quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Última Elfa

Houve um tempo quando as coisas eram simplesmente como elas eram e não como deveriam ser. Um tempo de sonhos e desejos, um tempo onde as coisas eram mais simples, e não era necessário muito dinheiro para se viver bem. Nesse tempo cada coisa com as quais alguém sonhava ganhava vida e força, e então podia caminhar livre pelo mundo. Era um tempo de reis príncipes e princesas, era um tempo de fadas e elfos. Era um tempo de magia e poder. Então, como todas as coisas que existem, este tempo chegou a um fim.
Não chegou sem aviso porém, chegou escrevendo na carne de cada ser do sonhar o seu advento. Chegou modificando a forma de como as pessoas sonham. Esta transformação findou com todos os seres do sonhar, com tudo que era simplesmente o que era, mas não o que deveria ser. As coisas que não se importavam com o que deveria ser simplesmente começavam a se importar e com isso foram pouco a pouco conhecendo seu fim. Um trágico porém certo fim. Os primeiros foram os Thuata, juntamente aos Leshay, as Salamandras e as Silfedes foram em seguida, os Gnomos, os Trolls, as ondinas e por fim os elfos. Da menor Pixe ao maior dos Nobres Thuata nenhum persistiu, nenhum salvo uma única elfa.
Uma pequena elfa que ainda acreditava nos sonhos, uma pequena elfa que ainda era como era, e nada além disso. Esta elfa dos bosques, num dia frio de outono pode pela primeira vez ver o causador de todo o sofrimento do seu povo. Pela primeira vez a elfa contemplou o Dragão que chamavam de Razão. Esta havia sido a besta que arrasara com seu povo, esta era aquela criatura que fez com que cada sonho desse lugar a uma teoria e a uma hipótese. Nada que era simplesmente sonhado teria valor ai. A elfa sabia, sabia que quem olhasse para a razão estava condenada a encara-la e eventualmente, assim como todo o resto de seu povo, ela também sumiria.
Foi quando sentada numa clareira em meio ao seu bosque de árvores de troncos prateados e com as folhas vermelhas a cair ao chão que ela avistou uma criança. Uma criança que andava em meio as árvores, cantando e dançando, alegre e serelepe. A elfa prestou mais atenção e viu os olhos brancos da pequena criança saltadora. Uma criança cega, possivelmente perdida no bosque. Ela era uma elfa e elfos não podem falar com humanos de maneira direta, pois assim são as leis do belo povo, porém ela não poderia deixar a criança andando sozinha pela floresta, foi quando ela teve uma ideia. Imitando uma andorinha e fazendo com que o som do riacho pudesse ser ouvido ela tentou conduzir a criança cega para um lugar seguro. Ela não poderia tocar na criança, mas poderia guia-la como fez tantas outras vezes no início dos tempos.
A criança não parecia exatamente ligar para o som do riacho ou para o arrulhar da andorinha. Ela Simplesmente se aproximava da clareira. A elfa por um instante pareceu incerta, pensou no que fazer, e tentou de alguma forma fazer com que a criança seguisse o caminho correto, para então achar seu lugar junto aos seus. Foi quando a criança disse:
-Não se preocupe, estou onde devo estar e caminho por onde devo caminhar.
A elfa não entendeu, como poderia isso, como poderia uma criança humana e cega saber onde ela estava, assim como conhecer seus intentos? Isso não poderia estar certo, mas as leis eram claras ela não poderia falar e assim o fez. Não falou apenas escutou.
-Perguntaria o seu nome, mas sei que não me dirias, perguntaria como você esta, mas também já conheço esta resposta. Pergunto, o que te faz triste e pensativa?
A elfa nada falou, apenas estava abismada em como alguém poderia falar assim com ela, ninguém era nem ao menos capaz de vê-la. Depois de todos esses anos a elfa aprendeu o segredo de como ficar invisível e o segredo de como permanecer em silêncio. Uma criança, mesmo que pudesse ver não seria capaz de olhar para ela. Mas parecia que esta criança encarava o fundo da alma dela, conhecia até o fim de seu último segredo.
-Você sabe que o fim de sua existência chegará em breve, não sabe? Sabe então que o Dragão virá e fará com que o último sonho acabe, não sabe?
Sim, ela sabia, mas nada poderia ser feito, o Dragão Razão se abateria sobre ela, e se os nobres não conseguiram enfrenta-lo quem era ela? O que um pobre Sonho tido numa tarde de primavera sobre um carvalho e selado com uma jura de amor eterno poderia fazer contra aquele que faz com que as coisas sejam como devem ser?
-Tudo. - Disse a criança de modo morno e tranquilo. - Juras de amor tendem a ser os sonhos mais poderosos. Apenas não sabem disso. São sonhos tão fortes que quando feitos em vão propósito podem matar aquele quem ouviu a jura.
A elfa assustou-se ainda mais. Temendo ter sussurrado de alguma forma o que pensou ela recuou, e o medo removeu a concentração e então fez barulho ao pisar numa folha seca de outono. Como uma criança poderia saber do momento no qual a elfa fora concebida? Como isso poderia ser possível e que poder seria esse que pode matar os humanos?
-Uma jura de amor, quando feita, tem o poder de levar vida longa aos homens, revigorar as forças, fazer com que herois se ergam e batalhas sejam vencidas. - A criança tinha um olhar plácido, mas parecia querer dizer algo que deveria ser perguntado para ser dito. - Quando desfeitas podem erguer muros entre pessoas, encher de tristeza infindáveis vidas e acabar com sonhos.
Acabar com sonhos, ponderou a elfa, assim como o Dragão Razão faz... O Dragão Razão incinera cada sonho em seu hálito de retórica e distorção, em suas asas de dor e repúdio mora o desalento dos sonhos. Até o mais perdido dos sonhos, em sua época, não era tão desolador quanto eram as asas do Dragão Razão. Seria o Dragão...
-Uma jura de amor rompida? - Disse a criança como se completando a frase da elfa. - A jura de amor de alguém que uma estrela fez para A Lua. A Jura que uniria para sempre e além os sonhos, mas foi rompida, e então a desolação da Lua fez com que ela acreditasse apenas nas coisas como elas deveriam ser, e não nas palavras das coisas como eram. Sendo então a primeira a deixar de ser com era e ser apenas como deveria. - A criança parecia um tanto entristecida com a história da lua, mesmo assim prosseguiu.- A desolação do amor perdido pode apenas ser salva por uma jura de amantes eternos, pois quando se ama, sonhamos infinitamente infinitas coisas de infinitos modos.
A elfa pensou no que a criança estava querendo dizer com tudo aquilo o que poderia significar tal coisa? E acima de tudo, quem era aquela criança que estava diante dela, falando tão claramente de coisas que ela não deveria saber. Muitas dúvidas começaram a se abater sobre a elfa. Foi quando ela sentiu a dor do desaparecimento, sentiu cada gota do ser dela começar a se dissipar sobre a dura e fria visão do Dragão Razão. As dúvidas traziam as incertezas e estas eram devoradas pela razão, mas os seres dos sonhos são apenas aquilo que são, e se tem dúvidas eles são dúvidas, e ao ter as dúvidas devoradas, eles também são devorados. Isso fez com que a elfa entendesse. O que dissipou os outros foram as dúvidas, estas eram as que deveriam ser combatidas.
-Sim, combatidas, mas dúvidas de amor não devem ser vencidas com a razão, mas com o coração - Disse apressadamente a criança- Entregue ao Dragão Razão a única coisa que ele não pode compreender, e fazendo isso, faça com o que outros sonhos tenham a esperança de nascer. Entregue a Razão aquilo que chamam de Amor.
E a elfa fez o que a criança disse, e ao fazer isso começou a se desfazer, mas sabia que não tinha sido em vão, e agora compreendia quem era a criança. O Fruto do Primeiro Beijo de Uma Jura de Amor Nunca Esquecida. A elfa sabia que não morreria, mas que viveria novamente, talvez como uma elfa, ou quem sabe uma humana, contudo sabia que um dia encontraria alguém que contaria para ela esta pequena história, a história de como o amor salvou os sonhos, e então lembraria de casa e dos tempos como eles eram. Lembraria da criança cega e acima de tudo, lembraria que a promessa feita na tarde de primavera sob a copa dum carvalho e selada com um beijo, foi mantida.

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