quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Visões.

Parado sobre o alto da colina estava lá um princepezinho, com um olhar triste, distante e contemplativo, ele fitava a estrada de acesso ao seu palácio. O palácio onde morava o principezinho ficava no alto de uma montanha, tão alta que podia-se ver todo o reinado de lá. O pequeno príncipe, vestido com um garboso colete negro e prata, fitava o oriente, que era de lá de onde vinham os peregrinos e as caravanas. Olhava para todas as coisas e nada deixava escapar. Olhar curioso, sempre atento sempre vigilante. O príncipe destas terras, que usava um arco verde obre um céu negro como brasão, gabava-se de poder ver todas as coisas e sempre inquirir sobre tudo o que acontece.
Até que um dia, o pequenino infante ficou inquieto com a visita de um peregrino no mínimo inusitado. Uma criança cega, vestida em andrajos, de pés no chão e um sorriso enorme no rosto andava em meio a estrada nevada. Ela não apenas andava, mas saltava e cantarolava. Não apenas saltava e cantarolava, mas fazia isso tudo sozinha. Sem ninguém por perto, ninguém para amparar-lhe a cegueira, ou qualquer um que dissesse para onde ela estaria indo, ou mesmo um bastão de apoio, para mostrar o caminho a seguir. A criança cega simplesmente caminhava, cantava e saltitava, por vezes até ensaiava uns passos de algum tipo de dança estranha de países distantes. A figura era tão inquietante ao pequeno principezinho, que este teve que ter com a criança. Ordenou aos guardas que a pegasse, e levasse a criança até a ele. E assim os guardas fizeram.
Diante do príncipe a criança ainda cantarolava baixinho, cantarolava não, solfejava algo, algo que ninguém compreendia ao certo o que era, mas era doce e isso todos tinham certeza. O pequeno príncipe fala então com toda a autoridade que apenas um nobre sabe ter.
- De onde vens e para onde vais? - Começou com voz firme - Sabes que em meu reino entram apenas os que vão tratar com meu pai, o Rei, ou os que venderão algo para nosso povo. Se não isso, não aceito ninguém aqui.
- Sim, sou apenas uma criança que anda, canta e saltita. - Falou a criança cega num tom divertido - Nada tenho a tratar com o rei, apenas vim para admirar as belezas desta terra que dizes que é tua.
- Como assim digo? - Falou o pequeno ficando impaciente - Esta terra é minha, sou o filho do regente, assim como o herdeiro por direito de tudo o que esta aqui, tudo isto me pertence.
- Me Pergunto como se pode ser dono de algo que esta para além de si mesmo... - a criança olhava diretamente para o príncipe com um sorriso calmo e um olhar de algo que só poderia ser descrito como pena, mas ainda assim era diferente disto.
- Sou o herdeiro do Regente, e posso ser dono de tudo o que é maior ou menor do que eu. Tudo aquilo que esta em mim é meu, assim como tudo o que esta para fora também o é. - o príncipe parecia cada vez mais agitado.
- Hmm, perdão vossa Alteza Real, não tinha percebido que estava diante duma divindade! - Disse Abaixando a cabeça a pequena criança cega - Consegues ser dona de algo que é você, que esta em você e que esta fora de você! Não posso descrever a honra de ver alguém assim.
- Ainda me zombas? O que poderia você enxergar? Você é uma criança cega, e como uma criança cega poderia olhar para algo?
- Não disse enxergar ou olhar, disse ver. São coisas distintas, as primeiras se faz com os olhos exclusivamente, a última, nem tanto. Além dos olhos é preciso de um pouco mais de coisas como, por exemplo, estar com a mente aberta a qualquer possibilidade.
- Então, o que poderia você ver, pequena criança cega?
- Tudo! - Falou a criança de modo terno e morno - E você, o que realmente você vê, meu pequeno principezinho de uma terra distante? Quando tu fitas as coisas o que você vê para além de suas formas, para além daquilo que esta aparente, o que você realmente pode ver daquilo que tu olhas?
- Nada. - Respondeu o pequeno príncipe que começava então a ver as coisas ao invés de apenas olhar para elas.

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