A repetição era infernal. Gotas caindo no piso de pedra. O
lugar era escuro, úmido, fétido. Ele não sabia por quanto tempo esteve ali.
Apenas lembra de ter ido parar lá. Uma masmorra. Os outros presos se foram há
muito, apenas alguns companheiros silenciosos estavam lá. Cadáveres dos antigos
prisioneiros, que os carcereiros nem se deram ao trabalho de remover dali. Ele
estava suspenso pelos pulsos, já machucados, em carne viva. Feridas purulentas
começavam a se instaurar nele. Ele só sofria.
Ele nem lembrava o que tinha feito. Não conseguia recordar
que crime seria tão terrível para pô-lo naquela parte terrível do Inferno. Apenas
estava lá. Havia marcas de chicotadas nas costas dele. Ele estava magro, e não
comia nada haviam dias, também não lembra a última vez que bebeu alguma coisa
que não fosse seu próprio suor, que escorria em parcas gotas pela sua testa.
Nem saliva ele tinha mais. E lá ele estava. Não sabia se havia sido condenado,
ou se ainda seria julgado, não sabia se alguém iria defendê-lo, ou mesmo
acusá-lo. Apenas estava lá. Triste. Solitário. Foi quando outro som começou a
ecoar pelo ambiente. Algo diferente das gotas de água que caiam do teto, e
estavam longe demais para serem lambidas. Era um som de um zumbido. Um zumbido
alto, moscas. Muitas moscas.
Ele deveria finalmente ter enlouquecido, mas isso ao menos
já era um sinal, logo ele não precisaria mais ter que lidar com a cruel
realidade que o mantinha preso, e poderia viajar nos devaneios de uma mente
doentia para longe. Engraçado, ele também não lembrava da última vez que havia
dormido. Talvez nunca tivesse dormido. Enquanto esteve lá, talvez apenas
tivesse sofrido. Então em meio a esses devaneios, uma porta se abre. Não há luz
entrando na masmorra, tudo era escuro e permanecia escura, agora apenas um som de
moscas se somava aos habituais, e então passos. Talvez alguém tenha vindo
visitá-lo.
- Olá. Prisioneiro.
- Oi! Quem é você! Pode me tirar daqui! Ou ao menos dizer
por que estou aqui! – Estas eram as primeiras palavras ouvidas pelo prisioneiro
em muito tempo, ele não podia se conter em alegria, medo e espanto.
- Sou o Carcereiro Daqueles Legados à Miséria. Sim, posso
dizer por que você está aqui. – A fala do Carcereiro se mesclava com o zumbido
das moscas. – Você foi posto aqui pelas pessoas que um dia chamou de amigos. Além
de ter se posto aqui você mesmo, é claro!
- Meus amigos me puseram aqui? – Ele que nem sabia o nome
estava confuso ao perceber que também tinha amigos, e que eles o legaram a esta
prisão terrível. – Me diga, por que meus amigos me jogaram nesse lugar?
- Eles te jogaram aqui porque você é foi escolhido para vir
para cá.
- Como assim? Houve alguma espécie de sorteio? De escolha?
- Claro que houve uma escolha, não apenas deles, é claro,
mas houve. Você foi escolhido para
ocupar este lugar de ostracismo e sofrimento em detrimento de todos os outros.
Você é o mártir deles.
- Eles me jogaram para cá para que não viessem?
- Sim. E você aceitou, talvez não de tão bom grado assim,
mas aceitou. Aceitou ficar nas sombras, e aceitou que pusessem os ferros em
seus pulsos, e aceitou que açoitassem suas costas.
- Que homem louco aceitaria todas essas coisas de bom grado?
Silêncio. Nenhum som pôde ser ouvido, nem das moscas, nem do
carcereiro, nem das gotas de água que copiosamente caiam. Nada podia ser ouvido
além do pensamento do Prisioneiro. Ele começou a lembrar. Começou a lembrar que
possuía amigos, eles sempre caçoavam dele. Lembrou que os seus amigos riam dele
por coisas que eles mesmos faziam, apenas porque tinham que dizer que alguém
era tolo, e ele era o que deveria ser o tolo. Era apenas porque era o mais
frágil. Porque era...
- Sim, parece que você está se lembrando... – A voz do
Carcereiro parecia ecoar em meio aquela imensidão vazia. – Isso é um começo.
- Sim, lembro de algumas coisas, mas você disse que eu fui
aquele que escolheu vir para cá, como eu escolhi se eles é que fizeram tudo? –
As lágrimas dela começaram a brotar, assim como a voz a aos poucos mudar.
- Você... teve... medo... – As pausas da voz dele eram ainda
mais aterradoras, mas pela primeira vez em muito tempo ele começou a se sentir
ofegante, e não apenas apático, e começou a se sentir melhor. Ele começou a se
sentir cada vez mais outra pessoa.
Mais silêncio. Ele se viu novamente apanhando, novamente se
escondendo. Ele se viu fugindo, pois é isso que se faz quando se luta contra o
mundo, foge. Principalmente por se achar merecedor disso, se achar merecedor
das coisas ruins. Ele se sentia cada vez pior, e cada vez mais merecedor dos
abusos. Se todos caçoavam dele, eles deveriam estar certos... Caçoavam dele por
tudo, principalmente por ele não ser ele.
- Não é fácil não ter medo quando todo mundo está contra
você. – Ela falou em meio a lágrimas. – Não é fácil ficar de cabeça erguida
quando todos dizem que você está errada.
- Errada... – A pausa do Carcereiro parecia que iria durar
uma vida toda. – Sim, você começa a se enxergar. A parte mais difícil começa
agora.
- Qual é a parte mais difícil?
- Quebrar esses grilhões, e sair por aquela porta.
O novo silêncio era algo esperado agora. Nessas pausas ela
podia pensar, podia parar e olhar para si mesma. Ela era uma leoa, e estava
presa por pequenas correntes de ferro. Ela tinha como se livrar, mas era
difícil. Essas correntes não eram só feitas de ferro, mas de vergonha, medo e
rancor. Todas essas coisas são complicadas de se partir.
- Sim, são complicadas. – O Carcereiro falou como se estivesse
dentro da mente dela. – Mas não impossíveis. Mais força, e talvez você seja uma
das poucas pessoas a abandonar esta prisão.
- Você não vai tentar me impedir?
- Estou para guardar a prisão, não os prisioneiros. Não me
importo com o destino que tomes, não me importo para onde vais, desde que vá, e
abra a vaga para um próximo que será preso neste mesmo lugar.
- Há mais vindo?
- Sim... enquanto houver tempo, dor, rancor e medo. – Disse o
Carcereiro calmamente. – Enquanto alguém fizer com que outros paguem dívidas
que não possuem, este lugar está aqui para receber prisioneiros como você.
- Então vou sair daqui e derrubar essa prisão! – Ela falou
com os dentes cerrados e um sorriso selvagem. As correntes cederam e ela
avançou no carcereiro. Apenas para ver que não havia nada diante dela. Apenas a
escuridão e uma porta pesada de madeira velha.
Quando ela terminou de atravessar o portal, o Carcereiro já
terminava de aprontar a masmorra para seu novo prisioneiro. Era isso que os
demônios faziam afinal, preparam, punem e testam, até que as pessoas passem nas
provações, e cresçam... Ou elas falhem de vez e morram. Não importa para o
Demônio, principalmente porque ele não está em lugar algum...
Era isso, tudo o que ela pensava quando acordou naquele dia
de domingo. E decidiu que mesmo que toda a história fosse só um sonho, ela
faria esse sonho valer e ser diferente. Ela saiu da cama contente e decidida,
tão contente e decidida que nem reparou que embaixo da cama, ainda tinha uns
pedaços de uma enferrujada corrente.
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