Clang, Clang, Clang.
O som das batidas era constante. Clang, Clang, Clang. Numa forjaria o ferreiro trabalhava solitário. Seu único companheiro, o calor do fogo e as coisas derretidas ao seu redor. Este ferreiro, que herdara de sua adorada mãe o ofício, não forjava coisas comuns de se ver por ai. Não forjava armaduras, estribos, atiçadores, elos de corrente, ou o que quer que você acredite que vá encontrar numa ferraria. Não, este ferreiro forjava outras coisas. Ele forjava sonhos, forjava dores, forjava homens. Batendo com força em algo que parece frágil o ferreiro vai dobrando as coisas em outras.
Então em certo dia um pequeno corvo resolveu visitar o ferreiro. Ele observou como dava para observar, aproximou-se como podia e ficou imaginando o que realmente o ferreiro fazia. Como aos corvos fora dado o dom das palavras, perguntara então o Corvo ao Ferreiro:
- O que realmente você está fazendo? Vejo que dizes que forja homens, mas só lhes atribui dor e sofrimento. Destrói cada pequeno pedaço que eles trazem consigo como matéria bruta, derrete tudo como se fosse ferro e joga novamente por sobre a bigorna, apenas para causar ainda mais dor!
O ferreiro suspira ao perceber o pequeno corvo. Ele se agradava da presença do corvo, mas pensou que poderia transformá-lo numa espada verdadeiramente afiada, algo que talvez não fosse a necessidade do corvo naquele momento. Então respondeu vagarosamente ao corvo, pois mesmo sendo rápido com as mãos a bater o ferreiro era lento e cuidadoso no falar. Como se fosse um tecelão, ele fiou as seguintes palavras:
- Não se pode criar por sobre terreno construído. Não se pode construir nada sobre edificações erigidas. Então tenho que destruir cada pequeno pedaço de fé que a pessoa tinha. Cada preconceito também, principalmente aquele que ele tinha sobre si mesmo. Tenho que derreter as emoções para que elas fiquem tão líquidas que a efemeridade delas faça com que exista realmente um espaço para se criar algo novo. Num mundo de água e fogo, a constância é o ferro. É aquilo que solidifica e a partir disto posso dar vazão e sentido a tudo que crio.
- Construções? Achei que era um ferreiro, não um maçom, dirá também que é carpinteiro e pintor? Dirá o que mais? Não creio que algo de bom saia disto. Não imagino como poderia um ferreiro forjar um homem.
O ferreiro sorriu, estava começando a forjar o corvo também... Primeiro vem o fogo...
O ferreiro sorriu, estava começando a forjar o corvo também... Primeiro vem o fogo...
- Sim, é possível, tanto que forjo, forjar pessoas é o que faço, principalmente por que não se pode forjar ninguém...
- Então você é um farsante? Você se diz um ferreiro de pessoas, mas diz que não pode forjar ninguém, então apenas aplica dores as pessoas e se satisfaz com aquilo que vê! – O corvo parecia irritadiço.
- Sim, faço apenas isto, apenas atiço o fogo, causo a dor da angústia e tempero no frio do desamparo. Como cada pessoa é única faço apenas com que as próprias angústias sejam usadas para causar o aquecimento e o derretimento. Então deixo que seja legado ao desamparo premente na vida e este o esfrie para que a angústia possa ser reavivada. Esse processo deve ser repetido indefinidamente.
- Indefinidamente? Então quando acaba o processo da forja?
- Nunca. As pessoas estão se forjando de forma constante. A angústia é uma constante na vida humana, embora ainda existam aqueles que tentam aplacar a sua própria angústia na ilusão da felicidade comprada. Comprando pequenas pílulas de felicidade em pó a angústia é desviada, mas o desamparo não é aplacado por força alguma, e as vezes ele enregela tanto que começa a quebrar as pessoas.
- Não se pode ser feliz então? Não se pode nunca encontrar a felicidade? A vida é uma constante e eterna tortura?
O Ferreiro riu novamente, agora esfria. Bom, corvo, muito bom.
- Não, não é uma tortura eterna. A angústia está no mundo tanto quanto o desamparo, mas só se pode reconhecer a angústia pela primeva felicidade. Algo tão antigo e tão poderoso que passamos a vida buscando sua presença novamente. Quando estamos na angústia, vivemos a ausência desta primitiva forma de prazer e nos abraçamos com tudo aquilo que vagamente lembre nosso primeiro objeto de satisfação. Posso afirmar então que apesar de nunca ser possível obter novamente aquilo que lhe foi tolhido, pequeno corvo, você satisfaz esses pequenos anseios e isso te deixa alegre, mas sem a angústia também não existiriam mais os pequenos anseios a serem satisfeitos.
- Compreendo, quer dizer que é preciso sofrer para ser feliz, é isso? Quer dizer que sem sofrimento, não há como você andar e se mover, não é?
Por hora o ferreiro teve o que procurou com o corvo, ele pode ir, hora de encerrar a conversa...
- Sim, pequeno corvo, sem dor não existe alegria.
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