segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Jornada das Três Damas Flamejantes. Pt 2

A Dama seguinte foi aquela que trazia consigo o brilho escarlate do sangue. A criança sentia um cheiro que lembrava relva fresca, algo que parecia uma manhã de verão logo cedo antes de ficar demasiadamente quente para se sair para brincar. Essa Dama trazia consigo um olhar doce e terno e com um meio sorriso no rosto estava a dançar.

Dançava algo frenético num ritmo veloz. Com um olhar de menina faceira estampado em meio a um sorriso cigano e furtivo a Dama Escarlate encarava a criança. Encarava como se fosse arrancar até o último fio de inocência da pobre criança que ali estava a observar, e a criança encarava de volta. Com aquele olhar que só os que a muito perderam a visão são capazes de não realizar. A pobre criança cega não tinha olhos para o que estava por vir.

E o que estava por vir era luxurioso, lascivo e malicioso. A criança sentia um cheiro cortante e vermelho, e em sua boca jazia algo ácido e doce, com uma ou talvez duas notas florais, de flores que não existem por aqui. Dizem que o sabor apimentado é o sabor das coisas luxuriosas, quem disse isto certamente nunca provara de uma trufa de licor de limão. Um doce suave que te faz querer mais e um ácido pungente que te faz recuar e sofrer sempre que se prova. Este é o sabor da lascívia.

Então uma dança hipnótica, de movimentos serpentinos e circulares começou a ser feita. A criança a tudo observava, e seus olhos não desviavam dos olhos da Dama. Aquilo que estava sendo feito poderia ser facilmente confundido com um ritual de acasalamento, embora ao que parece não estava exatamente surtindo efeito com a criança. Esse é o mal de ser Louca, Cega, Criança e Poetisa, algumas coisas acabam não funcionando mesmo. Algumas coisas nem mesmo são entendidas. A Dama então dançou até que as noites e os dias pudessem ser confundidos como se sendo a mesma coisa e nisto ela parou e disse a Criança:

- Não sabias que fitar os olhos do pecado pode ser mortal?

- Sim – Disse calmamente a Criança. – Acontece que sou cego, então posso tranquilamente observar tua dança e olhar em teus olhos.

- Ora, como podeis ver se és cego? – Disse a Dama ficando impaciente.

- Observo cada coisa que vive com meu coração, este me revela cada coisa que preciso saber para seguir em frente e cada coisa que preciso saber sobre todas as pessoas.

- Então – Começou em tom desafiador a Dama Escarlate – o que estes olhos cegos enxergam em mim? Beleza? Formosura? Lascívia? Malícia? Ou tudo isso junto?

- Solidão. – Disse calmamente a criança.

- Como posso eu ser sozinha se tenho tantos ao meu lado? – Falou em tom zombeteiro a Dama – De nada servem estes seus olhos do coração. De nada adiantam.

- Não confunda as coisas, estar cercada de pessoas, as vezes nada quer dizer. Não importa o quão alto você ri, o quanto você dança, ou com quem você sai. Se no fim da noite você ainda não se sente acompanhada, nada disso vale â pena – Disse a criança com um olhar plácido e calmo.

Apenas silêncio pôde ser ouvido através da boca da Dama Escarlate, e uma sensação de que algo parecia inquietá-la. Seus olhos ficaram duros sua expressão séria e seus movimentos não mais pareciam fluidos, era como se algo tivesse removido parte da graça de sua dança. Como se as palavras da criança tivessem reverberado na Dama. A Dama fez seu movimento, dizendo para a criança:

- Se me acreditas só, faça-me então companhia, ficarias tu ao meu lado até que os tempos acabem, e depois para além disso? – Disse de forma triunfante a Dama.

A resposta porém veio rápida, algo que a Dama não esperava, pois sempre que fizera tal proposta a outras pessoas estas prontamente aceitavam, apenas para depois partirem e seguirem seus rumos, mostrando que palavras de nada valem, nada além de vento e grãos de areia. A criança de forma rápida e quase de forma automática disse:

- Não. Não faz sentido prometer tal coisa, pois mesmo que eu diga isso eu só poderia estar realmente ao teu lado se me permitires estar, mas como poderia eu fazer isto se nem mesmo você esta ao seu lado? – Vendo a expressão atordoada e atônita da Dama a criança prosseguiu. – Antes que qualquer um possa estar ao teu lado você precisa permitir-se estar consigo. Você sempre esta por ai, dançando e cantando, mas não esta no lugar mais importante. – A criança aponta para entre os fartos seios da Dama – Ai, em seu coração. E nem toda a volúpia do mundo pode manter alguém ao seu lado se você não permitir isto originalmente. Ame primeiro a si.

- Falar é mais difícil do que fazer. – Disse a Dama de forma grave.

- Não se preocupe, eu sou aquele que te abraçará forte e removerá da perdição, te darei os caminhos para que com teus próprios pés possa trilhar para aquilo que desejardes, e ter sempre em mente que não importa o quanto as coisas pareçam sombrias, sua jornada não é uma jornada de uma pessoa só...

- Não?


- Não, no seu caso em particular, é uma jornada partilhada por outras três.

Nenhum comentário: