O Salão estava escuro, como sempre fora, mas desta vez parecia ainda mais sombrio. O piso de mármore branco, refletia as estátuas e os quadros. O candelabro no centro do salão, com suas luzes apagadas pendia de forma triste, apenas para marcar e selar o abandono do lugar. Triste lugar vazio. No fundo do Salão estava o trono do Grande Rei Feiticeiro. O trono não estava vazio entretanto o Rei Feiticeiro estava lá, quieto, silencioso, como se estivesse morto. Alguém poderia até mesmo dizer que ele estava morto, mas tal coisa não seria possível. Foi quando no Salão do Imortal Rei Feiticeiro entrou um homem com um sorriso bobo no rosto.
- Quem é você? – Disse o Rei um tanto desconfiado. – O que lhe traz nesse lugar de abandono?
- Sou um mercador. – Falou o homem com o sorriso bobo, que vestia uma roupa de cetim branco, e possuía um chapéu vermelho. – Estou aqui para vender coisas, e comprar outras.
- Não vejo mercadorias convosco, então o que trazes ao meu salão? – O Rei Feiticeiro já havia visto mercadores de coisas maravilhosas antes, ele poderia estar vendendo algo mágico, ou um segredo antigo, e essas coisas sempre são boas para se ter.
- Sou um mercador de sonhos. – Disse o Mercador com o seu sorriso deixando de ser bobo para ser algo sinistro. – Troco pequenos sonhos quebrados por devaneios novos em folha. Quero apenas um pedaço de coisas perdidas, e um pouco de dor.
- Minhas dores são importantes para mim, sem elas eu não teria chegado até onde cheguei. – Disse o Imortal. – Eu não tenho nada que seja de seu interesse.
- Acredita mesmo nisto? – Disse o Mercador se aproximando. – E se eu dissesse que os sonhos que entrego são sonhos que se realizam? E se eu dissesse que os sonhos que te trago são sonhos sonhados por pessoas de para além das bordas deste lugar, e que ao você ter para si um desses sonhos, você poderia torná-lo em realidade?
O Rei Feiticeiro sabia do que ele estava falando. Ele era um mercador de desejos. Ele pode entregar um desejo que se fará verdade, um sonho que pode se realizar. O Imortal só poderia pedir por duas coisas, e nenhuma destas ele sabia exatamente como conseguir. Uma dessas coisas seria o segredo para encerrar a sua vida, e a outra seria uma companhia para seguir o árduo caminho junto a ele. Apenas isso interessava o Rei, e ele sabia que o Mercador deveria ter uma destas consigo.
- Que seja, Mercador de Fantasias. Diga o que queres e eu te direi o que quero, se você tiver algo que desejo, poderá levar consigo aquilo que pedires. – Disse o Rei de forma resoluta e rápida.
- Quero apenas a face daquela pequena pessoa que te abandonou, mas que ainda reside em seu coração. Quero nada além do nome da Rainha que você perdeu para o Rei Troll, não desejo coisa alguma além do lugar onde você plantou a Roseira de Rosas eternas. – Disse o Mercador rindo-se mais do que qualquer outra coisa, então fechou. – Em troca te concedo uma companhia duradoura.
O Rei calou-se por um instante. Todas estas coisas eram coisas que ele guardou no seu íntimo. Eram coisas que ele tinha como importantes e insubstituíveis. A Roseira de rosas eternas foi criada pelo feiticeiro para presentear seu primeiro amor. As rosas nunca morreriam enquanto o amor continuasse vivo. As rosas seriam eternas enquanto o amor as alimentasse. Ele nunca chegou a presentear a sua amada. Ela o repudiou e fugiu para longe antes de receber a primeira rosa. Ela correu para longe quando soube que um imortal a amava, e que este imortal era o mesmo que a abandonara por quase quatro mil anos e milhares de reencarnações.
Ele também não poderia esquecer o nome daquela que ele perdeu para o Rei Troll. Pois o nome era tudo o que ele tinha. Uma Brilhante rainha, que o Feiticeiro fez com que o Troll Rei casasse, simplesmente para fazer valer um velho pacto, um antigo tratado. O nome da Rainha que numa língua antiga era o nome de uma flor que honra os que já se foram. Uma flor tão bela quanto a Rainha, que possuía um cheiro que ele sempre lembraria. Não era um perfume doce, ou algo mais acre, era um cheiro que lembrava a imensidão, lembrava o mar e lembrava a tranqüilidade. Um cheiro de uma pessoa amada, que agora estava com o Rei Troll, apenas por que acredita que se ela encontrar-se com o Feiticeiro, este morreria finalmente.
E por último, o rosto de mais uma das que deixaram o pobre Feiticeiro, mas que ainda reside em seu coração. Ele não poderia fazer tal coisa, ele não poderia viver sem lembranças. Afinal, se ele tem que viver para sempre, então ao menos que seja com recordações de tudo o que já viveu. Esta dama brincou com o coração imortal do feiticeiro, e foi para longe, mas o imortal que aprendeu a viver com as sobras de carinho que lhe eram jogadas ao longo das eras, se apegava nos breves momentos de felicidade que ambos viveram. Um momento fugaz por vezes é o bastante para fazer valer um século de dor. Livrar-se disto seria difícil.
- Então, Imortal Rei Feiticeiro, aguardo vossa resposta, pois ao contrário de vossa alteza, a imortalidade não me sorriu e temo que não tenha como passar séculos aqui enquanto o senhor pondera a decisão.
- São coisas importantes. – Disse o Rei finalmente, deixando passar um suspiro de cansaço. – Mas uma Raposa de olhos bonitos uma vez me disse que para começar novas histórias antes eu deveria deixar as antigas passarem. Farei isso. Tome para ti aquilo que pedes, e deixe-me o que prometeu.
O mercador riu, e removeu o chapéu, virou de costas e foi para longe. Sua roupa de cetim agora era negra como a noite, e seu chapéu um capuz. Ele atravessou o salão, enquanto se fundia com as sombras desaparecendo até nada restar. Quando atravessou todo o caminho funesto. Nada restou no salão além das coisas que já estavam lá, e o Rei. O rei riu depois que ele foi para longe. Entendeu o que o Mercador deixara para ele. Ele mesmo. Uma companhia que duraria para sempre, e não seria fácil passar toda a eternidade se odiando, tanto pelas escolhas que fez, quanto pelas coisas que teve de fazer. Sabia que a Rainha que possuía um nome de flor foi para longe por escolha. Que a dama do roseiral decidiu não se ferir com os espinhos que todo amor possui. Sabia que a dama que brincou com seu coração não fez por mal, mas apenas por que não conseguia ver o Rei sem pesar por sobre ela mesma a idéia de que alguém como o Rei nunca admiraria uma pessoa como ela. Sabia que agora que todas essas coisas foram para longe ele poderia começar uma vida nova. Sem alguém que ele chamava de suave veneno, sem alguém que ele chamava de minha criança, sem alguém que ele chamava de minha princesa. Nada disso, e talvez uma vez mais tudo isso, mas isso é algo que ele teria que descobrir com o tempo. Neste Salão agora Negro.
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