forma terna. Iku não pode evitar as lágrimas, mesmo sendo um guerreiro, ele não era invulnerável. O Rei por outro lado sabia que esse era o meio mais seguro de permanecer vivo para sempre. Cativar alguém com gentileza e viver num coração e na memória é o melhor jeito de ficar vivo. Pois assim ele poderia continuar fazendo escolhas, e continuar morrendo, mas para cada morte que ele vivia, o Rei que cativou o coração da Morte, sempre poderia viver em suas lembranças, e nas histórias contadas ao redor da fogueira.

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