Havia passado quase um ano desde o Grande Torneio. Um homem
despido de armaduras venceu o torneio, e fez com que o Cavaleiro de Prata
pensasse sua vida e sua posição frente o mundo. Sua maça e sua espada foram destruídas,
e sua armadura despedaçada. Ele precisava voltar às suas atividades como
Cavaleiro e para tal, ele tinha que possuir uma armadura nova. Enfrentar o
mundo de peito aberto era algo difícil de se fazer, e mesmo cavaleiros lendários
precisam de momentos de descanso e uma ilusão de proteção e segurança.
Mesmo assim o Cavaleiro de Prata havia mudado, ele não
precisava mais de uma armadura comum, ele precisava de outras coisas agora,
outra coisa, algo que se molde a ele e se enquadre na sua nova vida, no seu
novo modo de agir. Tão parecido com o antigo, e tão diferente. Ele precisava de
algo mutável como ele.
Nisso o Cavaleiro soube que num reino longínquo, próximo de
um Deserto de Areias Negras morava um Ferreiro que forjava qualquer coisa. Ele
decidiu que deveria viajar e visitar este Ferreiro. Ver que armadura ele
poderia escolher que combinasse tão bem com sua nova forma e vida. Algo novo,
algo que o descrevesse.
A jornada era longa. A cavalo, seis dias demoraria. Ainda
assim o cavaleiro era alguém resoluto, não iria se deixar abalar pela
distância. Ele rumou, e como em todas as viagens, encontrou diversas pessoas ao
longo do caminho, diversas pessoas precisando de um herói, de um cavaleiro de
armadura brilhante, e ele era esse cavaleiro sempre que necessitado, mesmo sem
armadura, mesmo sem espada. O cavaleiro havia percorrido apenas metade do
caminho, mas já haviam passados quase um mês, e quanto mais o cavaleiro andava,
mais parecia que se distanciava do destino.
Na manhã daquilo que seria o terceiro mês desde quando o
cavaleiro havia deixado a sua cidade e partido para encontrar o Ferreiro,
enquanto ele cavalgava tranquilamente, viu uma Criança Cantando e Dançando
pelas bordas de uma Floresta. O Cavaleiro sabia das lendas daquela floresta,
diziam que lá havia um Dragão e uma Elfa. Ninguém entrava na Floresta das
Lendas, nem heróis, nem crianças. O Cavaleiro então foi mais uma vez fazer sua
função de Cavaleiro Lendário que era. Desviou do seu caminho, desmontou e
começou a caminhar em direção a Floresta para resgatar a criança.
- Criancinha, criancinha, é perigoso estar ai. – Disse o
Cavaleiro enquanto tentava alcançar a criança que dançava na borda da Floresta.
- Perigoso é ser atado pelas palavras alheias, e conduzido
pela vontade do outro. – Respondeu a criança enquanto dançava uma música que
ninguém ouvia.
- Como... – O Cavaleiro hesitou por um momento ao ver que os
olhos da criança, um azul e outro vermelho, eram baços, como se ela fosse cega.
– Você é cega, criança?
- Cega? Como poderia
eu ser cega se vejo perfeitamente o coração daqueles com quem converso, e
conheço os desejos ocultos de todos os corações. Inclusive o seu, Cavaleiro. –
A criança disse isso enquanto entrava na floresta.
O Cavaleiro foi atrás dela, a criança deveria ser louca, e
por ser cega ela estaria ainda mais perdida nessa floresta. Ele viu a criança
correndo em meio a uma sebe. O cavaleiro sabia que aquilo não podia ser bom.
Ele embrenhou-se naquele espinheiro e tentou alcançar a criança. Quanto mais
ele andava, mais se rasgava. Os espinhos eram afiados, e rasgavam a pele.
Primeiro cortes finos, e depois cortes mais fundos.
Imagens começaram a passear pela cabeça dele. Diversas
imagens. Lembrou do Torneio, lembro dos dias de aprendiz. Lembrou que ele
sempre deveria fazer algo. Ele tinha obrigações, obrigações com o Reino, com os
outros cavaleiros, e com todos ao redor. A medida que o sangue fluía, ele via
cada vez mais de suas obrigações vindo à mente. Nesse momento ele lembrou que
se tivesse com sua armadura prateada, esses espinhos não iriam feri-lo. As
armaduras servem para aparar as dores da vida, e os espinhos no caminho sempre
são inevitáveis. Por isso as pessoas se revestem de coisas como armaduras, e
tentam usá-las para reduzir seus ferimentos, ao passo que estas fazem com que
fiquemos parados.
O Cavaleiro Prateado via ainda a imagem da criança em meio
aos espinhos da Sebe. Ela parecia dançar, e cantava como se não houvesse
amanhã, cantava uma canção que não dava para reconhecer. E ele ainda estava
atrás dela e gritava:
- Criancinha, pare, você vai se machucar!
- Quem não se machuca ao andar pelos caminhos da vida? – A Criança
falava enquanto andava. – Mesmo assim estes espinhos são apenas para as pessoas
que se prendem em seus medos. Eles são feitos para cortar covardes. Os bravos
enfrentam e não se cortam.
- Como alguém poderia não se cortar nesse mar de espinhos?
A criança parou um pouco a frente do Cavaleiro e apontou
para cima. Um sorriso calmo habitava o rosto da criança. Um sorriso de alguém
que parecia saber de alguma coisa.
- Não dá para ir por cima. Não sou como um pardal!
- Não é por que acredita que deve algo a esta forma. Não é
por ser devedor de alguém e por isso veste essa carcaça e não consegue vestir
nenhuma outra.
- E como eu vestiria outra pele que não a minha?
- Arranque essa velha... livre-se desse seu eu antigo para
poder ir adiante.
- Assim eu não terei mais que enfrentar espinhos.
- Estes não.
O cavaleiro pensou sobre isso e começou a andar novamente
pela Sebe. Agora mais resoluto, agora ele fazia isso por ele, e não por que
tinha que fazer, ou porque foi pedido para fazer. Agora ele fazia porque era o
que ele queria fazer. E a cada passo que dava os espinhos iam ainda mais fundo
na sua pele, e removiam grandes pedaços dele. E deixavam a mostra seus músculos
sem pele. Foi quando algo fantástico começou a acontecer, algumas penas
começaram a ocupar o lugar que antes era pele, onde antes era apenas pele agora
uma penugem. Penas marrons, negras e brancas foram aparecendo. Os braços
virando asas, o rosto tomando outro aspecto. Ele era como uma Coruja. Algo
diferente do que era, e agora diferente do humano. Como Coruja viu que não
fazia mais sentido estar ali no chão, quando podia voar. Alçou vôo e do alto
ainda podia ver a criança, que havia subido num alto carvalho. O Cavaleiro
agora Coruja foi falar com a criança, talvez para se despedir talvez para ter
alguma explicação, mas a criança apenas disse uma coisa enquanto sumia em pleno
ar:
- Aqueles espinhos não mais te ferirão, agora você está
aproveitando a liberdade e toda a insustentável leveza que ela traz consigo.
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